24 de jun de 2012

Um Grito no Escuro


Evil Angels. Austrália / EUA, 1988, 122 min, drama. Diretor: Fred Schepisi.
O mérito do filme está na interpretação de Meryl Streep e Sam Neill, já que seu roteiro é bastante confuso e o resultado final é apenas mediano.

Fiquei bastante interessado na história de Lindy Chamberlain quando ouvi sua história. Erros judiciais não são incomuns, embora pouco debatidos, e creio haver inúmeras pessoas cuja liberdade foi tomada – em alguns casos, até mesmo pessoas cujas vidas foram cortadas – justamente por causa de ausência de provas que sejam capazes de efetivamente inocentar ou culpar um réu. Recentemente, o cinema nos apresentou a história de Betty Anne White no filme “Uma Vida pela Verdade” (2010), no qual uma mulher se esforçava arduamente para provar que seu irmão fora injustamente condenado. Acredito que exemplos assim – na vida real ou na arte – não sejam difíceis de encontrar.

O caso do casal Chamberlain é ainda mais curioso, porque a situação dramática deles se tornou uma paródia involuntária e também porque a história em si parece absurda. Depois de algum tempo num acampamento com a família (o marido, dois filhos pequenos e um bebê), Lindy Chamberlain constata, ao ouvir o choro de Azaria, sua filha de nove meses, que a criança não está mais no berço na tenda onde ela a havia colocado. Ao ver próximo da tenda alguns dingos e estado de agitação, a senhora Chamberlain não teve dúvida: o dingo havia comido sua criança. E justamente essa frase tão difundida – no original, “the dingo ate my babe”, com o sotaque australiano fazendo jus à sua nacionalidade – acabou tornando a situação extremamente debochada. Tendo dado várias entrevistas acerca do evento, sempre alegando serem os lobos os responsáveis pela morte da sua filha, Lindy acabou alvo de especulação e deboche: os animais, afinal, sempre fizeram parte da fauna australiana e nunca se registrou caso de ataque de dingo – a frase, então, tornou-se sinônimo para esconder algo que foi feito de errado e cujo responsável decerto não é o outro.

 O constante confronto com a mídia: as dessa já devido ao julgamento no qual era acusada de assassinar sua própria filha.

A frase é conhecida e associada ao filme, embora em nenhum momento Meryl Streep, intérprete de Lindy Chamberlain, a pronuncie. Na verdade, ela afirma, alto e claramente, apesar do seu notável desespero, que o “dingo took the babe”. E constatamos, afinal, não ser mentira, principalmente porque hoje já sabemos que Chamberlain deduzira corretamente e sua criança, afinal, havia sido tomada pelos lobos. Curioso pensar que isso ocorreu em 1980, sendo o filme de oito anos depois (portanto, 1988), quando já se haviam removidos as acusações contra os Chamberlain, mas somente em 2012, 24 anos depois de liberta, que finalmente se tornou legal a versão do casal, tornando Lindy e Michael livres de todas as acusações e inocentados efetivamente do crime.

Voltando agora ao filme em si e me focando exclusivamente nele, é bastante fácil para o espectador se colocar na situação dos australianos ante as declarações do casal cuja filha foi morta, principalmente pelo seu comportamento em relação aos eventos. Mas, também, não sei até que ponto o roteiro buscava atingir esse nível de proximidade com uma possível realidade e até que ponto ele é confuso mesmo, porque parece que o casal não está nem um pouco abalado com a perda de filha que sempre quiseram e, não obstante, ainda se mostram em fartura daquela situação proveitosa que a todo o momento os coloca na mídia. Os argumentos são vários: não se entristeceriam, porque, afinal, aquilo havia sido vontade de Deus (vale lembrar, em tempo, que o casal é religioso); também aproveitariam a situação, como eles mesmos afirmam, para advertir outros pais incautos, justamente para que a situação não se repita. A bagunça é tanta no roteiro que é realmente difícil dizer quais são as verdadeiras circunstâncias nas quais o casal se vê inserido – o próprio espectador põe em questionamento as ações de Lindy e Michael.

O roteiro confuso com informações extensas e cansativas parece ser reforçado pela direção bastante apática de Fred Schepisi, que faz do seu filme uma obra bastante comum e, às vezes, monótona. Só não totalmente esgotante porque Streep e Neill, que dão vida ao casal protagonista, conseguem lidar muito bem com os seus momentos em cena e, enfim, usam o que podem ao seu favor. Só tomamos conhecimento da dor do casal, graças aos atores, nas cenas do tribunal, quando eles se mostram introspectivos, mas bastante firmes – Lindy várias vezes afirma que não quer prolongar aquilo e que gostaria de responder rapidamente às questões que lhe fazem, mesmo que isso implique ouvir constantes acusações horrendas de crimes que ela certamente não cometeu. Em vez de chorar em prantos, os olhos marejados de Meryl Streep provam o caráter da personagem: talvez duvidosa, mas certamente verdadeira ali. 

 Confiram aqui um exemplo de deboche da famosa frase de Lindy Chamberlain.

Schepisi se estende nos momentos que não são necessários, já que o forte do filme é, afinal, os momentos no tribunal. Tudo o que vem antes, com exceção da constatação do sumiço da criança, é bobagem desmedida, que só serve para alongar a produção, que, a meu ver, facilmente poderia ter meia hora a menos sem qualquer prejuízo à linha narrativa. Até que cheguem as cenas do tribunal, quando finalmente percebemos o foco do filme – as recorrentes argumentações de uma família acerca daquilo que eles julgam verdadeiro –, tudo o que vemos é um enredo que parece não saber para onde vai, já que opta por mostrar a tragédia da família, o reerguimento dela, os novos caminhos traçados, tudo isso posto de jeito desordenado e inapropriado. Não houvesse ali os atores, sobretudo Streep, decerto o filme cairia de tal modo que talvez nem se pudesse conferi-lo.

Um pouco em desuso atualmente, a frase máxima dessa obra ainda carrega o seu tom sarcástico. Os céticos podem simplesmente colocá-la no youtube para ver o jeito como todos faze questão de torná-la cômica. Se os australianos já não conseguiam acreditar nela com segurança, porque o histórico de agressões de dingo parecia não corroborar aquela afirmação, o comportamento histriônico e midiático do casal também não ajudou e são praticamente esses os dois pontos que permeiam o filme, que não atinge nível elevado nem abordando um assunto polêmico, como é a questão das condenações inadequadas e, ainda, dos assassínios disfarçados, que hoje sabemos não ser aplicável em relação aos Chamberlain.

1 opiniões:

Kamila disse...

Como eu disse no seu comentário sobre a segunda parte das indicações da Meryl Streep ao Oscar, na minha opinião, o terceiro Oscar dela deveria ter vindo justamente pela atuação neste filme. O trabalho dela é soberbo, desde a composição do sotaque, até à parte física e a dificuldade que deve ser tentar fazer com que o público sinta empatia por uma mulher que já está em xeque desde a primeira cena. O curioso foi que eu senti empatia pela mãe, pela situação que ela vive e pela desconfiança em torno dela e do pai. É uma baita atuação, que merecia, sim, o Oscar.

Em relação ao filme, concordo que tenha suas irregularidades, mas, mesmo assim, acho uma obra poderosa, especialmente do ponto de vista dramático.