8 de jan de 2010

Despedida em Las Vegas

Leaving Las Vegas. EUA, 1995, 111 minutos. Drama.
Ganhador do Oscar de Melhor Ator e indicado a Melhor Atriz, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.
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O que motivou a ver esse filme foi o fato de Nicolas Cage ter vencido o Oscar na categoria em que concorreu. Considerando sua irregularidade como ator, me surpreende que já tenha conquistado o maior prêmio do cinema e, dada a estranheza do fato, eu necessitava realmente conferi-lo. Jamais o tinha visto em uma locadora, até que surpreendentemente eu o vi numa das prateleiras juntamente com outros filmes que eu também gostaria de ver - e que logo também estarão por aqui.

Ainda que não tenha sido indicado a Melhor Filme, eu acredito que facilmente poderia estar nessa categoria, pois o resultado final do filme é realmente bom. Acredito que as duas melhores características sejam o roteiro e a interpretação fantástica de Elizabeth Shue, que com certeza estava no melhor papel de sua carreira e realmente duvido que venha a repetir o brilhantismo em uma futura atuação. A respeito do filme como um todo, penso que seja muito satisfatório e, sobretudo, perturbador. A proposta a respeito da abordagem principal é realmente complexa e vê-la se desenvolver é um prazer muito grande para o espectador. A ideia capital parte da união de uma prosituta e um alcoólatra. Os dois se encontram casualmente e rapidamente descobrem que são aquilo de que precisam: os dois têm problemas e podem se ajudar. Ao mesmo tempo, eles não abrem mão de ser quem são e, como resultado, têm que conviver com aquilo que percebe ser perigoso no parceiro.

Comentei sobre esse filme com algumas pessoas e alguns torceram o nariz. Provavelmente pensaram "Que grau de complexidade pode haver entre uma prostituta hostilizada e alcoólatra irreversível?", mas é fato que são exatamente essas condições que tornam os personagens tão belos e reflexivos. A relação entre eles é significativamente perturbadora e, ao vê-la se consumando - e ao mesmo tempo os consumindo -, eu me senti totalmente impotente, pois não conseguia me imaginar numa situação como aquela por qual eles passam. É difícil dizer até que ponto somos fortes o suficiente para amar alguém que está se destruindo e não oferecer ajuda para contornar essa potencial destruição. E como amar respeitando a opção que a outra pessoa fez por se auto-destruir? E, diante do amor, como ainda querer se destruir sabendo que isso causará mal à outra pessoa? Pois é exatamente isso que envolve Sera, a prostituta, e Ben, o alcoólatra. Na minha opinião, embora a liderança seja dividida pelos dois atores, Sera é uma personagem bem maior do que Ben. Minha atenção estava realmente mais voltada para o desempenho de Elizabeth Shue, que realmente compôs uma mulher complexa, cercada por decisões difíceis. Um momento lindo, bastante cativante do filme, é quando Ben faz um escândalo num cassino e Sera consegue tirá-los de lá. Mais tarde, quando ele pergunta como ela fez isso, ela conta que disse que ele era alcoólatra e que eles jamais voltariam lá de novo. Ou seja, ela também sacrificou um pouco daquilo a que ela tinha direito a fim de continuar com Ben que nem sequer consegue comer aquela gostosura de mulher.

Os atores estão numa sincronia ótima. Shue e Cage dividem as cenas com muito equilíbrio e Mike Figgs soube como dar aos dois a atenção que eles merecem. Embora interligadas, suas histórias não são contadas somente quando há envolvimento entre os personagens, permitindo que a atriz tenha destaque e o ator também, seja em momentos individuais ou em parceria. Nicolas Cage não é nenhum grande ator, ele é bastante irregular. Cabe a Elizabeth Shue dar a Ben o brilho que ele não tem. A interpretação de Cage é muito mais gestual, algumas vezes um pouquinho exagerado em suas caras e bocas, mas correto de um modo geral. Eu não ousaria premiá-lo por sua interpretação, pois, como disse, ele está apenas correto. Shue, por sua vez, brilha e cativa o espectador. O filme é seu e quando eu revê-lo certamente será para vê-la de novo em cena. Na cerimônia de 1996 - que curiosamente contava com Sharon Stone por um papel de prostituta também de Las Vegas -, Shue tinha chances de ganhar, mas estava concorrendo com feras da interpretação, como Meryl Streep e Susan Sarandon, que acabou levando o prêmio pra casa.

Acredito que sobretudo vale ver o filme por causa da pertubadora relação mostrada entre os personagens principais e pela magnífica interpretação de Elizabeth Shue, que realmente me conquistou por esse filme. De um modo geral, é um filme regular, que segue uma linha positiva e muito linear. Os diálogos são pesados e algumas situações são realmente angustiantes, mas, exatamente por isso, o filme se eleva e se torna bem melhor do que poderia ter sido. Nunca li a obra na qual ele foi baseado, mas o Marcelo, do Diz que Fui por Aí, comentou que o autor do livro se suicidou pouco antes do lançamento do filme - o que é chocante e talvez explica de onde veio tamanha capacidade de elaborar personagens tão complexos.

Luís
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