28 de jun de 2012

Música do Coração



Music of the Heart. EUA, 1999, 124 min, drama. Diretor: Wes Craven.
Apesar de mediano, o filme tem bons momentos.

Confesso que minha primeira grande surpresa com esse filme foi justamente o fato de ele ter sido dirigido por Wes Craven, diretor cujo nome está associado ao cinema de terror, tendo lançado títulos que são referências, como “Aniversário Macabro” (1972), “Quadrilha de Sádicos” (1977), “A Hora do Pesadelo” (1984), além da saga “Pânico” (1996 - 2011). Praticamente toda a filmografia de Craven é recheada de filmes que definitivamente passeiam longe do gênero de Music of the Heart, filme que, aliás, ele só dirigiu sob a condição de também dirigir o terceiro episódio da série com o ghost face, já que ele queria se livrar da franquia da qual ele e Kevin Williamson foram criadores.

Tendo assinado contrato para dirigir “Pânico 3” (2000), o estúdio finalmente liberou “Música do Coração” (1999), no qual Craven se reuniu com Meryl Streep, Ângela Bassett (que já havia participado de outros filmes do diretor) e com Gloria Estefan, cantora mundialmente reconhecida. O elenco, sob direção de Craven e baseado no roteiro de Pamela Gray, traz a história verdadeira de Roberta Guaspari, dona de casa cuja vida virou de cabeça pra baixo quando seu marido a abandonou e, por incentivo da mãe e de um ex-namorado, decidiu tentar uma vaga como professora de violino numa escola pública, local no qual obteve sucesso e apoio do governo por dez anos. O choque acontece quando se descobre não haver mais incentivo financeiro público para as aulas, implicando no fechamento do curso de violino, o que obriga Roberta e todos os envolvidos no programa de ensino a encontrar meios alternativos de financiar as aulas.


Já no começo do filme percebemos um tom de feel-good movie. Não se pode, em momento algum, pressupor que algo ali vá verdadeiramente dar errado, já que a simples incursão de Roberta numa escola marginalizada (os alunos são, sobretudo, afro-americanos e hispânicos, grupos sociais notadamente desvalorizados nos Estados Unidos) e a imediata antipatia dos alunos faz com que pensemos que, a partir dali, só é possível dar certo e não mais errado do que já está. E é justamente isso: atravessados os problemas iniciais, a personagem se insere de tal modo na vida dos alunos que ao espectador cabe observar qual será, então, o próximo e talvez absoluto, pico de tensão da história. Para mim, a história é claramente dividida em dois grandes atos: o primeiro apresenta as dificuldades de Roberta em se adequar à nova escola, bem como em conquistar os seus alunos e, não por menos, lidar com seus filhos; o segundo bloco se apresenta depois de transcorrida uma hora de fita e ele mostra aquele que se alega o grande plot da narrativa: a luta de todos os envolvidos no programa de ensino de violino para mantê-lo como matéria adjunta no currículo escolar daquela escola.

Vejo a narrativa dividida em dois momentos bastante distintos, porque é perceptível que a primeira parte se encerra próximo à metade do filme. Não è toa que todos os alunos de Roberta, aqueles que inicialmente se mostravam antipáticos com a nova professora, findam sua participação antes do meio da história e retornam depois, justamente como um elemento a mais que une a primeira e a segunda partes. Ambos os atos acontecem tranquilamente e nenhum apresenta nenhum grave problema. De certo modo, o filme é bastante linear, muito constante e satisfatório na sua linearidade, sem nada que perturbe o modo como ele transcorre. Assim, considero essa uma obra de fácil leitura, sobretudo porque ela se trata mais de uma obra sensual (relacionada aos sentidos e ao despertar deles) do que uma obra realmente focada na trajetória da vida da personagem principal ou, ainda, numa dessas produções alicerçados nos diversos símbolos que mantêm o espectador à procura de seus significados.


Talvez o grande êxito do filme seja Meryl Streep e, em poucos momentos, a presença de Angela Bassett, nua interpretação às vezes exagerada, mas, ainda assim, intensa. Meryl, satisfatória, faz com que o espectador se sinta simpatizado pela sua personagem e consegue conduzi-la até o final do filme adequadamente. Se isso serve para valorizar o trabalho da atriz, podemos dizer que ela aprendeu a tocar violino, tendo praticamente seis horas diárias por seis semanas – o empenho lhe rendeu uma indicação ao Oscar, que a fez competir com atrizes como Hilary Sawnk, Annete Bening e Julianne Moore, por, respectivamente, “Meninos Não Choram”, “Beleza Americana” e “Fim de Caso”, todos também de 1999.

Como diretor, Craven não parece ter feito muito – seu filme, grosso modo, é bastante simples e não há que verdadeiramente o faça notar. Suas produções de terror são claramente mais suas do que esse filme, que poderia ter sido dirigido por qualquer outro diretor e que nós provavelmente não notaríamos tanta diferença. Isso não significa que o filme seja ruim, de modo algum. Como eu disse: é uma obra linear que tem seus bons momentos, mas que está longe de ser ruim ou de ser muito boa. Vale a pena conferir. No meu caso valeu a pena porque gosto do trabalho tanto de Meryl quanto de Wes, mesmo que essa parceria não tenha resultado em nenhuma grande maravilha.

2 opiniões:

Kamila disse...

Acho esse filme um dos mais fracos da carreira da Meryl, apesar da história ser um tanto inspiradora. E, pra falar a verdade, acho que ela só foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por esse longa porque era Meryl Streep...

Celo Silva disse...

Sabe que gosto desse filme? Lembro que quando assisti, achei um filme inspirador, mas tem tanto tempo, que teria que rever com uma visão mais amadurecida. Enfim, uma realização com Streep sempre vale a pena. Um otimo texto. Abração.