26 de ago de 2012

A Estirpe dos Malditos


Children of the Damned. R.U., 1964, 88 minutos, terror. Diretor: Anton Leader.

A adaptação britânica do romance de John Wyndham é bastante inferior à versão de 1995 de John Carpenter - e olha que essa versão já não é muito boa.

Confesso que somente assisti a esse filme porque me enganei e acabei por baixá-lo em vez de baixar a produção estadunidense de 1960, que é a que eu gostaria de assistir. Mas, como já tinha baixado o filme, acabei assistindo - vai que se tratasse de uma obra de terror excepcional que me fizesse ter medo, como há bastante tempo não acontece. Pois bem, isso não aconteceu ao longo da hora e meia em que assistia á história de seis crianças que têm capacidades extraordinárias de raciocínios além de poder se comunicar umas com as outras, mesmo estando em partes diferentes do mundo.

 As crianças de diversos lugares do mundo e uma refém.

Logo no começo do filme, nos seus minutos iniciais, percebemos que a figura do jovem Paul é bastante sinistra: a criança é extremamente silente, de olhares fixos, e, embora seja um garoto bastante bonito, há algo nele que refreia o nosso pensamento de que ele seja angelical. Não demora a que descubramos outras duas coisas: ele é extremamente inteligente e consegue influenciar as pessoas a fazer aquilo que ele quer que a pessoa faça - incluindo se matar. É justamente isso que acontece com sua mãe, a quem ele odeia e que, em retribuição, também o odeia. O geneticista Tom Llewellyn e o psicólogo David Neville, ao comporem e aplicarem um teste de QI em todo o mundo a fim de descobrirem as crianças mais dotadas, descobrem outras cinco crianças que têm exatamente as mesmas características de Paul. Achando o fato curioso, eles reúnem as crianças para examiná-las sem evidentemente saber que elas realmente queriam estar juntas.

Confesso que as cenas introdutórias são realmente interessantes e não deixam a desejar. Todo o clima criado favorece a atmosfera do horror, principalmente quando vemos o jovem garoto induzindo sua mãe a vagar pelas ruas, indo em direção a uma morte potencial. Ainda vemos as figuras do geneticista e do psicólogo discutindo e propondo inúmeras possibilidades em relação aos dotes extraordinários do garoto, o que aumenta ainda mais a suspeita do espectador em relação àquilo que há por vir. Infelizmente, esse ambiente de medo se perde gradualmente e não consegue se sustentar nem mesmo quando as crianças estão cometendo assassinatos, quando evidentemente deveríamos estar extasiados e amedrontados. Um pouquinho do clima ressurge nas cenas finais, quando o clímax se torna crescente - mas, misteriosamente, ele é interrompido bruscamente, numa amostra da má execução do filme.

 O desespero do psicólogo (aliás, ele não parece uma versão mais velha do Ryan Reynolds?) para manter as crianças protegidas das ameaças governamentais.

A partir de um determinado momento, o filme perde sua característica dinâmica e fica lento, mas não escorrendo a ponto de o espectador não conseguir vê-lo. Mas definitivamente lhe falta algum ritmo que o torne mais próximo de um filme de terror - nem mesmo Rosemary’s Baby, que 136 minutos, - quase duas horas a mais que esse filme - consegue ser tão antimelódico, apesar de sua longa duração. A parte boa é que as crianças conseguem, por si sós, manter um aspecto sombrio, mas acho que essa é uma coisa mais minha do que do filme: sempre que vejo crianças em filmes de terror - “Os Outros”, “O Sexto Sentido”, “O Cemitério Maldito” ou mesmo “A Profecia” -, tenho a impressão de ver nelas algo muito mais monstruoso do que elas realmente são. Se as crianças são um ponto positivo, incluindo aqui alguns truques de câmera para torná-las ainda mais medonhas, os atores não condizem exatamente com o nível de medo sob o qual eles parecem estar. Falta aqui o desespero de Deborak Kerr em “Os Inocentes”, produção também britânica de quatro anos antes que é, a meu ver, muito mais ousada do que essa.

Decerto não é uma obra que incomode, longe disso! Mas realmente não faz jus ao suspense que esperamos sentir. Admito que haja um ou outro momento bom na história, mas, de um modo geral, é um filme morno, que não empolga, mas que também não prejudica o espectador por ser ofensivo em sua execução. Porém, eu realmente escolheria outro filme caso quisesse indicar uma boa produção de suspense e/ou terror às pessoas, incluindo todos os outros títulos que citei aqui. Aliás, eu fico me perguntando que pessoa desejaria assistir a um filme cujo nome é “A Estirpe dos Malditos” - acho que esse é um caso interessante de obra que merece ser analisada com cuidado num artigo do tipo “Que títulos não dar a um filme a fim de não afastar o público”, por que, convenhamos, “estirpe”? Que ousa usar essa palavra? Enfim, vale uma conferida se não tiver mais nada que ver...

24 de ago de 2012

O Retrato de Dorian Gray

The Picture of Dorian Gray. EUA, 1945, 110 minutos, drama. Dirigido por Albert Lewin.
O filme definitivamente não consegue impressionar o espectador, ficando a impressão de que a história não foi bem transportada para as telas.

“Não há boa influência. Todo influência é imoral”. – Lord Henry Wotton.

Como usualmente acontece com todos os bons livros lançados no mercado literário, eles são adaptados para o cinema e transformados em eventuais bons filmes. A lista de obras que podemos citar é imensa e "O Retrato de Dorian Gray" (1890), escrito por Oscar Wilde no final do século XIX, é uma dessas obras. Tenho a impressão de que o personagem criado por Wilde é de conhecimento universal – todos que já estiveram numa sala de aula, que conhecem uma biblioteca ou que gostam de ler ou ver filme conhecem a figura que Dorian é.

Dorian Gray é a fiel representação do homem que não quer ser consumido pelo tempo. Se se lembram da mitologia greco-romana, aquela na qual Cronos é descrito como um feroz devorador de seus filhos, rapidamente teremos consciência de que Dorian é o filho que não será atingido pela força desse deus – Cronos, ou o tempo, não será capaz de destruí-lo. Dorian é ainda um homem mascarado. Nunca escondera o rosto, é verdade; no entanto, sua face bela e jovem está sempre escondendo as cicatrizes de sua alma corrompida pelo orgulho, egoísmo e pela indiferença com os outros. Decerto é um dos personagens mais interessantes da literatura inglesa – e talvez da literatura mundial – e sua influência na área literária é tão grande que chega até mesmo a ultrapassá-la: aposto que homens invejam a “sorte” de Dorian; os produtores e roteiristas acham a narrativa de Wilde tão original que repetidamente a usam como elemento implícito em seus roteiros.

É inegável para mim que o livro continua sendo notadamente melhor do que o filme, mesmo que essa produção de 1945 seja potencialmente uma das melhores adaptações que eu já vi. A transposição das páginas para as telas da história do homem que vendeu sua alma pela eterna juventude e beleza é realmente elogiável – Albert Lewin, o roteirista, cuidou para manter os aspectos mais interessantes da obra de Wilde: manteve os momentos mais importantes, não desrespeitou as noções temporais, fez permanecer a linearidade da destruição moral de Dorian – enfim, ainda que tivessem sido feitas algumas poucas modificações, o resultado final da adaptação ficou satisfatório. O que achei mais curioso em relação à escalação do elenco é o modo como as personagens femininas, quanto à beleza principalmente, tiveram mais destaque do que o elenco masculino. Sibyl Vane e Gladys Hallward conquistaram meus olhos e meu carisma – as intérpretes, respectivamente Angela Lansbury e Donna Reed, mostraram-se tão talentosas em suas interpretações que penso que as duas sejam ainda mais interessantes do que o respeito que Lewin teve pela história de Wilde. Hurd Hatfield é bonito, mas nem de longe se parece com o Dorian Gray que eu imaginava – essa é a parte boa dos livros: nós sempre podemos acentuar ainda mais as características dos personagens, o que se torna dificílimo quando temos como base uma figura já pronta no físico de um ator. Quanto aos atores que eu já citei, posso garantir que o efeito mais positivo de suas interpretações é sutileza; todos estão bastante concisos e simples, em atuações lineares. George Sanders também está bem, mas devo dizer que, tal como Dorian de Hurd Hatfield, eu não imaginava Lord Henry como aquele que foi composto por Sanders. Na verdade, ele até me irritou um pouco: efusivo demais, falando sem parar, tom de voz muito alto. Não gostei muito do que vi em relação ao ator, mas não o credito pela minha recusa em gostar desse personagem – talvez Lord Henry seja exatamente assim mesmo e eu o tenha imaginado um pouco mais sutil.

