30 de jun de 2012

Adaptação


Adaptation. EUA, 2002, 114 minutos, comédia. Diretor: Spike Jonze.
Provavelmente uma das melhores metalinguagens do cinema. Não fosse por Nicolas Cage, o filme seria verdadeiramente perfeito.

Confesso sempre ter havido algo que me fazia querer assistir a esse filme e outro algo – esse facilmente identificável: Nicolas Cage – sempre me refreava. Criar esse especial sobre Meryl Streep foi um grande motivo para finalmente me colocar a frente dessa fita e finalmente conferi-la, somente para descobrir que eu estava bastante enganado ao não tê-la visto antes, sobretudo porque se trata de uma grande obra, dessas que merecem atenção e que não podem não estar presentes na lista dos filmes vistos de algum cinéfilo.

Difícil apresenta a sinopse desse filme porque ela é o filme, literalmente. Charlie Kaufman traz a história de um personagem – ele mesmo – que tenta adaptar um livro chamado The Orchid Thief, escrito pela repórter Susan Orlean, sobre um homem cuja notoriedade aconteceu devido aos constantes roubos de orquídeas, mesmo em reservas nas quais ele definitivamente não poderia entrar. Dois planos se estabelecem: um no qual o personagem Kaufman tenta lidar com sua dificuldade em escrever um roteiro sobre um livro que ele acaba entendendo como inadaptável e outro no qual se apresenta a relação de Susan e John Laroche e as diversas perturbações que surgem ao longo de sua vivência enquanto pesquisador e objeto de pesquisa.

 Chris Cooper e Meryl Streep interpretando John Laroche, o expert em orquídeas, e Susan Orlean, a jornalista que investiga Laroche e seus métodos de colheita de material de análise.

Escrever sobre esse filme não é fácil, sobretudo porque o universo que ele abrange – seja no seu enfoque ou na sua produção – é muito maior do que o conteúdo exclusivamente encerrado no universo cinematográfico. Talvez, para começar, é importante ressaltar que Charles Kaufman, Susan Orlean e John Laroche são personagens verídicos, cujas vidas foram transpostas para as telas, não sem antes sofrerem algumas modificações básicas.  Também considero relevante dizer o livro The Orchid Thief (1998) também é real, já que Orlean realmente se dedicou à pesquisa sobre o cultivo e uso das orquídeas, sobretudo as raras, encontradas por Laroche nas diversas vezes que ele se apropriou de uma espécie praticamente extinta dessa planta. Mais a fundo, é necessário esclarecer que Kaufman já declarou ter verdadeiramente tentado adaptar o livro de Orlean, mas, enfrentando uma dificuldade imensa na transposição do caráter jornalístico da história de Laroche, ele decidiu escrever sobre essa sua dificuldade.

Compreendamos: Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julgou inadaptável, decidiu escrever um roteiro sobre ele mesmo, Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julga inadaptável. Ousou ainda mais: também escreveu sobre a veracidade acerca das pesquisas de Orlean com Laroche. Não bastando, mais um desafio: duplicar-se na figura do gêmeo inexistente Donald Kaufman (transpondo-o inclusive para a vida real, num processo inverso a tudo o que fez nesse filme, em que trouxe elementos da vida para a arte). Finalizando, deu aos personagens de Susan e John certa ficção, transformando-os em amantes e, mais do que isso, em consumidores de drogas extraídas a partir do extrato das orquídeas.

Spike Jonze, Charles Kaufman e Donald Kaufman (uma vez que o roteiro do filme é dos irmãos, devo atribuir também ao gêmeo os créditos por esse filme) realmente apresentaram uma obra cuja estrutura é, senão inteligentíssima, decerto um dos melhores trabalhos metalingüísticos que o cinema já viu, superando inclusive os trabalhos apresentados em “Cantando na Chuva” (1952), “A Noite Americana” (1973) e “Lembranças de Hollywood” (1990), sendo todos files que, em sua essência, abordam a indústria cinematográfica e o seu relacionamento consigo mesmo, nos mostrando os bastidores, as gravações, o processo artístico por trás do objeto de trabalho que um filme é. Considero essa uma obra simplesmente genial, porque ela não tem medo de transformar a realidade em arte ficcional (basta ver que todos os personagens são reais com histórias remodeladas) e, ainda, fazer o inverso, levando à realidade elementos fictivos. Não é à toa que Donald Kaufman, uma criatura que existe exclusivamente no universo artístico da ficção, mais especificamente nessa obra de 2002, foi nominado ao Oscar pela escrita desse roteiro, juntamente com seu irmão, Charles Kaufman, o “verdadeiro” autor do roteiro.

 Nicolas Cage dando vida aos gêmeos Charles e Donald.

