5 de jun de 2012

O Franco-Atirador


The Deer Hunter. EUA / UK, 1978, 182 min, drama. Diretor: Michael Cimino.
Uma obra cuja duração não faz jus à sua eficiência fílmica e que nem é tão boa como todos a julgam.

A chamada Guerra do Vietnã havia acabado há pouquíssimo tempo quanto Michael Cimino se reuniu a Robert De Niro, Christopher Walken, John Cazale, John Savage e Meryl Streep para realizar essa grande produção, o grande hit Cult do ano, filme que marcaria a grande premiação do Oscar de 1979, a primeira de muitas indicações de Meryl Streep, o último filme de John Cazale (já bastante doente à época das filmagens) além de ter se tornado um filme-referência para muitos títulos e abordagens sobre a guerra que viriam e de notadamente ostentar uma visão bastante norte-americana e patriótica acerca dos problemas dessa guerra que os vietnamitas, em oposição aos estadunidentes, chamam de Guerra Americana.

O foco do filme é notadamente a relação dos personagens centrais – Michael, Steve e Nick, todos russo-americanos – com as situações pelas quais eles passam. Assim, é necessário um grande percurso de suas vidas a fim de que a construção de suas perspectivas seja bastante concreta conforme a história se desenvolve. Conhecemo-los em momentos anteriores ao casamento de Stanley, outro amigo, com Angela, momento em que todos os amigos estão reunidos e momento no qual somos apresentados a outros personagens, como Linda, namorada de Nick, por quem Michael nutre sentimentos de amor e de quem tenta escondê-los. Basta o começo para percebê-los em suas personalidades: Michael é centrado, Steve é amistoso e Nick é bastante introspectivo. O que segue é a ida deles à peleja. Conhecemos então a nova situação deles – o combate que eles têm que enfrentar na Guerra do Vietnã – e, posteriormente no discurso narrativo do filme, as conseqüências desse período em que eles foram combatentes.

Como disse – e reafirmo – se trata de um filme bastante psicológico, ainda que inegavelmente haja inúmeras cenas de ação que permeiem toda a produção, principalmente porque se trata de uma narrativa cujo plano de fundo – dependendo do momento, sendo o foco principal – é a guerra e as suas características próprias: desumanização, violência, dinamicidade e periculosidade. Compreender a natureza bélica é fundamental para que, mais tarde, também possamos compreender as conseqüências dela. Robert De Niro comanda o elenco com seu personagem sério, séquito, próspero – é evidente que Michael é o líder do grupo e que todos lhe dedicam confiança, basta notar as cenas nas quais as ações advêm exclusivamente de suas decisões, como, por exemplo, a famosa cena da roleta-russa, que mostra Michael e Nick prostrados um a frente do outro, sob a pressão de vietnamitas que os obrigam a jogar um contra o outro.


Aliás, aproveitando que citei a cena, cabe comentar que ela é fundamental. Principalmente se considerarmos que ele precedeu o filme: antes de ser uma trama sobre soldados na guerra, era uma trama de homens que vão pra Las Vegas e se envolvem numa roleta-russa. Michael Cimino e Deric Washburn tomaram as idéias de Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker (que, a tempo, foram também creditados pela produção do roteiro) e transformaram-na na narrativa a que assistimos ao longo de quase três horas. Não fosse a cena do jogo, não haveria introdução à segunda parte do filme, que consiste justamente numa análise do personagem Nick, interpretado por Christopher Walken, que ficou permanentemente perturbado por essa experiência traumática, e, não existindo o jogo no filme, também não haveria um grande momento de tensão ao final da obra, que consiste justamente num reencontro brusco entre Michael e Nick, que desaparecera sem deixar rastros.

Honestamente, apesar de as propostas do filme serem majestosas, não o vejo como uma grande obra, a despeito do que dizem colegas cinéfilos que apreciam a trama. Não penso que seja um desses filmes memoráveis tampouco que seja uma produção digna de nota, de referências e, muito menos, de grandes elogios, a não ser que eles se refiram à cena na qual Michael e Nick se vêem pela última vez, ou à interpretação de Meryl Streep e Christopher Walken, verdadeiramente talentosos nessa película e dotados de uma atuação potente, ainda que singela no caso dela devido à pouca participação de sua personagem na trama. A meu ver, os grandes momentos de interesse nessa produção realmente se focam nos poucos momentos em que Meryl Streep aparece e na participação de Walken, que nos desperta o interesse pela sua história.


Se pensarmos em filmes que retratam as conseqüências da guerra, há obras que certamente têm melhor execução e que conseguem manter o espectador atento por muito mais tempo (até porque a narrativa de “O Franco-Atirador” não é capaz, por si só, de justificar toda a demora de exibição da obra). Basta recorrermos ao cinema mais próximo de nós, mais “contemporâneo”: “Guerra ao Terror” e “O Mensageiro” – este de 2009, aquele de 2008 – mostram com a mesma eficiência (ou talvez até mais) aquilo que “O Franco-Atirador” tenta nos mostrar. Jamais conseguiria explicar o que fez com que essa produção se tornasse tão cultuada, mas, para mim, trata-se de barulho demais pra pouco resultado. Acredito que nenhum dos personagens sejam verdadeiramente desenvolvidos, apesar da longa duração do filme: Michael parece sempre uma incógnita, assim como o relacionamento dele com Linda; Nick, cujos problemas se intensificam – ou pelo menos deveriam se intensificar à medida que a trama avança –, desaparece num momento para retornar só depois, num momento-surpresa, seu ressurgimento já diagnosticando uma atitude autodestrutiva. Mistura de previsibilidade com falta de cerzimento na trama, que é meio esfarrapada.

Se o tema for guerra, há decerto outros bons filmes a ser explorados. Se o tema for trama pós-guerra, também penso haver outras tantas obras que desempenham bem esse papel. “O Franco Atirador” me soa obra pretensiosa cujo desenvolvimento se dá por aquilo que o espectador pensa ver e não por aquilo que ele verdadeiramente vê e isso não é uma característica boa, não numa obra de intenções tão simples e resultados tão pífios. Reiterando: Meryl Streep vale a pena ser vista. O mesmo digo acerca de Christopher Walken, numa interpretação maravilhosa, que cativa o espectador a cada momento e que realmente nos faz crer em cada situação vivida. De um modo geral, quanto ao resto, o filme não é tão interessante, mas se o espectador agüentar à longa introdução, decerto será capaz de vê-lo até o final e concluir por si só os aspectos bons e ruins desse filme.

3 opiniões:

O Narrador Subjectivo disse...

Realmente, a introdução é muito longa, toda a primeira hora é entediante. Mas a partir do momento que eles vão para o Vietnam, o filme entra num ritmo diferente e a mítica cena da roleta russa é, sem dúvida, das mais intensas da história do cinema.

Hugo disse...

Eu considero um grande filme e o sucesso pode ser muito creditado a ser um dos primeiros longas a tocar na Guerra do Vietnã, que era um ferida recente no orgulho americano.

Abraço

Júlio Pereira disse...

Diferente do que alega, Luís, O Franco Atirador é um filme que divide cinéfilos e críticos. Na época que vi, eu adorei, mas tenho de rever. Os momentos da roleta-russa são extremamente tensos. Pra mim, nesse filme Meryl Streep tem pouca voz e é ofuscada pelo talentos de seus companheiros em tela!