Teci elogios sobre a adaptação, sobre o roteiro de Lewin e discorri brevemente sobre os atores – como perceberam, não tive reclamações notáveis até aqui, o que pode lhes fazer pensar que eu adorei o filme. Afirmo que não: não gostei do filme como um todo. A obra tem suas qualidades, mas creio que algo se perdeu na mudança do plano de expressão. O filme me parece pequeno demais comparado ao livro, o filme parece sem brilho, muito apagado, simplório demais. Talvez tenha faltado mais força nos diálogos e mais firmeza no desenrolar da trama. Falta também um pouco de dinamismo, para acelerar o ritmo, tornando assim o filme mais interessante para quem o vê. Ainda que seja uma adaptação elogiável, o filme não o é – para mim, é uma obra que pode facilmente passar despercebida pela vida cinéfila de alguém que é fã de filmes. O que quero dizer é: não penso que O Retrato de Dorian Gray seja uma obra cinematográfica capaz de deixar uma marca no espectador, que provavelmente se esquecerá dos belos rostos de Lansbury e Reed pouco depois de conferir a obra. Penso que a versão feita em 2010 seja inferior a essa... tão logo que a vir, vou comentá-la aqui também, resenhando o filme e, num post especial, comparando as versão de 1945 e a versão do ano passado.

21 de ago de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1


Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1. EUA / UK, 2010, 146 min, fantasia. Diretor: David Yates.
Possivelmente, o melhor filme de toda a série!

A série Harry Potter, iniciada literariamente em 1997 e cinematograficamente em 2001, rendeu uma trajetória bastante satisfatória nas telas, sobretudo pelo fato de que os diretores não extrapolaram e transformaram a obra de J. K. Rowling num show de horrores. Desde o primeiro filme, quatro diretores comandaram a trama – Chris Columbus, nos dois primeiros títulos, apresentou uma boa linear com bons momentos de tensão; Alfonso Cuáron, no terceiro, atribuiu um tom sombrio à narrativa, fazendo-nos ver que, embora ainda com 13 anos, os personagens adolescentes estavam afinal envolvidos numa situação muito adulta; Mike Newell, na quarta parte, manteve à dinâmica das fitas anteriores, acrescentando uma edição mais ágil e pontual nos momentos de interesse; por fim, David Yates assumiu a partir de “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (2007), e definitivamente inseriu os personagens no período assombroso e perigoso no qual os bruxos vivem desde a reascensão potencial e permanente de Lorde Voldemort.

 Com a potencial volta efetiva de Voldemort, qualquer pessoa pode ser perigosa.

Não nego que o roteiro teve suas falhas ao longo dos dez anos em que os sete livros foram transpostos para o cinema. A sexta parte, por exemplo, deixou consideravelmente a desejar, já que o livro é, sobretudo, pautado nas memórias de Dumbledore, enquanto o filme praticamente ignora essas características. Mas, ainda assim, a atmosfera foi provavelmente a mais adequada para chegar ao patamar do efeito conquistado em “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” (2010). Penso que um dos grandes méritos tenha sido a opção por dividir o último livro, datado de 2007, em dois episódios, nos quais vemos a decisão de Harry, Hermione e Rony em sair à procura das horcruxes a fim de destruí-las, nessa primeira parte, e a grande batalha entre o bem e o mal que é travada em Hogwarts, no filme seguinte. Nesse primeiro momento, ainda que convivamos o tempo todo com a tensão sempre crescente de um grande embate entre os jovens bruxos e o mago das trevas, o que se impõe no roteiro é verdadeiramente a relação interpessoal entre os três amigos e as suas desventuras à procura dos objetos nos quais se encontram pedaços da alma de Voldemort, o que eventualmente resulta em acontecimentos verdadeiramente tumultuosos e perturbadores, como é o caso do encontro de Harry e Hermione com Bathilda Bagshot. 

Confesso que o começo do filme não me anima, apesar de a primeira seqüência já explicitar bastante tensão por causa do perigo que os personagens correm ao levar Harry à Toca, local no qual se decidirá que próximo passo deve ser tomado. Uma edição eficiente – como, aliás, em todo o filme – e uma trilha sonora bastante eficaz nesse momento, mas, ainda assim, penso que o filme só emplaca mesmo depois de transcorridos cerca de vinte minutos, quando finalmente os personagens protagonistas decidem partir numa jornada solitária e dura em busca daquilo que eles sabem que devem fazer: combater ativamente o Lorde das Trevas. Honestamente, o grande mérito do filme é justamente o foco praticamente absoluto na relação dos três jovens, que passam por grandes desentendimentos, sobretudo por discussões sem fundamentos que advêm de um medalhão que eles descobrem tratar-se de uma horcrux e que precisam mantê-lo consigo até descobrir como destruí-lo – o medalhão, no entanto, tem energia negativa e os afeta diretamente, fazendo-os voltar-se uns contra os outros em alguns momentos. 

 Harry, Hermione e Rony - o início de sua aventura perigosa em busca da alma de Voldemort.

Emma Watson é provavelmente a atriz mais subjugada na trama e é, curiosamente, a que demonstra maior capacidade interpretativa. Não é à toa que os grandes momentos desse filme a envolvem, embora, infelizmente, nunca lhe é dado tempo suficiente em cena, ou mesmo destaque, para que ela possa despontar verdadeiramente e roubar a cena. O amadurecimento de Daniel Radcliffe ao longo da série decerto é maravilhosamente válido, especialmente porque esses dois últimos episódios, não fosse sua eficiência em cena, acredito que muito do filme seria perdido. Esses dois atores são importantes para essa trama, porque grande parte da narrativa se dá somente com os dois, já que há uma separação entre o trio – Rony os deixa depois de discussões, justamente por ser ele o mais afetado pelo medalhão de Voldemort. Aliás, é nesse momento do enredo, quando Harry e Hermione estão sozinhos, que grandes méritos do filme se fazem ver: a direção de Yates é bastante promissora quando fotografa os personagens no ambiente sombrio de Godric’s Hollow e os capta com extremamente pontualidade por toda a seqüência na casa de Bathilda – verdadeiramente, é um dos grandes momentos do filme.

 Harry, Rony e Hermione - os dois últimos disfarçados - na invasão ao Ministério da Magia.

Aproveitando que citei a fotografia, penso ser fundamental discorrer sobre ela, uma vez que o filme também atinge a qualidade que tem devido à fotografia escura, mas nítida, com uma iluminação que de forma alguma perturba o que é sombrio – é praticamente algo barroco. E lindo! Talvez a cena que melhor mostre isso que eu disse seja a última, aquela na qual Lorde Voldemort, depois de finalmente descobrir o detentor de uma das relíquias da morte – a Varinha das Varinhas –, invade o túmulo de Dumbledore (que foi assassinado no capítulo anterior) e rouba a varinha do bruxo. Uma cena que apresenta o melhor do filme: uma direção eficiente, uma fotografia maravilhosa, edição de som que se empenha, com sucesso, em nunca deixar que a tensão desapareça. Visualmente, o filme é pitoresco do jeito certo; quanto ao áudio, é uma obra também primorosa. Honestamente, como se percebe pelo meu texto e pelos meus vários elogios, trata-se do filme que considero o melhor de todos os sete lançados até então e também superior ao que o sucederia.

David Yates teve sua carreira moldada por poucos filmes – havia produzido muitos filmes para TV, alguns curtas-metragens e minisséries para a televisão britânica. Seus títulos cinematográficos de maior repercussão certamente são as fitas da série Harry Potter, as quais ficaram sob sua responsabilidade nos anos de 2007, 2009, 2010 – esse seu melhor momento, eu penso – e, por último, 2011. “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” é, a meu ver, o mais prazeroso filme da série, não apenas pelo entretenimento, mas pela qualidade que se encerra nessa película de Yates, a qual recomendo totalmente.

19 de ago de 2012

Amor Pervertido

Trage Liefde. Holanda, 2007, 50 minutos, drama. Diretor: Boudewijn Koole.
Um tema delicada e potecialmente muito produtivo torna-se uma pequena bobagem nessa produção alemã que não visa nenhuma crítica social tampouco um bom efeito artístico.

Estava em busca de algum filme com alguma temática que fosse diferente do convencional – não queria nenhuma história de amor melosa, nenhuma família sendo destruída por alguma razão, nenhuma comédia romântica. Baixei esse filme por acaso, esperando que ele me satisfizesse no meu intento de buscar algo novo. Então, ao conferi-lo (sem muitas informações prévias), deparei-me com um tema delicado: incesto.

Esse filme média-metragem produzido pela Alemanha, que é também é conhecido pelo título Com os Olhos Fechados, tradução literal de Mit geschlossenen Augen, aborda a vida de um rapaz que cresceu sem nenhum contato com o pai e que num determinado momento, ao conhecê-lo, tenta uma aproximação, sem que o pai saiba que o rapaz é seu filho. Então, a vida de Felix basicamente se baseia em trabalhar num restaurante, interagir com a avó, com quem mora, conversar com a namorada, com quem não tem segredos e tentar fazer com que o pai lhe tenha alguma afeição.

Começo já dizendo que esse não é um bom filme, ainda que sua premissa seja bastante interessante e o roteiro seja composto de elementos bastante ousados – elementos esses que não são aproveitados de modo produtivo, fazendo com que sua função praticamente se perca dentro dos cinqüenta minutos de exibição. Mas esse não é o único problema dessa produção alemã, já que as atuações também não merecem nenhum grande mérito e a direção parece ter acontecido no modo automático. Com um conjunto de situações como a que vemos nesse filme, o mínimo que se esperava de Boudewijn Koole, o diretor, era que ele mesmo pudesse concretizar o roteiro que ele mesmo escreveu.

