8 de jan de 2010

Fale com Ela


Hable con ela. Espanha, 2002, 112 minutos. Drama.
Ganhador do Academy Award de Melhor Roteiro Original e indicado a Melhor Diretor.
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Há muito queria assistir a esse filme, pois já tinha lido ótimas críticas sobre ele e não se pode simplesmente deixar de assistir a uma produção de um dos melhores diretores da atualidade. Aos que não conhecem nada dessa obra, explico que foi dirigida por Pedro Almodóvar, um homem que consegue acrescentar beleza às cenas mais incomuns, e que, por esse filme, recebeu sua primeira indicação ao Oscar, embora anteriormente atrizes que tenham atuado sob a direção dele já houvessem conquistado a indicação. Considerando os vários filmes - no geral, muito bons - nos quais esteve envolvido, eu me sentia culpado por ainda não ter conferido essa obra. E sete anos depois de lançada oficialmente, eu finalmente posso dizer: este é um filme que vale muito a pena ver!

Marco conhece Lydia quando tenta fazer uma entrevista com ela, pois acredita que, bem diferente da aparência firme que apresenta quando se exibe como toureira, ela, na verdade, esconde muito desespero em suas ações. Vinda de um relacionamento complicado, Lydia envolve-se com Marco, mas, por causa de um acidente, ela entra em coma, fazendo com que ele fique dia e noite no hospital ao seu lado. Lá ele conhece Benigno, um enfermeiro contratado com exclusividade para cuidar de Alicia, com quem conversa todos os dias e por quem nutre profundo apreço. Passando a conviver, os dois se encontrar em reais dificuldades a respeito de falar com elas: um por excesso, outro por não fazê-lo.

Como se percebe, o tema já sugere um drama muito pesado. No entanto, o filme equilibra muito bem a densidade que aborda, tornando-a não tão dolorosa - para quem assiste - nem tão superficial. O que quero dizer é que as todas consequências mostradas são mais psicológicas do que perceptíveis aos nossos olhos: precisamos nos aprofundar nos possíveis sentimentos dos personagens para que possamos compreendê-los com a perfeição que merecem. É importante ressaltar que, acima de tudo, o filme aborda relações amorosas em suas mais diversas estruturas e, desta maneira, consegue nos pôr diante de um leque, no qual podemos enxergar um número bem grande de relacionamentos, tanto os imprecisos quantos os já muito firmes. É importante tomar nota da transformação que acontece ao longo do filme em relação às personalidades dos personagens, que vão se modificando, permitindo-se experimentar situações que antes lhe pareciam inviáveis, desde o ato de falar com ela quanto a consumação do amor. É realmente difícil falar sobre esse filme, pois ele é, ao mesmo tempo, tão poético e tão realista, que percebo que se me prolongar, acabarei dispersando e divagarei sobre inúmeras coisas as quais o filme me remeteu. O roteiro certamente merecia uma indicação, pois definitivamente é muito original e consegue nos entreter a todos os momentos, sem nos cansar. As divisões feitas para nos mostrar explicitamente os casais - Marco e Lydia, Benigno e Alicia - dão um charme a mais, quase como se delimitasse o filme em dois capítulos referentes cada um a um casal de personagens.

Quanto ao roteiro e à direção de Almodóvar, cabe a mim apenas alogiá-los, pois o diretor conseguiu ao mesmo provar sua capacidade criativa de duas maneiras: nos contando uma história e conduzindo os atores. Muitas pessoas reclamam das tomadas que ele usa, normalmente porque os ângulos são inusuais e isso provoca certo estranhamento. Mas, definitivamente, acredito que essa é uma das características que dão mais charme às obras desse diretor, que há muito vem provando ser um dos grandes nomes por trás das câmeras. Um dos ápices do filme quanto à estranheza se dá no momento em que Benigno conta à Alicia a história do filme a que assistiu, no qual uma cientista tem seu namorado reduzido por causa de uma poção que preparou e, posteriormente, tão pequeno, ele consegue entrar inteiro na vagina dela, de onde nunca mais sai. Os ângulos mostrados, a maneira como a cena é mostrada, intercalando o pseudo-filme e o filme de verdade, causa no espectador certa admiração. Não consegui uma justificativa que racionalizasse com precisão esse sentimento que tive, mas não posso deixar de comentá-lo. As atuações são muito boas e os atores intérpretes de Marco e Benigno traduzem com bastante eficiência o universo de seus personagens; desta maneira, podemos ver suas inseguranças e suas certezas sem ausência de linearidade. Do começo ao fim, suas participações são muito estáveis. As atrizes que interpretam Alicia e Lydia, respectivamente Leonor Watling e Rosario Flores, embora participem pouco, estão muito bem em seus papéis, o que resulta num quadrado de atuações muito válidas. E isso logicamente aumenta o meu apreço pelo filme, uma vez que é realmente difícil que todos os atores de uma mesma produção se saiam bem defendendo seus personagens.

Ao final do filme, temos a certeza de que todos os pontos foram concluídos e todas as abordagens receberam os seus merecidos fins. Na última cena, temos também a certeza de que um pensamento foi modificado e que pelo menos um personagem conseguiu abrir sua mente para aquilo que era importante antes, mas que ele não sabia: aprendeu a falar com as pessoas. Com se não bastasse o fechamento satisfatório, há ainda aquele soco no estômago devido à moral implícita a respeito do quão válido é dizer a verdade. Almodóvar justifica bem a posição que conquistou na lista dos 25 filmes estrangeiros mais importantes da década: esse é um filme para se assistir a cada ano, sempre buscando novas perspectivas, sempre a analisá-lo poeticamente, compreendendo as diversas nuances quanto à personalidade que o filme apresenta.

