22 de jun de 2012

Ironweed


Ironweed. EUA, 1987, 136 minutos, drama. Diretor: Hector Babenco.
Jack Nicholson e Meryl Streep - dois dos maiores atores da atualidade não conseguem tornar essa produção interessante.

Hector Babenco já havia proporcionado pelo menos dois grandes títulos ao cinema, sendo eles “O Beijo da Mulher-Aranha” e “Pixote - A Lei dos Mais Fracos”, sendo esse último um título vindo de uma co-produção entre Estados Unidos e Brasil, chegando inclusive à lista dos indicados e premiados do Oscar no ano de 1986. Em 1987, o diretor traz às telas a história escrita por William Kennedy em seu romance homônimo a respeito de duas pessoas que tiveram uma vida bem sucedida, mas que, à época registrada, no ano de 1938, se tornaram dois mendigos que mal conseguem sobreviver.

Dois dos maiores intérpretes da atualidade - Jack Nicholson e Meryl Streep - dão vida a Francis e Helen, que carregam consigo tristeza pelo que lhes aconteceu no passado e com que ele não conseguem lidar, nem mesmo esquecer. Ele, há 22 anos, deixou que o filho pequeno caísse ao chão, levando-o à morte - acontecimento que Annie, sua esposa, manteve omisso, permitindo então que ele não fosse visto com maus olhos, fosse pelos parentes ou pelos amigos; afinal, como ela mesma disse, não havia sido culpa nem dele nem dela, não havia por que espalhar dando margem a interpretações equivocadas ou propositadamente más. Helen, por sua vez, foi uma grande cantora das rádios, colecionava fãs, e era a herdeira do dinheiro de sua família; o irmão, porém, roubou-lhe tudo, deixando-a miserável, sem ter como se virar - inevitavelmente foi às ruas, onde passou a viver e onde, ao acaso, encontrou Francis, que estava doente e de quem cuidou, tornando-se assim companheira dele.

 Um pequeno brinde, mesmo sem saber onde dormirão à noite ou ainda se sobreviverão ao frio.

Acredito que esse foi o apenas o segundo filme a que eu assisti em que não vi Jack Nicholson interpretando um sujeito “peculiar” ou radical, como as criaturas por ele interpretadas nos filmes “Batman - O Retorno”, “O Iluminado”, “Um Estranho no Ninho”. O seu personagem é tão seguramente banal que é inevitável não gostar dele, não acho simpático, mesmo quando ele, por desespero, num misto de raiva e humilhação, dá umas chacoalhadas em Helen, por ela portar-se de modo mesquinho. A interpretação dele é bastante convincente e não me surpreende que ele tenha chegado em 1988 à sua nona indicação ao Oscar pelo seu desempenho em Ironweed, mesmo sendo o filme uma das obras mais potencialmente chatas a que já assisti. Os dramas pessoais de Francis só não se tornam maiores e mais interessantes, porque estão inseridos num filme sem vida, de desenvolvimento lento demais para pouco enredo; fosse de outro modo, decerto teríamos as nossas emoções bem mais acessíveis à história.

Pode-se dizer o mesmo de Meryl Streep, embora, a meu ver, sua interpretação é menor que a dele, assim como o seu espaço em cena, que parece bastante limitado, não cabendo a ela o tempo adequado para que sua personagem possa se desenvolver. A parte do enredo na qual ela é inserida é bastante pífia, tornando-a uma ranzinza que fica murmurando e gemendo para lá e para cá, havendo apenas uma pequena cena logo no começo que dá alguma amplitude psicológica a Helen, fazendo assim com que nós nos aproximemos um pouco mais dela - mas, como já disse, o filme chato não permite que compreendamos mais a situação da co-protagonista. A Academia se rendeu ao talento de Meryl em transformar sua pequena participação em uma atuação notável, mesmo que bastante simples e nem tão grande a ponto de merecer uma indicação ao Oscar. Mas, afinal, estamos falando do ano de 1988, quando blasfemaram ao indicar “Nos Bastidores da Notícia” como Melhor Filme; não havia por que não colocar Meryl como uma das melhores atrizes do ano.

 Catarse falha: nem o momento mais trágico gera emoção no espectador.