Vou me ater à única razão pela qual o filme merece algum crédito: o incesto. Como disse na sinopse, essa é basicamente a história de um filho que busca a afeição do pai, que não lhe reconhece como sendo seu filho. O mais interessante é a inserção da obscura atitude de Felix de não revelar a Johan que ele é seu filho. Por não lhe contar logo – e em momento algum, aliás –, o homem pensa que as suas constantes idas ao bar de que ele é dono tem o intuito do flerte. Então, Johan começa a se deixar seduzir por Felix, que parece indeciso quanto àquilo que ele realmente quer: deseja o carinho do pai, mesmo que isso se consuma sexualmente? Eis o único fator positivo do filme, mas que é mal aproveitado, sem dar ao espectador a possibilidade de conhecer mais sobre o desenvolvimentos das emoções de Felix e também de Johan.

Honestamente, acho que essa se trata de uma obra esquecível. Não afirmo com segurança que vê-la é desnecessário, mas digo sem nenhuma dúvida que esse filme realmente fica aquém do esperado, pois sua abordagem refere-se a algo extremamente delicado e o diretor-roteirista insiste em mantê-la no lugar-comum e na monotonia. Enfim, penso que seja uma obra que sumirá da sua memória em pouco tempo. E só pra constar: o título nacional é extremamente ridículo, por já induzir o espectador a condenar a situação dos personagens!

17 de ago de 2012

Sonata de Outono

Höstsonatem. Suécia, 1978, 95 minutos, drama. Diretor: Ingmar Bergman.
Maravilhosas interpretações de Ingrid Bergman e Liv Ullman. As duas são capazes de deixar o espectador estarrecido com as suas desavenças do passado.

É difícil dizer exatamente qual o fator que me atraiu nesse longa-metragem. Do diretor, Ingmar Bergman, eu sou fã há algum tempo; a atriz Ingrid Bergman me conquistou desde que eu a vi em cena pela primeira vez, quando conferi Casablanca há uns três anos; Liv Ullman me chama atenção desde que a vi em Persona. A somar, há essa trama aparentemente muito envolvente, que aborda o relacionamento problemático entre mãe e filha, já que esta acusa aquela de jamais lhe ter dado a atenção necessária por ser sempre inflexível e distante, dedicada em demasia à sua profissão.

Definitivamente, esse tipo de trama me atrai. O que me agrada é justamente a sua temática: como mostrar uma mãe que simplesmente não se importa com o filho? Muitos outros filmes já mostraram assuntos parecidos, basta lembrarmo-nos dos nomes de Mary Tyler Moore, de Ordinary People, de 1980, e Mo’Nique, de Precious, datado de 2010 – ambas as atrizes representaram mães relapsas que, de modos bem diferentes, não são capazes de dar a seus filhos aquilo de que eles precisam. Curiosamente, tanto Moore quanto Mo’Nique – e o mesmo se aplica a Ingrid Bergman por esse filme – receberam indicações ao Oscar, mostrando que há um grande número de admiradores dessas criaturas estranhas que parecem agir contra as leis da natureza e, em vez de amar, odeiam os seus filhos. Beth, personagem de Moore, é taxativa e inquisidora em sua pergunta: “que tipo de mãe odeia o próprio filho?”; ela mesma sabia, porém, que estava mentindo ao dizer aquilo. E creio que algo semelhante pode ser dito a respeito de Charlotte, personagem de Bergman nesse longa-metragem.

Acredito que o roteiro ganhe força ao opor as personagens Charlotte e Eva, respectivamente a mãe relapsa e a filha submissa. O filme se inicia com uma clara tentativa de reaproximação entre as duas, mas pouco a pouco percebemos que uma sufoca a outra. Enquanto Charlotte não foi feita para o convívio familiar – é claro para o espectador que ela não se sente à vontade naquele ambiente –, Eva não foi feita para o tipo de vida que a mãe tem. Uma é vive pela profissão enquanto a outra vive para si mesma e para os outros, não é à toa que Eva dedica-se arduamente a cuidar de irmã deficiente enquanto Charlotte simplesmente optou por deixá-la num asilo, de modo que sua enfermidade não lhe atrapalhasse a carreira de pianista. O roteiro em momento algum exibe as personagens em uma situação de extremo conforto. Ambas estão tensas, ambos estão rígidas em pensamentos sufocantes.

Ingmar Bergman dirige um dos seus filmes mais convencionais e curiosamente é um dos meus preferidos, mesmo que aqui não haja toda a simbologia de Persona, ou a metaficção da Trilogia do Silêncio. Essa obra me parece bastante objetiva, mas há alguns efeitos estéticos que somente um diretor como Bergman seria capaz de conseguir. Traçarei um paralelo com o “clássico” do autor, intitulado pessimamente no Brasil como Quando Duas Mulheres Pecam. As duas atrizes, Bibi Andersson e Liv Ullman – esta em seu primeiro trabalho cinematográfico –, interpretam a mesma personagem e isso fica evidente ao longa do filme. Cada uma delas representa uma parte da pessoa: uma está no plano espiritual e a outra no plano físico. Numa das cenas, as duas mulheres – na verdade, cada parte da mesma pessoa – discutem e o diretor foca exclusivamente uma, para depois repetir toda a cena, focalizando somente a outra. Isso enfatiza aquilo que própria personagem representa. Uma estrutura semelhante é usada nesse filme, quando Eva e Charlotte, à escuridão da sala, discutem sobre os problemas do passado. O efeito obtido aqui é o inverso daquele mostrado em Persona. Durante a discussão, os argumentos usados por Eva – e o constante foco em Liv Ullman – apenas intensifica mais a figura de Charlotte, já que o espectador não consegue parar de pensar na criatura estranha descrita por Eva: uma mãe distante e fria, sempre ocupada com o trabalho, sempre querendo fica sozinha. Um flashback nos mostra uma memória de Eva, quando, após servir café para a mãe e sentar-se no chão perto dela, acaba sendo delicada expulsa da sala, pois a mãe queria ficar sozinha; curiosamente, ela estivera sozinha toda a tarde, ensaiando uma de suas peças.

Existem pouquíssimos momentos em que uma atriz é tão espetacularmente capaz de carregar o espectador para dentro do universo psicológico de sua personagem. Maravilhosamente, em Sonata de Outono, não apenas uma atriz consegue esse feito; ambas o fazem! Tanto Ingrid Bergman quanto Liv Ullman constroem uma complexidade contra a qual não podemos lutar – os seus argumentos e as suas posturas simplesmente estão ali, nada podemos fazer para nos afastar daquilo. Em seu livro, The Secret Language of Film, Jean-Claude Carrière afirma categoricamente: “Não gosto de dizer: como ele atua bem! Prefiro que o ator me faça chegar mais perto dele; prefiro esquecer que ele é um ator e deixar que ele me transporte – como ele mesmo foi transportado – para um outro mundo” (CARRIÈRE, 2006: 171). É exatamente isso o que acontece aqui: Bergman e Ullman fazem-nos crer que são mãe e filha, carregam-nos para a vida e as angústias de suas personagens; a cada grito de Eva, o espectador se sente gritando junto; a cada olhar de cansaço Charlotte, o espectador se sente desconstituído também. Indubitavelmente, as duas estão em plena sonata: elas são dois instrumentos que rangem em profunda desarmonia e que, ao mesmo tempo em que incomodam o espectador, enchem-lhe também de emoção.

O filme tem apenas uma hora e meia, mas a discussão das personagens e o clima criado entre elas fazem com que pareçamos estar a mais tempo diante da tela. Isso não é ruim, porém, porque essa obra nos mantém presos a ela o tempo todo. Inquestionavelmente, para mim esse é um dos momentos mais notáveis de ambas as atrizes e é também, como já disse, um dos meus filmes preferidos de Bergman, ao lado de Persona. É blasfêmia não recomendá-lo. Qualquer cinéfilo que preze a sua cinefilia não deixa de conferir esse título sueco, que é de extremo bom gosto artístico e estético.

Bibliografia:
CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Tradução: Fernando Albagli e Benjamin Albagli. 1. ed. especial – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006

15 de ago de 2012

Hamlet


Idem. Inglaterra, 1601, tragédia. Autor: William Shakespeare.
Uma peça que vale a pena ser lida, sobretudo para conhecer mais sobre a escrita desse escritor tão cultuado, mas verdadeiramente pouco lido.

Quando pensamos em William Shakespeare, rapidamente nos vêm à mente várias frases marcantes, vários nomes famosos de personagens, além de uma nítida sensação de que estamos falando de uma criatura de cuja qualidade não se pode duvidar – grosso modo, Shakespeare tem um status tão celebrado quanto o de Clarice Lispector, salvo que ela é notadamente mais popular. A imagem mais associada à peça Hamlet com certeza é aquela na qual vemos um homem segurando uma caveira e fazendo a já batida indagação: ser ou não ser, eis a questão.

