12 de fev de 2010

Sobre Meninos e Lobos

Mystic River. EUA, 2003, 137 minutos. Drama / Policial.
Vencedor de 2 Oscars: Melhor Ator (Sean Penn) e Melhor Ator Coadjuvante (Tim Robbins).
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Havia muito que eu queria ver Sobre Meninos e Lobos. Não apenas achava o título nacional atrativo, como também havia me interessado bastante quando li a sinopse do filme pela primeira vez. No entanto, desde que eu quis vê-lo até quando o vi de fato, passaram-se longos meses.  Quando o vi, não me arrependi: Clint Eastwood nos presenteia com uma obra bastante consistente, com o clima certo, bons diálogos e atuações quase perfeitas.

Com uma eficiência absurda, o filme nos mostra a história de três amigos que passaram por um trauma quando crianças: um deles foi raptado, abusado e torturado. De que forma isso afeta os oturos dois? Qualquer um deles poderia ter impedido o acontecimento ou mesmo qualquer um deles poderia ter ido no lugar de Dave, que desde aquele momento conviveu com o pensamento "e se não não tivesse acontecido comigo?". Já adultos, a morte da filha de Jimmy Markun faz com que a dúvida a respeito do crime caia sobre Dave e para resolver a história é designado o detetive Sean - o terceiro amigo. Agora, os três terão que conviver e descobrir quem fala verdade, quem é inocente e quem é culpado - e sobretudo descobrirão quais são os efeitos que um trauma de infância pode causar.

O melhor do filme é mostrar a amizade desconstituída dos personagens centrais: Jimmy, Dave e Sean. Os três definitivamente não têm mais qualquer afinidade e fica claro o constrangimento que há entre eles quando dividem o mesmo ambienete, afinal, os três se sentem culpados de certa forma pelo que aconteceu a Dave quando eram crianças. A desconfiança persiste com base não apenas em informações realmente duvidosas, mas também em mentiras ditas propositalmente e encobertamentos de fatos, que levam todos os personagens a atitudes extremistas. Ainda que o clima ponto de destaque do filme deveria ser a desconfiança de Jimmy em relação a Dave, eu me senti mais atraído pela intensa perturbação que a morte da filha de Jimmy provoca no relacionamento conjugal de Dave. Ele conta uma história a Celeste, que a princípio acredita, mas dada a estranheza do relato do marido, ela também começa a crer que ele tenha sido o responsável pela morte de Katie. O roteiro trata com muito carinho os diálogos entre Dave e Celeste, fazendo com que ambos os atores engrandeçam em suas pequenas participações. Os monólogos de Dave diante da esposa assustada são simplesmente maravilhosos, com direito a excelentes correlações entre o seu traumático passado e aquilo que ele se tornou. Inspirados por esses diálogos, os "tradutores" optaram pelo título nacional, já que o título original faz alusão a um importante elemento - Rio Mystic -, que, mesmo de fundamental importância, poderia não ser facilmente compreendido pelos espectadores que em sua maioria são realmente burros.

Sean Penn lidera o elenco, mas o filme é inteiro de Tim Robbins. Como Dave, o ator surpreende numa atuação densa e complicada, que mostra não somente um pai cuidadoso como um homem amargurado. A atuação dele é excelente, com direito a olhares assustados extremamente reais, postura corporal verdadeiramente culpada - não havia como não premiá-lo com o Oscar!  marcia Gay Harden, por sua vez, estava igualmente intensa. Sua participação consiste em menos minutos em cena do que Tim Robbins, mas, tal como o ator, uma vez em cena, o destaque é exclusivamente dela (a não ser quando divide a atenção com Tim). Destaque especial para o momento no qual ela confessa a Jimmy acreditar que o marido havia mesmo matado Katie - é simplesmente fantástico o trabalho de Harden, que funciona maravilhosamente bem nesse filme. A respeito de Kevin Bacon... nunca foi um grande ator e aqui ele mostra isso com perfeição - está medíocre! Não me restam dúvidas de que outro ator mais capaz deveria ter sido chamado em seu lugar, uma vez que ele não transmite qualquer emoção. Falando em não expressar emoção: Sean Penn. O coitado não consegue nem chorar em cena. Não entendi porque foi indicado e muito menos por que ganhou o prêmio! Mas até que não está tão ruim assim, na minha opinião.  Laura Linney não tem função alguma em cena, mas, de qualquer modo, a história não requer sua personagem, logo ela não atrapalha quando aparece.

