9 de jun de 2012

A Mulher do Tenente Francês


The French Lieutenant’s Woman. Reino Unido, 1981, 124 minutos, drama. Diretor: Karel Reisz.
Potencialmente, uma das interpretações mais pungentes de Meryl Streep num enredo que cativa o espectador.

O filme dentro do filme. Não se trata de uma característica em comum nos roteiros cinematográficos, afinal a linguagem falando dela mesma – no caso, o cinema falando dele mesmo – é um recurso metalingüístico já bastante explorado e sempre revolve a curiosidade do espectador em relação a determinados assuntos. Nesse filme, de 1981 estrelado por Meryl Streep e Jeremy Irons, vemos o uso desse recurso: na trama, o livro “A Mulher do Tenente Francês” (1969), de John Fowles, é adaptado no filme de mesmo nome no qual os atores Anna e Mike interpretam os protagonistas do romance literário Sara e Charles, respectivamente, uma moça marginalizada na sociedade inglesa na qual vive e um biólogo que eventualmente se apaixona por ela.

Têm-se dois plots nesse filme, ou, como vejo, uma trama central (o romance entre Sara e Charles) e uma história secundária, que mostra os atores Anna e Mike desenvolvendo as personagens do livro, mas, apesar de a diferença na narrativa ser nítida, o ápice do filme é justamente conseguir mesclá-las num único enredo, no qual os personagens de Anna e Mike, os atores, se confundem com os personagens Sara e Charles, do filme que estão fazendo. Percebemo-los em épocas notadamente distintas – os atores que gravam o filme vivem a contemporaneidade enquanto os personagens interpretados por eles encontram-se no século XIX, época na qual as convenções morais eram bastantes ferrenhas e, sendo assim, eram as principais causas dos problemas de Sara. Antes de dar continuidade, penso que seja importante ressaltar a importância dos trabalhos de Meryl Streep e Jeremy Irons nesse filme, porque eles conseguem com eficiência apresentar distinções entre as duas personagens que interpretam e conseguem ministrar bem as doses de drama e de humor a cada seqüência filmada, garantindo assim que não nos confundamos em relação a quem estamos vendo, mesmo que, como no caso de Mike / Charles, haja uma notável comunhão entre os personagens nos momentos finais da história. 


A mulher do tenente francês é uma mulher cuja vida parece bifurcada entre esperar e sofrer. Sua espera, como todos dizem, é por um homem que a tornou o que ela é, e seu sofrimento, segundo ela mesma, é por se ter casado com a vergonha ante os acontecimentos que lhe surgiram na vida, fazendo-a ser o que ela é e fazendo-a ser aquilo que os outros pensam que ela seja. Charles, em frente à figura misteriosa de Sara, não consegue manter-se firme na sua proposta de somente ajudá-la e pouco a pouco cede às pressão internas, enamorando-se gradualmente dela, aproximando-se de tal modo que se veria irrefreável mais tarde, principalmente porque toda a sua vida seria transformada por causa do seu amor com uma mulher julgada mundana e, sobretudo, pelo cancelamento do seu casamento com Ernestina, nobre da região cuja família e extremamente influente.

Penso que a qualidade do filme se deve mais à atuação dos atores principais do que ao seu roteiro, direção ou mesmo sua fotografia, que é muito interessante, intercalando bons momentos sombrio à história que é narrada. Meryl Streep com certeza concebe uma interpretação que mistura angústia e alívio, em momentos marcados e eficientes, em situações fundamentais a continuidade da trama. A atriz consegue realmente mostrar eficácia e paixão à sua interpretação, basta vê-la como Sara, toda resignada e passional em situações que realmente a estrangulam o tempo todo e não lhe permitem sair da clausura moral na qual vive. Jeremy Irons também oferece uma interpretação bastante sólida, principalmente como Charles, e faz o espectador compreender perfeitamente a relação entre ele e Sara e o porquê de ele tão suavemente ceder aos encantos daquela mulher misteriosa. 


Não nego que meu principal atrativo pelo filme era conhecer, a princípio, que conexões e faria entre as duas histórias mostradas e de que forma as personagens do filme estrelados por Anna e Mike interfeririam na vida dos atores. E é notável que parecem as histórias caminharem em sentidos opostos: se a situação de Sara e Charles fica cada vez mais difícil, a situação de Anna e Mika parece bastante fácil, apesar de ambos serem casados e, qual os personagens no filme que rodam, não devessem por motivos morais estabelecer tão comunhão.

A obra não é confusa, apesar das duas narrativas, na abstração, se embaralharem. Digo “abstração”, porque é evidente na trama que cada uma é muito distinta da outra, Karel Reisz fez questão de não torná-las uma só justamente para que não se perdesse a estética de cada subtrama. Mas é evidente que há um momento no qual as duas narrativas se unem, associando-se – a última cena do filme nos prova isso. O diretor conseguiu arrancar de seus atores excelentes interpretações e, mais do que isso, conseguiu unir excelentes características ao filme – sua fotografia e direção de arte são elogiáveis, basta ver as cenas que irremediavelmente nos remetem às poesias bucólicas, com a melancolia crescente num misto de confidência e apreciação em meio ao verde brando do bosque; também as cenas em que Sara fica no caminho de pedras que leva ao mar, observando o mar, supostamente esperando o amado regressar, apesar de saber impossível o seu retorno. Reisz realmente nos trouxe uma obra pungente, que, embora com alguns problemas na execução da parte final, consegue manter o espectador atento à trama, ansioso pelo que virá depois, sem desgrudar os olhos, sobretudo, da excelência cênica de Meryl Streep, irrepreensível. Se a trama não chamar a atenção, vale pelo menos para conferir o desempenho do casal Streep-Irons, que realmente são a alma dessa produção.

3 opiniões:

Kamila disse...

Ainda não assisti a este filme, mas todos dizem se tratar de uma das obras mais densas que a Meryl Streep já fez. A conferir ainda! Adorei seu texto!

Alan Raspante disse...

Esse especial da Streep está realmente sensaional!! Também ainda não vi este filme, mas se Meryl tem uma boa atuação, então vale a pena!

Verei!

Matheus Pannebecker disse...

Pouca gente viu... O que é uma pena. Fica no meu TOP 10 de interpretações da Meryl!