A história do conflito no reino da Dinamarca é de conhecimento público, sobretudo pelas várias vezes em que a peça foi apresentada em inúmeras adaptações, seja para o teatro ou para o cinema, que, aliás, vê no autor uma fonte interessante para realizações. Se vale como curiosidade, 66 filmes foram feitos tomando como base 22 peças de Shakespeare até meados dos anos 1950 – definitivamente, o escritor inglês nascido em Stratford-upon-Avon no século XVI é uma boa fonte para realizações cinematográficas, seja em títulos que adaptam suas obras, como é o caso de “Hamlet” (1948), dirigido por Laurence Olivier, seja em títulos que adaptam sua própria vida, como é o caso de “Shakespeare Apaixonado” (1998), de John Madden. Mas, como disse, apesar de o escritor render um bocado ao cinema, sua popularidade não é das melhores.

O que se sabe a respeito de Hamlet é, definitivamente, a cena supracitada. Não sabem em que contexto ela acontece, não sabe a que se deve esse questionamento – mas é assim que a peça foi imortalizada. Hamlet é um príncipe descontente – seu pai morreu recentemente e, mal se realizou o luto, já ascendeu ao trono o irmão Cláudio, tendo esse desposado a rainha. O Príncipe Hamlet, antes um jovem bastante comum – inclusive de paixão secreta com Ofélia, filha de um ajudante real –, se torna obcecado em descobrir quem é a figura misteriosa que perambula pelo castelo à noite fingindo ser seu falecido pai. Uma vez descoberto ser aquele o fantasma de seu pai, Hamlet se ocupa em provar a todos a história por trás da morte do antigo rei.

Se há algo de que gosto bastante nessa obra – lembrando-os: li-a traduzida – é o modo como o personagem principal se entrega totalmente à busca pela verdade acerca de todos os mistérios do reino. O personagem não se limita a um conflito interno, cheio de questionamentos sem atitudes que lhe dêem mais força – toda a trama é embasada por ações fogosas de Hamlet, que se atreve às mais diversas ousadias para chegar às respostas que tanto quer. Não esconde, também, sua opinião acerca do matrimônio de sua mãe com o seu tio, ao qual ele várias vezes chama de incestuoso e criminoso. Num diálogo que se faz entre ele e Horácio, um amigo seu, expressam-se as opiniões:

HAMLET
              Economia, Horácio! A carne assada
              Do enterro serviu fria para as bodas.
Encontrasse eu no céu meu inimigo
Antes que ter vivido aquele dia!
(SHAKESPEARE, 2010, p. 50)

As tramas shakespearianas são conhecidas pelo modo como todo desenlace – antes de acontecer, quase sempre muito trágico – necessita antes de um evento que seja extremamente complicador, que seja de tal modo danoso aos personagens que eles tenham poucas chances de lidar com quais situações que à frente possam parecer redentoras. Para Shakespeare – Freud talvez explicasse bem – todo bom desfecho implica cortar o mal pela raiz, mesmo que isso signifique a extração da vida de todos os personagens cuja participação na trama pudesse afetá-la de algum modo. E, logicamente, como todos os personagens tem função, logo um bom resultado é a morte de todos.

Interessante acompanhar o desenvolvimento da trama, já que toda ela é capaz de envolver os personagens completamente, mesmo que sua participação na trama seja minúscula – mas, como disse, não estão ali sem razão: mesmo Rosencrantz e Guildenstern, amigos de Hamlet, cuja participação é realmente pequena, tornam-se figuras fundamentais para a narrativa, já que eles terão sua parte no grande embaraço que se dará em meados da peça, quando os personagens estarão voltados uns contra os outros num verdadeiro mal-entendido resultante da intenção do Rei Cláudio de matar Hamlet, uma vez que seu grande segredo fora descoberto e Hamlet soube como expô-lo em público. Laertes, filho de Polônio, que por engano foi assassinado por Hamlet, é induzido a acreditar que o rapaz o assassinou por ódio – assim, Laertes cria inimizade com Hamlet, cena essa fundamental para os momentos finais, quando o ódio de Laertes terá crescido devido àquilo que acontece a Ofélia, irmã de Lartes, também filha de Polônia, que, devido à morte desse, eventualmente perdeu seus juízos. Num certo momento, Laertes a adverte:

[...] Talvez ele te ame
Agora, e não há mácula ou embuste
Que manche o seu desejo, mas, cuidado:
Ele é um nobre, e assim sua vontade
Não lhe pertence, mas à sua estirpe.
Ele não pode, qual os sem valia,
Escolher seu destino [...]
Teme-o, Ofélia, teme-o, irmã querida;
Conserva o teu tesouro de pureza
Longe do alcance e risco do desejo. [...]
Virtude não escapa da calúnia;
(idem, 2010, p. 56)

Mais tarde, tendo acontecido o assassínio culposo de Polônio, não custa a Laertes acreditar que é Hamlet o mal de todo o reino da Dinamarca e que é ele o mais culpado em Elsinore, devendo, portanto, ser extinto. Shakespeare nos mostra como é extremamente fácil que um mal entendido se transforme num grande problema, resultando num final tão medonho que somente poderia ser de uma peça escrita por ele – trágica até não poder mais. Só acho verdadeiramente difícil acompanhar os personagens e sentir simpatia por todos eles, já que apenas Hamlet capta nossa atenção. Mas gosto muito dessa peça pelo seu caráter crítico: todos os personagens mais oportunos – Hamlet, Laertes, Polônio, por exemplo – apresentam bastantes informações e críticas acerca das situações vividas por eles. Basta a leitura dos dois trechos que citei para perceber: num Hamlet critica o casamento às pressas e a intolerância com o tempo – mal o pai morreu, casaram-se a mãe e o tio; na outra passagem, Laertes deixa clara a situação a que estão submetidos: sendo Hamlet nobre – e não apenas nobre, mas também herdeiro do trono –, Ofélia deve atentar para não se entregar acreditando no amor e nas promessas que o rapaz talvez não lhe possa oferecer.

Não me furtarei o prazer de terminar o texto com a famosa passagem (sem imagem de homem segurança a caveira, porém):

Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna;
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir
[...] Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor,             o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que andam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podiam procurar repouso
Na ponta de um punhal? [...]
(idem, 2010, p. 118)

Evidentemente recomendo essa leitura, sobretudo, porque é interessante conhecer mais desse autor, cujas obras acabam evocadas mesmo em textos posteriores, como os escritos de Virginia Woolf e James Joyce, autores que compuseram quatro séculos depois de Shakespeare. Talvez possa não haver uma forte identificação com a trama – ou, ainda, não haja facilidade na leitura dessa peça –, mas de qualquer forma vale a leitura, como enriquecimento pessoal.

Referência:
SHAKESPEARE, William. Hamlet, Rei Lear, MacBeth. Tradução de Barbara Heliodora. São Paulo: Abril, 2010, 608 páginas.

13 de ago de 2012

50 Maneiras de Dizer Incrível

50 Ways of Saying Fabulous. Nova Zelândia, 2005, 90 minutos, drama. Diretor: Stewart Main.
Poderia ser uma obra notável dentro do universo cinematográfico, mas, por algum motivo, se torna simplesmente uma obra comum e esquecível.

Alguns filmes realmente parecem ter uma premissa verdadeiramente interessante, pois as suas propostas parecem amplas o suficiente para uma série de abordagens profundas a respeito de temas atuais e não suficientemente discutidos, como a relação da criança com a sua sexualidade, os seus métodos de escapismo, as suas idealizações e o modo como ela interage com o mundo.

Foi exatamente por causa desse pensamento – o de que esse filme abordaria o conteúdo mostrado acima – que eu me propus a vê-lo, assistindo a história de Billy e Lou, dois primos que vivem em dificuldades de lidar consigo mesmos: ele é notadamente afeminado enquanto ela se veste como um menino e age como tal. Os dois dividem os seus segredos e partilham de uma afinidade notável enquanto experimentando sensações novas que mantêm guardadas sem revelar um ao outro.

Inquestionável que o filme alcança um nível ousado, principalmente quando não busca omitir a notória inversão de gênero dos personagens. Billy é afeminado e quer tanto ser menina que se ele projeta vivendo como a personagem de sua série de televisão favorita, até mesmo adota “Lana” como seu codinome e é assim que ele é chamado pela sua prima, Lou. Esta, por sua vez, está definitivamente ligada às características masculinas, recusa-se até mesmo a vestir sutiã e enrola os seios com uma faixa para disfarçar o seu crescimento. E essa produção neozelandesa também consegue atingir bem a sua força quando apresenta publicamente a relação desses primos: as confidências deles são bastante conflituosas, eles conversam abertamente sobre muitos assuntos, desde os problemas familiares até os desejos sexuais.