Muito do filme se perderia não houvesse a edição de imagens que, dinamicamente, nos transporta da história dos aparentemente rivais irmãos Kaufman para a história de Susan e sua tentativa de entender que maravilha existe por trás das orquídeas, já que elas são objeto de atenção de um homem que, segundo as expectativas de Orlean, é muito interessante. Gosto especialmente da função da flor nas três histórias indubitavelmente reais: John Laroche, o ladrão de orquídeas, é o que é porque está sempre à procura de espécies raras e/ou em extinção; Susan Orlean, a repórter, viu em Laroche um tema interessante no qual se focar em sua pesquisa; Charles Kaufman, o roteirista, depois de analisado o livro de Orlean, achou-o adequado para uma história cinematográfica. O resultado é esse filme no qual a flor continua sendo o objeto de atenção de todos os personagens, mas gosto especialmente de sua simbologia na história da repórter: depois de acompanhar Laroche e descobrir o máximo que podia sobre sua vida, a repórter queria experimentar a sensação de encontrar um espécime raro da flor, então ela e Laroche saem à procura da inspiradora Orquídea Fantasma, que é um dos maiores tesouros para ele. Quando se deparam com ela, depois de percorrerem um laborioso caminho num pântano, finalmente a encontram – e Orlean se mostra decepcionada, uma vez que, afinal, constata ser apenas uma flor, não muito diferente de qualquer outra orquídea que já tenha visto antes; mais tarde, porém, ela descobrirá ser a orquídea a fonte de uma de suas maiores felicidades: a droga.

Meryl Streep e Chris Cooper com certeza são o ponto alto dessa produção. Acredito que os dois desenvolveram seus personagens de tal modo que é dificílimo não observá-los e crer que eles fazem jus às pessoas reais de que derivam. E eles souberam conquistar o espectador, mesmo que eles retenham características que notadamente os marginalizam. A começar pelo físico de John Laroche – já num primeiro momento, ele nos causa uma impressão estranha, justamente pela falta dos dentes da frente, cujo porquê é mais tarde explicado, causando no espectador uma sensação de agonia, sobretudo por causa do afastamento inicial em relação ao personagem. Já Susan é uma figura que aparentemente nos causa simpatia, mas partilhamos do seu descontentamento ante a tão esperada orquídea. Depois, há uma estranha – e extremamente simpática – união dela com Laroche, resultando num casal estranho, mas maravilhoso, que fica pelado numa casa num rancho cheirando o pó da orquídea e transando.

 Meryl Streep e Spike Jonze nos bastidores do filme.

Spike Jonze definitivamente transforma essa sua obra em algo verdadeiramente interessante que deve ser visto. Nenhum cinéfilo deve deixar essa obra passar em branco, pois ela definitivamente é uma das melhores produções da última década, e, não bastasse isso, ainda apresenta uma das melhores interpretações de Meryl Streep e, também, um momento interessantíssimo de Chris Cooper, na única interpretação sua nomeada ao Oscar. O grande problema do filme: Nicolas Cage. Afinal, ele sempre atua embasado em cacoetes terríveis que não acrescentam nada à atuação – mas aqui ele consegue não perturbar a trama, está aquém dos outros atores, mas, ainda assim, aceitável e quase satisfatório. O grande mérito está nas atuações de Meryl e Cooper, no roteiro de Kaufman – genial, insisto! – e na direção de Jonze, que soube bem como encaminhar o seu filme para um ritmo interessante, que somente valoriza a trama, que facilmente poderia ter se tornado confusa. A meu ver, este é facilmente um dos meus filmes preferidos e acredito que um dos files preferidos dos cinéfilos também.

4 opiniões:

Hugo disse...

É um filme com uma ideia e e um roteiro sensacional.

Charlie Kaufman cria uma trama que nas mãos de um roteirista qualquer se transformaria numa bagunça completa.

No faço parte daqueles que odeiam Nicolas Cage. Considero que os grandes erros dele estão na escolha dos papéis. Aqui sua escolha foi perfeita.

Abraõ

Celo Silva disse...

Texto muito bom. Esse especial da Meryl Streep está bem especial mesmo...hehe (com perdão do trocadilho). Adaptação é um dos meus filmes favoritos de Spike Jonze e Nic Cage, Streep é uma boa coadjuvante. Sem dúvidas, um dos bons filmes realizados no século 21.

J. BRUNO disse...

Filme excelente e o Charlie Kaufman é o cara, eu curto muito as figuras de linguagem que ele sempre usa em seus roteiros. O curioso é que este filme consegue arrancar um desempenho elogiável até mesmo do Cage... e a Meryl está sublime nele!

Ótima resenha!!!!

Júlio Pereira disse...

(Antes de tudo, uma leve correção: é Charlie Kaufman, não Charles). Adaptação é mais uma obra genial da mente perturbada do melhor roteiristas dos últimos anos. Considero também uma obra extremamente complexa, inteligente e muito tensa. No entanto, acho a atuação de Nicolas Cage a melhor do filme - e uma das melhores de sua carreira. Mas no quesito metalinguagem, o grande blowmind do Kaufman é "Sinédoque, Nova York" que leva isto à níveis inimagináveis.