Luís

11 opiniões:

Paulo [ALT] disse...

Luís, parabéns pelo post do Almodovar. Assisti esse não tem mais de alguns meses e adorei. Claro, achei o começo um pouco chato pq parecia que não se centrava muito no que devia, ficava meio solto, mas... era só uma apresentação pq nos filmes do Almodovar vc nunca sabe de onde saiu e pra onde vai chegar né.

Ah! Vc falou dos ângulo. Muito em lembrado, também fico aqui admirado com isso e muito da beleza vem disso.

Ponto positivo pro post tb pq vc lembrou da cena do filme que se passa dentro do filme. Aquele em preto e branco. É realmente muito interessante, e divertido tb.

Acho que aqueles que não gostarem de início têm q dar mais uma chance pq tudo vai se desenvolvendo. O final é um tanto chocante, lembro dele até hoje e preciso assistir de novo.

Abraçoo!

João Bastos disse...

Tenho de confessar que detesto Almodovar. É mesmo um ódio de estimação! Não tenho mesmo paciencia para os filmes dele!

Abraço

O Cara da Locadora disse...

Sem esquecer a participação do Caetano, né? Filme nota 10 mesmo... :)

Marcelo A. disse...

Nossa, Luís, eu adoro Almodovar e "Fale Com Ela" é um dos preferidos!

O que mais me fascina nele é ver Almodovar tão íntimo do universo masculino. Marco é um sensível e se apaixona por uma "toureira"; Benigno, muitas vezes, parece assexuado. Almodovar, conhecido por suas grandes personagens femininas, subverte a ordem aqui.

E a cena da vagina é mesmo espetacular!

Vontade de rever. Acho que já tenho programa pra esse fim de semana...

Abração!

Ciro Hamen disse...

Talvez o melhor filme do Almodovar. Um verdadeiro clássico. Já viu o Abraços Partidos? É muito bom também... Mas nada supera esse.

Abraços!

Jean disse...

Assim que li a resenha não me contive, tive que assistir este filme imediatamente! E para minha surpresa, a resenha que me levou a assistí-lo não exagerou em nada. De fato um ótimo filme, consegue nos prender e nos levar a sensações incríveis.

Me admirei muito com a beleza e talento da atriz Leonor Watling, apesar de não ter tido muitos diálogos. Todos os outros estão tão bons quanto.

Como sempre, estou atrasadérrimo e nunca tinha assistido um filme do Almodóvar. Bom... antes tarde do que nunca! kkkkkk... agora vou conferir outros trabalhos dele.

Ótima resenha Lues! Valeu muito a pena conferir esta obra.

Rodrigo Mendes disse...

Ninguém toureia este espanhol.

Bela crítica

Abs!

Cristiano Contreiras disse...

Eu adoro este filme, mas se eu for listar os 4 melhores de Almodovar, ele entra como 5ª posição...rs

Assim, é o que eu menos aprecio dos principais últimos dele - adoro Ma educação, Carne Tremula, Volver e Tudo sobre minha mãe...mas, este tem seu brilho - você soube bem focar nos argumentos centrais do filme, boa resenha!

Abraço

Roberto F. A. Simões disse...

«Fala com Ela» é, provavelmente, a mais lírica das obras de Almodóvar: uma dança vibrante, imersa em sentimento, com sede de infinito.

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema

. disse...

Adoro os filmes de Almodóvar, Hable con ella é um dos melhores filmes que já assisti, gosto muito do "Todo sobre mi madre" também, ele é mestre em expor as fragilidades humanas, nossas problemáticas em todos os ângulos, costurando com uma trama impecável e única!

www.dicassister.blogspot.com

Luís / Renan disse...

PAULO, obrigado pelo elogio à resenha. Eu realmente me senti impressionado quando terminei de ver esse filme. Os ângulos usados pelo diretor são realmente eficazes.

JOÃO, antes eu pensava que todos gostavam de Almodóvar. Depois descobri que há os que gostam e os que detestam - sem meios termos.

CARA DA LOCADORA, nem me lembro do Caetano no filme...

MARCELO, eu acredito que o diretor soube como utilizar ambos os universos - tanto masculino como feminino. A transformação de Marco é notável e poética...

CIRO, ainda não vi Abraços Partidos, mas quero conferi-lo logo. Mais uma dobradinha Almodóvar-Cruz.

JEAN, Fale com Ela soa despretensioso e pequeno, mas se mostra uma obra realmente eficaz. Acredito que Fale com Ela tinha sido um dos primeiros filmes do Almodóvar que vi...

RODRIGO, obrigado.

CRISTIANO, eu também prefiro Má Educação a Fale com Ela. Mas eu realmente não entendi Volver -achei demasiadamente dispersivo.

ROBERTO, o lirismo dessa obra é mesmo surpreendente. Poucas obras reúnem tanto sentimento como essa...

(sem nome), pretendo ver logo Tudo Sobre Minha Mãe. Concordo com você: ele expõe mesmo as construções piscológicas sob todos os ângulos possíveis.

Luís