Stewart Main, o diretor do filme, também não teme em suas tomadas, e por isso mesmo eu dou certa credibilidade a ele, porque acho importante saber ousar, principalmente quando os filmes atualmente estão presos numa moralidade assustadora, que impõe regras e delimita uma apresentação artística às cenas “não-impactantes”. O diretor captou bem dois momentos muito importantes na vida de Billy: primeiro, a descoberta da sua sexualidade com Roy, garoto que veio transferido para a sua escola, e depois o modo como ele projeta as suas expectativas num novo amor. Percebemos claramente o desenvolvimento desse personagem, principalmente psicologicamente, construindo então um garoto bastante complexo. Acredito que seja esse o mérito do filme – ainda que, lamento dizer, seja só esse mesmo. Num primeiro momento, conhecemos Billy concebendo a sua homossexualidade. Ele encontra em Roy alguém semelhante a ele: os dois são excluídos dos grandes grupos, são quietos, possuem características que lhes garantem constantes agressões (Billy é gordo, Roy é frágil e delicado demais) e são homossexuais ou têm tendências à homossexualidade. Então, o encontro dos dois resulta numa aproximação aparentemente inevitável – depois, isso se desenvolve e se transforma em constantes encontros nos quais os garotos se masturbam – um ao outro, inclusive.

Essa primeira construção é quebrada quando Billy conhece Jamie, um rapaz que vai morar num cômodo de sua casa, a fim de ajudar nas colheitas daquela época do ano. Então, a sensação carnal conhecida por Billy e compartilhada com Roy é substituída por outro sentimento – uma paixão mais torrencial, porém bastante comedida, por Jamie. O rapaz mais velho causa em Billy uma fascinação profunda, fazendo com que ele passe a rejeitar Roy em função de suas expectativas com o novo “amigo”, que, notamos, agüenta-o para ser educado e não está realmente interessado em manter qualquer tipo de relação com o garoto, mesmo que esse o idealize e se sujeite a momentos bastante tensos por ele. Penso, por causa disso, que Billy seja uma personagem bastante complexa, talvez muito ampla e redonda para a estrutura desse filme neozelandês.

Ainda que haja a característica positiva que citei acima, o filme peca por alguns exageros e momentos muito dispersos, quase caricaturais, que não apenas afetam o desenvolvimento da trama como ainda lhe tiram a credibilidade. Subitamente, a história de crianças entrando no mundo mais adulto se torna uma história de crimes e acidentes mortais, chocando o espectador pela perda de foco. Devido a isso, o que poderia ser uma grande história – ou potencialmente um filme notável –, torna-se um filme cuja dinâmica é ruim e cujo enredo parece meio bambo, perdido entre os diversos temas que o roteirista tentou inserir na história. Pode-se dizer que o roteiro, de um modo geral, seja o problema maior, haja vista que a direção, embora não perfeita, é mediana, as atuações – principalmente Andrew Patterson, que dá vida a Billy – são favoráveis. Mas, infelizmente, algum elemento dá errado nessa mistura e o filme se torna apenas “mais um filme”. Eu me lembro bem pouco dele hoje e o vi há pouco tempo.

11 de ago de 2012

Rocky Horror Picture Show

The Rocky Horror Picture Show. EUA / UK, 1975, 100 minutos, musical. Diretor: Jim Sharman.
Tim Curry e Susan Sarandon num musical que cativa exatamente pelo seu tom caricatural e absurdo.

Confesso: nunca tinha ouvido falar desse filme. E o mais surpreendente é que nele constam nomes famosos, como o de Susan Sarandon e Tim Curry. Só fiquei sabendo da sua existência por causa do Pedro, que me falou ser esse um de seus filmes preferidos – e inclusive o recomendou para mim, não sem antes alegar que se tratava de uma obra satírica e que talvez eu pudesse não gostar, exatamente pelo seu caráter caricatural.

A caricatura já pode ser percebida pela sinopse do filme, na qual é dito que um casal, após ter problemas com o carro, busca ajuda numa mansão onde mora o Frank-N-Turner, um alienígena bissexual do planeta Transexual. Basta isso para que o espectador perceba que o filme definitivamente não é sério e nem se levará a sério. Acredito que o grande mérito dos filmes satíricos seja o fato de ele próprio não pretender ser mais do que ele pode ser e é exatamente nisso que Rocky Horror Picture Show sucede – ele é apenas o que é, sem querer ser mais. E isso cativa o espectador, que vê uma obra bem interessante e dá a ela as proporções que ela merece.

Para mim, o detalhe mais importante desse musical são as músicas. Pode parecer redundante o que eu estou falando, mas existe uma característica muito relevante nas canções desse filme. Se o compararmos com outros musicais, como Chicago ou Moulin Rouge, perceberemos que ele se assemelha muito mais na estrutura ao segundo filme, pois tanto esse quanto a obra de Luhrmann possuem um tom cômico muito mais evidente e próximos entre si. Ainda assim, as canções de Moulin Rouge têm uma tendência à harmonia, o que nem sempre acontece nas canções de RHPS. Analisemos por exemplo as canções “Damn it Janet” e “Touch-a, touich-a, touch me”: perceberemos que há muitos momentos que são não-melódicos, como quando os personagens coadjuvantes cantam juntos, destoando as suas vozes das dos personagens principais – criando um efeito engraçado na música. Parece que as próprias canções se autoparodiam, o que é muito engraçado.

RHPS definitivamente tem muito mais a mostrar do que parece. O seu personagem central, o alienígena Frank Turner é realmente fantástico. A sua primeira aparição causa êxtase no espectador, principalmente pelo contraste em sua fala e sua vestimenta. O seu figuro é mesmo muito elogiável, destaque para o seu salto altíssimo, para as suas ligas, a sua meia-calça e o seu corpete – decerto uma roupa inesquecível! As figuras que vivem no castelo também são muito incríveis, meu superelogio vai à personagem Magenta, que é engraçada na medida certa, carregando consigo um humor meio ácido, que se verifica inclusive no seu olhar. A estrutura narrativa do filme também é engraçada, pois um personagem narra a história, dando-lhe um caráter mais verídico aos absurdos a que somos apresentados.

Provavelmente o sucesso do filme se deve aos atores, que souberam se divertir em cena. Todos, sem exceção, parecem estar muito à vontade em seus personagens e durante todo o filme tive a impressão de que houve diversão durante as gravações. Destaque especial para o divertido Tim Curry, que conseguiu criar Frank-N-Turner de modo muito criativo e engraçado, não há como não achar engraçado os trejeitos e aspectos caricatos do personagem, como o seu amor desesperado por Rocky, criatura que ele inventa. Susan Sarandon também está fantástica como Janet e também está linda aos 29 anos de idade! Destaque para os seus números musicais, e para o seu empenho. Sua voz é bastante suave, muito gostosa de ouvir. Como se não bastasse um engraçado Tim Curry, ainda temos Susan Sarandon arrasando como Janet. Outro destaque também vai para Patrícia Quinn, personagem coadjuvante, intérprete de Magenta – uma vez em cena, mesmo falando pouco, a atriz tem uma postura muito segura e positiva, o que a impõe para nós. Vale ressaltar que a boca que aparece no começo do filme cantando “Science Fiction / Double Feature” é dela!

Cabe a mim recomendar esse filme a vocês. Não o vejam esperando coreografias muito elaboradas nem canções com letras extremamente fantásticas. RHPS não é assim, nem foi feito com essa intenção. Adaptem-se ao filme, vejam-no como ele espera ser visto – e então compreenderão o quanto ele é divertido. Atentem para as músicas, que são bem legais, atentem para o sweet transvestite Frank Turner, que quase vale o filme todo. E eu termino agradecendo ao Pedro por ter me recomendado esse filme. A você, um grande abraço.

9 de ago de 2012

A Saga Crepúsculo: Eclipse


The Twilight Saga: Eclipse. EUA, 2010, 124 min, fantasia. Diretor: David Slade.
Apesar de reclamarem – com razão – do livro, lê-lo é consideravelmente mais interessante do que assistir a essa produção, que falha em todos os seus aspectos.

Quando li o primeiro volume da saga Crepúsculo – justamente o livro “Crepúsculo” (2005), lançado no Brasil em 2008 –, eu o achei razoável. Não um lixo como os haters dizem, não uma maravilha como os lovers propõem – apenas um livro que consegue cumprir seu objetivo primeiro, que é manter o leitor acompanhando a narrativa. Os livros subseqüentes são ruins. Não apenas ruins, mas verdadeiramente ruins. E não bastasse a saga como um todo – há ainda um livro para ser lançado, Midnight Sun –, surgiu um spin-off da trama em 2010, na qual os eventos narrados acontecem em concomitância com o que é apresentado no terceiro volume, “Eclipse” (2007), cuja adaptação para o cinema aconteceu em 2010, trazendo os mesmos atores que haviam personificado os populares personagens do romance literário.

 Kristen Stewart - grande interpretação! - e Taylor Lautner.