Falta um lampejo de vida à história de Hector Babenco, que se mostrou mais apto nos seus filmes anteriores. A história é cansativa, deveras lentas, o filme escorre, faltando a ele um ritmo mais aguçado. Qualquer amador sabe que é necessário fazer com que haja velocidade numa composição artística, seja filme, história em quadrinhos ou poesia. Encha os quadrinhos com muitos balões e veremos rapidamente uma dificuldade na leitura e compreensão; componha uma poesia cheia de palavras de significados pouco conhecidos, obrigando o espectador a procurar no dicionário a cada duas três sílabas poéticas e haverá notadamente desinteresse. É justamente esse problema que acontece em Ironweed, cujos tradutores nem sequer souberam como transpor o título original para uma adaptação em português a fim de torná-lo mais atrativo. Como apontei, as histórias de Francis e Helen parecem potencialmente interessantes, mas se mostram aborrecedoras devido à lentidão do filme, que ultrapassa duas horas embora nós tenhamos a sensação de que vimos material para apenas quarenta minutos. E a pergunta que fica é: o filme foi esticado?

Nem mesmo os momentos oníricos de Francis alicerçam o interesse do público. Os seus devaneios e as suas alucinações, que deveriam trazer maior profundidade ao personagem, acabam por limitá-lo a um “será que sou louco?”. A questão dos mendigos que morrem por falta de proteção também é rapidamente esquecida bem como a discussão acerca do preconceito sofrido por eles quando as pessoas nem sequer sabem que motivos os levaram àquela vida que, segundo Helen, às vezes nem corresponde à “dignidade humana”. Estamos falando de Hector Babenco, Jack Nicholson e Meryl Streep: três pessoas extremamente competentes que não dão ao filme ares de qualidade. Infelizmente, o filme é esquecível e a sua sutileza poética acaba sendo desmerecida pela falha de execução do diretor.

8 opiniões:

Alan Raspante disse...

Pocha... Já tinha ficado animado com o elenco e a direção, mas já que o filme é tão chato assim, eu nem vou me arriscar, rs

Melhor deixar pra lá...

Ailton Monteiro disse...

Primeira vez que entro no seu blog e já de cara gostei muito. A ideia de escrever sobre todos os filmes indicados ao Oscar de Meryl Streep foi muito boa. Eu mesmo não vi todos os filmes. Tenho o costume de fazer peregrinações pela obra de diretores que julgo importantes, mas elas acabam se tornando mais espaçadas, não tão organizadas como aqui.

Carissinha disse...

Sua crítica me desanimou, com certeza. Um dia irei ver, já que amo a Meryl, mas não será agora.

Hugo disse...

A maioria dos críticos considera o filme chato, mas mesmo assim ainda tenho curiosidade em assistir.

Abraço

J. BRUNO disse...

Eu ainda não assisti, mas eu também ainda tenho curiosidade de conferi-lo, esta questão sobre ser chato ou não acho que acaba sendo mais pessoal, depende muito do quanto você se envolve com a trama.

Júlio Pereira disse...

Acredita que esse é um dos filmes que tinha mais interesse da carreira da Meryl Streep? Na verdade, já o procurei em várias locadoras e não encontrei. Seu texto me deixou meio borocochô, mas ainda acho o título curioso e pretendo ver. Aliás, sobre o Jack Nicholson, recomendo um maior aprofundamento na carreira dele (quem sabe o próximo homenageado do blog?), pra conhecer mais de seus papéis "normais, que são vários e os melhores!

willi8am di castilho disse...

Ironweed é o retrato de uma sociedade perdida, fracassada e sem esperanças. Hector Babenco consegue captar essa angústia nos dois personagens Helen e Francis. A história de amor áspera e amarga, repleta de angustia e traumas nos deixam emocionados e inquietos. A grande direção de Babenco e as interpretações de Meryl e Jack não memoráveis. E o filme não é lento coisa nenhuma. é que estamos mau acostumados com os filmes de Hollywood que são rápidos demais. É o tempo do filme é o tempo de suas vidas, que andam sem direção e sem nenhuma proteção. Um grande filme sem dúvidas!

willi8am di castilho disse...

É devo descordar de alguns comentários sobre o filme Ironweed.
O filme não é lento coisa nenhuma. É que estamos habituados a rapidez dos filmes de hoje e quando cruzamos com uma obra como essa, humanista, crua e cheira de sígnos como Hector Babenco já havia usado no espetacular "Pixote" e "O Beijo da mulher aranha" achamos um pouco lento. E quanto as interpretações são dignas de Oscar. Meryl e Jack fazem um casal de Mendigos carregados por fortes traumas e insatisfações que entre um conflito e outro podemos sentir na pela a culpa, a dor que os domina. Parece uma despedida eterna, a caminho do precipício. Um história de amor áspera e amarga de terminará num beijo de afogados.
É um grande filme que mostra um lado que os americanos não gostam de se lembrar, como os assassinatos a mendigos a sangue frio. Um belo filme, assistam e comprovem!
William Di Castilho, Arcoverde-PE