O que torna esse filme válido é um conjunto de elementos: ótima fotografia e clima sinistro, fantástica direção de Clint Eastwood, atuações memoráveis de Robbins e Harden. Vocês podem conferir no Fechamento de Mês de Outubro as boas notas que esse filme recebeu, chegando inclusive a estar no TOP do mês (onde, curiosamente, outro filme dirigido por Eastwood também esteve). Cabe a mim recomendá-lo, porque é mesmo um filme bastante interessante, que merece ser conferido. Além de possuir um lado psicológico inteligente, possui também um quê de filme policial que acentua o clima de mistério. Vale a pena.

Luís
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Sobre Meninos e Lobos é um filme realmente bom. Já começamos pelo título nacional que é um dos raros exemplos que títulos mudados podem sair bons (e até melhores que os originais). No geral, o filma narra a vida de três amigos que na infancia sofreram uma ruptura nessa amizade. Daí pra frente, a vida de adultos do trio nunca mais foi a mesma. Esse é um ponto legal do filme, pois mostra que mudanças nem sempre vem para o bem. O roteiro mostra bem as conversas forçadas e falta de uma interação verdadeira entre os três já na vida adulta, mas outro fato vem para mudar mais ainda a relação entre eles, e essa é uma mudança definitiva.
O roteiro equilibra bem dois gêneros: o drama e o policia. Logicamente o drama prevalece, mas a busca policial, os suspeitos que o telespectador aponta, as falhas nas atitudes dos personagens, ou seja, muita coisa colabora para que o filme vire algo um pouco mais interessante prendendo a atenção de quem assiste. Quanto as atuações, palmas para Sean Penn que cria um pai de família que faz de tudo para proteger sua família. O interessante do seu personagem é o paradoxo entre o bom pai e um quase gangter. Não há um lado que prevaleça pois as duas personalidades dele se juntam para formar um personagem rico e muito bem construído. Kevin Bacon também convence como policial. É legal ver como a sua relação com a ex-esposa foi construída, mostrando que ele ainda a ama apesar de suas conversas estarem mais para um monólogo. Completa o trio Dave Boyle que vive o personagem que realmente sofreu e que ficou abalado pelo acontecimento. Tim não culpa os colegas por terem deixado sozinho, tampouco consegue esquecer. Por fim há a direção fantástica de Clint Eastwood.

O visual do filme é completado por um ambiente urbano de uma grande cidade, embora em um bairro afastado onde a influencia pode ser muito útil. Tentando não contar um Spoiler, o filme meio que obriga quem assiste a apontar um dedo para alguem e ver se esse julgamento estava certo. O finl pode ser surpreendente pra alguns, e para mim foi pois mostra não só erros atuais, mas outros que permanecem (como um certo depósito na conta todo mês)
Balenceando, Sobre Meninos e Lobos não há pontos negativos fortes e te obriga a assistir até o final, como foi o meu caso, tendo em vista que estava adiando sair de casa para fazer uma prova de vestibular para terminar de vê-lo.

Renan

3 opiniões:

Cristiano Contreiras disse...

Eu tenho o livro e o filme.

Li o livro na época que nem sabia que teria filme, tanto que minha mente se condicionou a formar outros arquétipos. Quando soube da escolha do elenco me assustei...mas, acontece, afinal sempre imaginamos algo íntimo e próprio e nem sempre os atores selecionados são o que visualizamos.

Mas, a surpresa? é um filme MUITO, mas MUITO bem adaptado. Um dos melhores, assim como "As horas", foi bem concebido e tem mesmo toda a essência densa da narrativa do livro. Tem os principais argumentos, elementos e foco tenso.

O elenco foi mesmo muito bem selecionado, sem sombra de dúvida o trabalho de Robbins com Gay Harden são mais evidentes, pela caracterização intensificada.

Mas, achar Kevin Bacon péssimo ator e Sean Penn não merecedor do prêmio de Melhor ator é de doer, hein? Mas, é previsível. Assim que comecei ler a resenha, esperava até que Luis fosse detonar mais o trabalho do Penn, já que detesta ele. Acontece.

É um filme merecedor de atenção, bem melhor que o outro superestimado de Eastwood: Menina de ouro. E tenho dito.

Hugo disse...

É um ótimo drama que mostra como um tragédia marca a vida de qualquer pessoa e como isso afetará suas atitudes, reações e jeito de encarar o mundo.
O elenco está impecável e o final da história é doloroso.

Abraço

Marcelo A. disse...

É engraçada a coincidência, mas vi "Sobre Meninos...", num desses carnavais alternativos que sou chegado, já que cair na folia não faz meu tipo. Foi um filme que mexeu comigo. É como falaram: há todo um clima sombrio nele. Concordo com o Renan quando diz que o Sean está mesmo soberbo, mas também concordo com o Luís em relação ao Tim - o filme é dele e ponto.


Nunca cheguei a ler o livro, e já faz muitos anos que vi o filme, mas sabe que vê-lo resenhado aqui, me despertou o desejo de lê-lo?

Abração... e bom carnaval!