No primeiro filme, Bella conheceu Edward e descobriu sobre vampiros e lobisomens, além de ter sido caçada por James, um vampiro que desejava o sangue da garota. No segundo filme, houve a separação: Edward decidiu se afastar de Bella a fim de não a colocá-la em riscos constantes, o que fez com que ela se aproximasse de Jacob, amigo da família que era lobisomem. Nesse terceiro episódio, a cidade de Seattle é tomada por vampiros recém-criados, cuja dona, Victoria, deseja construir um exército com eles a fim de se vingar de Bella, que ela julga principal responsável pelo extermínio de seu namorado James (no primeiro volume).

O que me deixou assombrado nesse filme – aliás, reformulando: o que me deixou mais assombrado nesse filme – é o fato de a maquiagem ser extremamente pouco realista! É impossível olhar pro Edward e achar, mesmo que rapidamente, que a tez de sua pele é sua de verdade. Não apenas a pele de um branco incomum – mesmo no meu imaginário, que pensava em algo como mármore branco, não como trigo distribuído heterogeneamente pela pele –, mas também os olhos! Aquele amarelado dos olhos torna tudo ainda mai risível, sendo impossível levar a sério qualquer momento em que qualquer Cullen apareça. Lembrando que eles convivem com humanos o tempo todo – me surpreende que ninguém nunca tenha chegado à conclusão que eles são posers de vampiro, porque é evidente que eles definitivamente não se parecem com pessoas comuns – não com aquele branco que se restringe ao rosto, deixando o pescoço normal; não com aqueles olhos que muitas vezes não se parecem com nada.

 Riley, Edward e Victoria - fosse um ménage, seria mais interessante, ainda que, ainda assim, feio.

Reclamam de Kristen Stewart, chamando-a de inexpressiva. Mas, realmente, acho que ela é o menor dos problemas do filme. Talvez o maior problema seja o roteiro, que é ridículo, misturando os eventos de “Eclipse” com os eventos de “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner” (2010), provavelmente porque eventualmente esse livro também acabará levado às telas. Honestamente, não há porque a associação das tramas num sentido tão físico – fazendo-as confluir uma na outra –, bastava que se mantivesse como é o no livro, em que alguns acontecimentos do terceiro volume são posteriormente explicados no spin-off. Assim, haveria menos confusão, sobretudo porque o tempo todo somos apresentados à situação de uma vampira cujos nomes não conhecemos sendo que ela é simplesmente morta no final do combate entre os Cullen e os recém-criados. A sensação que fica é que a personagem, em vez da relevância que tem (ela é, afinal, a protagonista de outro romance), é apenas um enfeito sem fundamento. Seria melhor conceder a ela apenas a cena final e depois, havendo mesmo a adaptação do outro livro, fazê-la aparecer mais, como se deve.

 Bree Tanner, que aparece aqui só pra justificar um potencial próximo filme da série "Crepúsculo".

Mas, de qualquer forma, o problema também está nos diálogos. São péssimos! Todos! Do começo ao fim! Tudo é dito de modo incômodo, as frases parecem não se conectar entre si, havendo ali apenas intenção de usá-las como elemento de impacto, que, no final, apenas obtêm impacto negativo. Isso, acrescido à incapacidade de qualquer ator de realmente ser realista, faz com que essa produção seja verdadeiramente um equívoco. David Slade, o diretor, havia dito que jamais se envolveria com a série – mordeu a língua, disse que havia dito brincando, faturou uma boa grana e nos apresentou essa coisa terrível, que é ruim até mesmo nos seus efeitos especiais, consideravelmente piores que os filmes anteriores.

Não há muito que apreciar aqui. A obra é toda antifuncional: efeitos visuais ruins, trilha sonora medonha, roteiro tenebroso, direção primária – eu, sem curso de cinema, sem experiência, produziria o mesmo resultado que Slade, que já havia dirigido alguns títulos antes, inclusive “30 Dias de Noite” (2007), um relativo sucesso comercial. Quanto às interpretações, apenas demérito: chega a ser triste ver os vampiros, sobretudo a família Cullen – Jasper é, de longe, o mais risível. Trata-se de uma obra para fãs obcecados apreciarem: eles assistirão ao filme e enxergarão qualidade onde notoriamente não há. E insistirão que se trata de uma obra linda, suspirando por Edward e querendo viver um romance como o de Bella. Dessa vez, tomo o partido dos haters – trata-se meso de um filme para ser odiado.

7 de ago de 2012

Dramaturgia: da estética clássica à estética contemporânea

Esse texto foi publicado originalmente no blog O Anagrama, em 23 de junho de 2012.
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Cena do filme Medea, de Pier Paolo Pasolini.

Menos do que um ensaio analítico, esse texto é simplesmente uma divagação acerca da trajetória do teatro, gênero literário cujas bases se modificaram ao longo dos séculos e que hoje se apresenta sobre alicerces bastante diferentes daqueles determinados por Aristóteles em seu livro, A poética. Ainda que pareça não ter havido mudança significativa na essência do teatro – um texto cuja função é ser interpretado em palco –, decerto houve muitas transformações que fizeram com que tragédias como Electra , escrita por Sófocles, Eurípedes e, numa versão cômico-irônica, por Ésquilo (lembrando esse que é considerado um dos maiores nomes da comédia), se difiram notadamente quanto à sua estrutura de tragédias contemporâneas como Vestido de Noiva, escrito por Nélson Rodrigues em 1943.

O teatro clássico, no que tange à tragédia, define bem o foco de sua narração: os personagens são nobres, caracterizando a nobreza como a única classe social a ser representada nesse vertente da dramaturgia. As figuras centrais dessas produções são reis, rainhas, príncipes, princesas, enfim, nobres a cujas vidas se atribui pompa e ponderação, além de inevitável associação com a sabedoria, sendo eles, afinal, que comandam um reinado todo, como é o caso de Egisto e Clitemnestra, pais de Electra, personagem que culpa a mãe e o padrasto pelo assassínio do pai, verdadeiro rei, função agora assumida pelo outro homem.

Outras regras também existem: compor a história de modo que ela seja passível de acontecer num único dia. Isso, evidente, se refere ao enredo e ao tempo disponível entre o primeiro e o último ato da peça, não tendo a ver com seu tempo de duração. Desse modo, vê-se um acontecimento tomando corpo no período chamado por Aristóteles de “uma revolução solar”, ou seja, no período de um dia, que é justamente a data específica na qual conheceremos o crescendo e o ápice do enredo, culminando na catarse, que é o momento posterior à identificação do espectador com os personagens. Quando pensamos na catarse, aliás, percebemos que se trata de um dos poucos elementos que persistiram e que ainda é visto como se via na Antiguidade Clássica.

Se analisar outra peça teatral, Hamlet, de Shakespeare, por exemplo, trata-se de uma obra moderna que já apresenta notáveis distinções, sobretudo em relação à duração do enredo, já que ele notadamente se estende por mais de um dia. Outra característica distinta certamente é o espaço, que é variado nas obras modernas, mas que se restringia a um único ambiente nas obras clássicas. Não à toa, vemos todo o desenvolvimento e desenlace de Electra acontecer em frente ao castelo, sem jamais vermos outros cenários que não aquele – ouvimos, por exemplo, o momento final, a consumação da vingança, que acontece dentro do castelo, mas jamais vemos o acontecimento em si, uma vez que o interior palaciano não faz parte do nosso campo de visão. Já o palácio de Elsinore, na Dinamarca, país no qual acontece a trama shakespeariana, nos é apresentado praticamente na totalidade, com os personagens transitando entre um e outro ambiente, nos sendo apresentado o pátio e sala reais, a plataforma de observação, a casa de Polônio e Ofélia e até mesmo os prados que cercam o castelo.

Notam-se, ao longo dos séculos, contrastes muito grandes entre as produções. Shakespeare dista, pelo menos, mil e quinhentos anos de Sófocles (Electra) e Aristófanes (Os pássaros), e à sua frente, dista praticamente quatrocentos anos de Oscar Wilde e sua Salomé (1893), escrita em francês no período em que o autor esteve preso por causa de suas práticas homossexuais. Não há, no entanto, diferenças significativas entre a produção do inglês e do irlandês, apesar do tempo que os separa – vemos neles a unidade temporal desfeita (suas tramas podem ou não acontecer em único dia), vemos a unidade espacial igualmente desfeita. A única não dissociação da arte clássica, por enquanto, é a representação da nobreza, já que ainda falamos de personagens reais, como o príncipe Hamlet, cujo pai foi assassinado pelo próprio irmão, que acabou herdando a coroa e que se tornou alvo da vingança de Hamlet, e como a princesa Salomé, que tanto queria um beijo do profeta Iokanaan que obrigou o rei a decapitá-lo a fim de enfim poder beijá-lo, já que ele tanto se recusou a tocar os lábios dela com os seus. As tragédias, tanto as gregas clássicas quanto as britânicas modernas, traziam paridades, sobretudo quanto ao objeto de sua representação, ou seja, os agentes da ação.

Alaíde, Lúcia e Pedro - personagens de "Vestido de Noiva"

Falando de literatura dramatúrgica nacional e mais contemporânea ainda, abordando já o século XX, podemos citar três autores cujas obras mostram-se bastante opostas às prescrições aristotélicas acerca do tempo, ambiente, unidade de ação e agentes. Falamos de Vestido de noiva (1943), de Nelson Rodrigues, peça teatral na qual o autor, com bastante sucesso percorre caminhos tortuosos e a princípio confusos, mostrando a trajetória de Alaíde, personagem que sofreu um atropelamento e, na mesa de cirurgia, em delírios, relembra os problemas que teve com a irmã Lúcia, já que Pedro, seu noivo, fora antes namorado de Lúcia, e, também na mesa de cirurgia, tem delírios com Madame Clessy, uma prostituta que morou na casa onde sua família posteriormente residiu.

Se a personagem Alaíde é da classe média alta, como se vê ao longo da trama, e, justamente por isso, possa se dizer que há ainda uma relação com a nobreza, todos os outros elementos caminham em direções opostas, sobretudo a unidade de ação. Electra queria vingança e toda a trama gira em torno disso, o mesmo se pode dizer, grosso modo, sobre o desejo de vingança de Hamlet e o desejo de Salomé de beijar Iokanaan – já na obra rodrigueana, temos uma dimensão espaço-temporal múltipla que justifica inúmeras ações acontecendo, muitas vezes, ao mesmo tempo – ao longo do enredo, há inúmeras passagens na qual o palco se divide a fim de dar vida a três momentos: Alaíde e suas conversas obscuras com a irmã, Madame Clessy e seus ensinamentos sobre a arte de amar e, às vezes, a sala de cirurgia, na qual Alaíde eventualmente morrerá. A obra multifacetada de Nelson Rodrigues é surpreendente principalmente pela sua estética que divide a peça em várias ações – o delírio, a realidade, o sonho – além de vários tempos – presente e passado – e também vários ambientes – o hospital, a igreja, a própria casa, o bordel de Clessy.

Chico Buarque e Paulo Pontes compuseram em 1973 uma atualização de Medeia, de Eurípedes, tornando-a contemporânea e brasileira: a Medeia da obra grega se torna Joana na versão nacional e Jasão carrega o mesmo nome, mas agora é um cantor de música popular que ascende socialmente com a música Gota d’Água, que dá nome à peça de Buarque e Pontes. Assim como Rodrigues em Vestido de noiva, a obra é bastante multidimensional em relação à unidade de ação, mas seu grande diferencial em relação à obra do outro dramaturgo é justamente o fato de vermos personagens sitos em um conjunto habitacional, quase uma favela, sendo notadamente pobres e extremamente longe da concretude de nobreza em que vivem Salomé, Electra, Hamlet e Medeia, por exemplo, ou da alusão de nobreza vivida por Alaíde. Os personagens de Buarque e Pontes são tão banais e ordinários que sua linguagem não se difere daquela dita no dia-a-dia (ainda que, evidente, seja respeitada a estética literária da poesia, já que o teatro é versificado), suas ações não são diferentes das minhas ou provavelmente das suas: eles vão a bares, bebem com os amigos, conversam sobre trivialidades, envolvem-se em discussões bobas e seu linguajar, às vezes, não se mostra todo polido.

A literatura, como se vê, trata-se de sua própria e constante reinvenção: as obras clássicas são revistas por outras obras, que são contraditas posteriormente por outra estética literária, que, num ciclo, é rebatida ou retomada. No caso do teatro, vemos que o momento catártico se apresenta em todas as obras, mas os meios de chegar a esse ponto variam muito, justamente pelas novas adaptações que são feitas de acordo com o contexto histórico-social no qual vivem os autores e, também, de acordo com as suas intenções – não se pode dizer que a literatura de Chico Buarque e Paulo Pontes é menor por mostrar personagens ordinários, justamente porque essa intenção integra a pretensão estética dos autores. Não se pode dizer, tampouco, que se trata de uma evolução – nada nos garante que daqui a cem anos a dramaturgia retornará aos moldes clássicos e voltará a apresentar peças com uma unidade de ação, de tempo, de espaço e de tom (ou tragédia ou comédia).

3 de ago de 2012

Alien - O 8º Passageiro

Alien. EUA / UK, 1979, 117 minutos, ficção científica. Diretor: Ridley Scott.Ridley Scott apresenta um suspense interessantíssimo, do qual o espectador não desgruda os olhos.


Ridley Scott, muito antes de ter o seu talento como diretor merecidamente reconhecido, dirigiu bons filmes no cinema. Talvez um grande destaque da sua filmografia seja o hoje clássico da ficção científica Alien, que, no ano de 1980, recebeu duas nomeações ao Academy Awards. Como todo bom filme de sucesso relativo recebe uma continuação, "Alien" também veio a se tornar uma série.

Ao voltarem de uma viagem espacial, sete cientistas descobrem que a nave mudara sua trajetória a fim de atender a um sinal compreendido como SOS. A contragosto de alguns, a nave se dirige para o local, de onde são recolhidas amostras de suposta vida extraterrestre. Lá, no entanto, acontece um acidente que traz um perigo iminente para toda a tripulação.

Confesso que a história do filme é bem simples. Não há muito que contar, tudo o que vemos praticamente é uma versão mais cult (e melhor dirigida) de um assassino midiático, como, por exemplo, Freddy ou Jason. Para mim, o Alien é isso: uma criatura que pode atacar – e provavelmente vai atacar – a qualquer momento, numa fúria implacável. A narrativa toda se desenvolve com a tripulação cercada pelo alienígena. Gosto principalmente do modo como souberam aproveitar a idéia da nave: rapidamente pensamos em um espaço confinado – e realmente é, já que os tripulantes estão presos, sem chances de sair –, no entanto, o espaço dentro da nave é realmente grande, de maneira que podemos ver a movimentação dos atores o tempo todo. Por haver muitos lugares para onde correr, e também pelo fato de que a nave não nos é um ambiente familiar, a tensão criada fica ainda maior.

Ridley Scott soube bem como dosar as suas cenas. Não há exageros nelas, não há excessos nas cenas. Outro diretor facilmente se ocuparia em mostrar o alienígena o tempo todo, tornando-o um freak show, do qual o espectador potencialmente se cansaria rápido. A opção por reduzir a participação da criatura no filme tornou a obra mais charmosa – ele é uma ameaça silenciosa e quase invisível. Vale ressaltar que o uso das cores favorece muito isso: na escuridão da nave, qualquer elemento negro aparece pouco e causa espanto. E temos também que considerar as personagens humanas, pois todos usam roupas claras, o que os coloca num plano de visibilidade anterior ao do alienígena. Os efeitos visuais são realmente bons e impressionam, principalmente se considerarmos a época em que o filme foi feito. Não fico surpreso com o fato de que o filme tenha conquistado a estatueta dourada de Melhores Efeitos Visuais.

A respeito das atuações, não creio que haja grande destaque. Os grandes nomes são os de Sigourney Weaver e de John Hurt, já que os outros são atores pouco lembrados. Como a função evidente de protagonista, Weaver tem destaque notável como a líder dos tripulantes. Sua atuação, devo dizer, não é maravilhosa e está bem longe de ser impressionável. Está apenas correta, sem surpreender, sem, porém, decepcionar. A grande cena de John Hurt, mais conhecido por "O Homem-Elefante" (1980), é aquela famosa, na qual um alienígena-bebê sai de dentro dele, rasgando-lhe a barriga e explodindo sangue por todos os lados. Decerto, uma das cenas mais lembradas do cinema. Tom Skerritt, Verônica Cartwright, Ian Holm – são todos bastante coadjuvantes no filme, tornando-se, por vezes, quase figurantes, já que o grande foco do filme é a relação nada saudável entre Ripley e o Alien.

Honestamente, acho que se trata de um filme divertido, mas não consigo vê-lo como muitos cinéfilos fazem. Para mim, é uma obra capaz de entreter, mas está longe de ser um marco do cinema. Decerto, um marco na carreira de Ridley Scott, o diretor, que mais tarde dirigia outros bons filmes, como "Thelma e Louise" (1991) e "Gladiador" (2000). Não posso deixar de acrescentar que para Weaver, a Tenente Ripley foi uma personagem marcante – tanto que, pela continuação de "Alien", lançada sete anos depois, a atriz recebeu a sua primeira indicação ao Oscar. Enfim, um filme que merece ser visto com atenção e que merece ser curtido, porque vale a pena.

1 de ago de 2012

A Breve Segunda Vida de Bree Tanner: Uma História de Eclipse


The Short Second Life of Bree Tanner: An Eclipse Novella. EUA, 2010, 190 páginas – Editora Intrínseca. Autora: Stephenie Meyer.
A mesma história de Crepúsculo com personagens de nomes diferentes.

A menina estava enroscada como uma bola ao lado das chamas, os braços envolvendo as pernas. Era muito nova. Mais nova do que eu – parecia ter talvez 15 anos, o cabelo escuro e liso. Os olhos estavam focalizados em mim e as íris eram de um vermelho vivo e chocante. Muito mais brilhantes do que as de Riley, quase em fogo. Giravam loucamente, descontroladas. [...]
- Ela se rendeu – disse-me em voz baixa.
(MEYER, 2009, p. 404).

“Crepúsculo” (2005) é um romance lançado há sete anos e que definitivamente foi o grande momento pós-Harry Potter. Não que a escrita de Stephenie Meyer tanja a qualidade daquilo que J. K. Rowling produziu ao longo de 10 anos (1997-2007) – na verdade, está muito aquém da série de fantasia bastante madura escrita pela britânica. No entanto, de modo algum se pode negar que as personagens compostas por Meyer se popularizam de tal maneira que é impossível hoje em dia não saber quem são Isabella Swan ou Edward Cullen. Não que isso, claro!, significa apreciar ou depreciar a obra, mas a modernização do vampiro – objeto de paixão de alguns – provocou debates de proporções imensas, das quais não pudemos, querendo ou não, deixar de ouvir.

Mas o ponto dessa resenha é outro. É justamente a obra lançada em 2010, depois dos livros “Lua Nova” (2006), “Eclipse” (2007) e “Amanhecer” (2008), que aparentemente finalizaram a trajetória da protagonista humana, que permanece nessa natureza até meados do último romance, quando finalmente se torna vampira. “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, como o próprio subtítulo sugere, se trata de um spin-off do terceiro livro, cujo grande momento é o embate provocado por Victoria, cujo namorado foi assassinado por Edward no primeiro volume, de quem ela gostaria de se vingar – na narrativa, a vampira cria vampiros recém-criados e, por isso, bastante fortes e descontrolados, induzindo-os através de Riley a atacar a família Cullen. Bree Tanner, que era uma moradora de rua esfomeada quando foi transformada em vampira, narra os acontecimentos anteriores aos eventos de Eclipse a partir do momento em que sai para sua primeira caçada com Diego, outro vampiro jovem que também passa a desconfiar das intenções de Riley e da mulher – Victoria –, ao criar aquele pequeno exército.

O trecho que citei logo na abertura desse texto aponta o momento no livro “Eclipse” no qual Bree é apresentada pela primeira vez, ainda sem nome, que só nos seria revelado duas páginas depois, quando Jane – uma dos Volturi – a indaga acerca de suas origens e, também, da sua identidade. O que há de surpreendente no livro em relação ao comportamento de Bree é que, como comentado por Edward e notado pelos outros Cullen, aquilo não era comum – que um vampiro recém-criado se rendesse e, como vêem, se esforçasse para se controlar. Não é spoiler dizer que Jane Volturi não perdoa Bree e a extermina, como, afinal, ditam as regras – o extermínio de Bree já havia sido lido três anos antes nas páginas do terceiro episódio da saga. O que interessa nesse novo romance são os momentos anteriores ao combate entre o grupo de Victoria e a família Cullen – também, não menos importante, surge aqui um romance entre Bree e Diego, dois personagens que dividem um momento significativo e, a partir disso, criam uma afinidade que eventualmente se aproxima de amor.

A parte boa desse romance é que, em apenas 190 páginas, menos que a metade da quantidade de páginas do livro do qual deriva, a escritora conseguiu escrever tudo aquilo que era relevante para a história. Aliás, pode-se facilmente reduzir o número de páginas se fossem extraídas as tantas vezes que Bree Tanner, a narradora, se pergunta acerca de perguntas já feitas três ou quatro vezes anteriormente. O mais curioso é que não é apenas um efeito retórico no discurso – a personagem não repete sua pergunta para que o leitor compreenda o grau de preocupação que a perturba. Trata-se apenas de uma escrita prolixa que tenta a todo o momento justificar a densidade psicológica de uma personagem cujo intelecto definitivamente não está em paridade com suas atitudes.

Bree Tanner é uma personagem bastante simplista. Apesar de nos serem dadas algumas informações sobre ela – havia fugido da casa do pai, estando morando nas ruas, quando trocou sua vida por um hambúrguer –, temos uma constante sensação de que não sabemos nada sobre ela. Na verdade, apesar de estarmos ante a história de Bree, sendo, aliás, contada por ela mesma, acabamos pensando o tempo que toda a história é sobre ela, Bella. Lembrando, em tempo, que devemos sempre distinguir escritor/autor de narrador: se Meyer detém os direitos autorais, sendo, pois, a autora, é Bella, Jacob (no epílogo do terceiro livro e numa das partes do quarto) e Bree Tanner que são os narradores, havendo, portanto, necessidade de distingui-los em suas maneiras de narrar o que vêem – são, afinal, três personagens distintos! E, honestamente, não fosse por um ou outro momento, fica sempre a sensação de que “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, e vez de um spin-off narrado por Bree Tanner, se trata de mais um episódio da saga Crepúsculo, narrado por Bella, como em todos os outros livros. Transcrevo abaixo o único momento que mais se faz notar que a personagem é uma, não a outra:

Era isso que Riley nos mandava fazer. Caçar a escória. Escolher os humanos de quem ninguém sentiria falta, aqueles que não estavam voltando para casa e para a família, os que não gerariam ocorrências de desaparecimento. [...] Desliguei meu cérebro. Era hora de caçar. [...] Sua [de Diego] aterrissagem foi silenciosa demais para chamar a atenção da prostituta chorona, da prostituta distraída ou do cafetão zangado. Saltei do telhado, atravessei a rua e aterrissei ao lado da loura que chorava. [...] Ela abriu a boca para gritar, as meus dentes dilaceraram sua traquéia antes que algum som pudesse ser emitido. [...] O sangue era mordo e doce.
(idem, 2010, p. 18-20)

O trecho acima apresenta o momento divisor de águas, que é justamente aquele que transforma Bree, a outsider, em alguém com um companheiro com quem dividir alegrias e tristezas. É extremamente superficial o contato dos dois – apenas uma caçada –, mas isso parece suficiente para começar uma boa amizade, até amor, por que não? Naquela mesma noite, os dois passam a partilhar juras e prometem dar suporte sempre um ao outro. Houvesse um princípio de rejeição por qualquer um deles em relação ao outro, independentemente das razões, decerto o romance estabelecido seria idêntico ao de Bella e Edward. Aliás, cabe dizer o quanto as duas personagens – Bella e Bree – são bastante parecidas, a começar pelo modo como sempre parecem desajustadas e intrusas às circunstâncias. Seguem passagens, uma de “Crepúsculo”, outra do objeto resenhado.

Não era só fisicamente que eu não me adaptava. [...] Eu não me relaciono bem com as pessoas da minha idade. Talvez a verdade seja que eu não me relaciono bem com as pessoas, e ponto final.  [...] Às vezes eu me perguntava se via as mesmas coisas que o resto do mundo.
(idem, 2008, p. 18)

Eu franzi a teste. A casa de Riley era o último lugar onde eu gostaria de passar o resto da noite. Não queria ver o rosto estúpido de Raoul nem ouvir os gritos e as brigas constantes. Não queria ter de ranger os dentes e me esconder atrás do Freaky Fred para as pessoas me deixarem em paz.
(idem, 2010, p. 28)

Acima, um exemplo do desajuste social e pessoal que as personagens vivem. Além disso, Bella com Edward e Bree com Diego, ambas vivem romances marginalizados – no caso de Bree, mesmo que tanto ela quanto seu par sejam da mesma natureza, é evidente que todos os personagens que o circunvizinham desprezariam o relacionamento, o que os obriga a manter a guarda perto dos outros, seja por autopreservação ou por preocupação com o outro. Ambas as protagonistas lutam contra um inimigo invisível – Bella nunca sabe o quanto de risco há para ela por conviver com vampiros e Bree, grosso modo, também, salvo o fato de que ela sabe que o inimigo verdadeiro (não a grupo de recém-criados, sempre em desavenças) se mantém escondido o tempo todo e parece planejar algo perigoso.

Poderia resultar em algo verdadeiro interessante apresentar o ponto de vista de uma história pelas perspectivas de outras personagens. O “Efeito Rashomon” poderia ser magnificamente explorado nessa obra se, além de uma boa composição literária que não se alicerçasse em senso comum, Stephenie Meyer houvesse realmente se preocupado em criar personagens diferentes em situações que demandassem um desenvolvimento psicológico aprofundado delas. O que se vê, no entanto, é apenas toda a história da saga Crepúsculo confinada em 190 páginas, das quais 1/5 – as últimas 40 páginas, praticamente – é se trata na verdade de uma releitura do episódio registrado anteriormente em “Eclipse”. Pode-se ler o livro tranquilamente em uma tarde e gastar cinco ou seis horas seguidas atento às páginas, sobretudo porque não há nenhuma dificuldade na digestão desse romance, que é tão superficial quanto nenhum outro título da série ainda havia conseguido ser. Talvez seu maior mérito seja “externo” à qualidade literária da obra – paguei apenas R$5 nesse título que, de brincadeira, daria de presente a um colega. No mais, carece de estrutura adequada para que se faça notar como uma boa leitura.

Referências:

MEYER, S. Crepúsculo. Tradução de Rita Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.

______. Eclipse. Tradução de Rita Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

______. A breve segunda vida de Bree Tanner: uma história de Eclipse. Tradução de Déboro Isidoro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.