20/02/2010

Vidas Secas

Graciliano Ramos, 1938, 126 páginas mais 28 páginas de análise (Editora Record).

Pertencente ao Modernismo, fez parte da lista integrada FUVEST/UNICAMP - 2010.
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Antes de mais nada, explicarei como estruturarei a minha análise: primeiro descreverei o assunto abordado nos capítulos de maneira geral, sem me aprofundar muito nem ser muito superficial; depois comentarei a minha opinião sobre o livro e a partir daí será como as críticas usuais que eu e o Renan fazemos.
Resumo: Vidas Secas narra a história de cinco personagens, que são Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos filhos do casal e Baleia, a cachorra. Os cinco, que não têm uma casa própria, atravessam o sertão em busca de um lugar onde possam ficar durante a seca, para não morrer de fome.
Narrador: narrado em terceira pessoa, sendo o narrador onisciente.
Estrutura: dividido em treze capítulos que, numa linha cronológica, estão fragmentados; isso quer dizer que o um capítulo não é exatamente uma continuação imediata do anterior. Eu não sei se é uma comparação muito boa, mas é como se vários quadros fossem colocados à nossa frente; cabe a nós, portanto, dar o conectivo à história contada (isso fica bastante fácil de compreender quando passamos do terceiro para o quarto capítulo).
Importância da obra: relatar os problemas sociais principais que devastam o sertão brasileiro, impondo famílias - representadas pelos personagens do livro - a uma vida de subsistência e subserviência. Alguns consideram que o autor tenha querido representar a desolação que afeta todo o país, impedindo um melhor desenvolvimento e fazendo surgir um Brasil-pobre dentro de um Brasil maior, com qualidade de vida superior em outras regiões.

Explicados esses aspectos básicos, vou me ocupar agora de resumir de maneira satisfatórias os capítulos:

1 - Mudança: o capítulo narra a mudança que a família faz através do sertão em busca de um lugar pra se estabelecer. Sabemos que caminham há muito tempo por causa das descrições a respeito do cansaço que sentem os personagens. Nesse capítulo, já somos apresentados às muitas características dos personagens: a rudimentar maneira de Fabiano, a obediência que as crianças têm pelos pais, o companheirismo de Baleia. É revelado que, além dos cinco, havia também o papagaio, que foi morto a fim de alimentar a família, para que ela também não morresse. Depois de caminhar mais, Baleia encontra preás e os preda, levando-os à família que depois encontra uma casal aparentemente abandonada, na qual se instala. Surgem, então, os primeiros resquícios de esperança.

2 - Fabiano: somos apresentados a uma análise que Fabiano faz de si mesmo, definindo-se não como homem, mas como bicho, completamente apegado à ignorância e cujas principais habilidades estão a de domar os bichos bravos. A família já está instalada na casa e Fabiano já conheceu o homem que é proprietário daquelas terras; à família foi concedida a estadia, desde que Fabiano cuidasse dos animais e da fazenda. Somos apresentados às lembranças de seu Tomás da bolandeira, um homem a quem todos os personagens admiram por causa da habilidade de falar bem e por causa da humildade e sofisticação dele. Fabiano começa a ter esperanças de um dia não será como um bicho, mas sim um homem, assim como seu Tomás da bolandeira; decide conversar com Sinhá Vitória acerca da educação dos filhos, que estão muito curiosos.

3 - Cadeia: Fabiano vai à cidade em busca de alguns mantimentos para que a família possa se abastecer, como queronese. Receoso, ele acha que todos na cidade querem roubar-lhe o dinheiro e que sempre se aproveitam do fato de ele não saber contar para aumentar valores. Depois de tomar pinga num butequim, ele é convidado por um soldado amarelo - policial - para uma partida de trinta-e-um, a qual acaba perdendo. Indignado, se levanta para sair da mesa e já está a andar na rua, quando o soldado amarelo aparece, mandando o povo se afastar. Alegando que Fabiano não pagou sua dívida, ele é levado pra prisão, onde apanha com um facão e acaba passando a noite.

4 - Sinhá Vitória: a esposa da Fabiano enconmtra-se irritada, principalmente por causa da cama de varas que os dois tê; o que ela quer mesmo é uma cama como a de seu Tomás da bolandeira, de lastro de couro. Ocupa-se das tarefas domésticas enquanto o texto retrata suas lembranças de Tomás. Ao se lembrar de que Fabiano lhe dissera que parece um papagaio sobre saltos quando os usa, Sinhá Vitória sentira-se ofendida e ao mesmo tempo relembrara o animal que comeram a fim de sobreviver.

5 - O Menino Mais Novo: o filho mais novo do casal, influenciado pela admiração que tem pelo pai, decide reproduzir os atos dele. Primeiro conta à Baleia o ato heroico do pai; como a cachorra o ignora, ele conta ao irmão, que faz o mesmo. Por sua própria conta, obe num morro e se joga sobre um bode arisco, que sacoleja o garoto e depois o joga contra o chão. O menino mais novo se irrita com o irmão mais velho, que ri, e com Baleia, que desaprova suas ações. Conclui que um dia os dois hão de admirar por ele ser como o pai.

6 - O Menino Mais Velho: o filho mais velho ouve Sinha Terta, uma vizinha, dizendo a palavra “inferno”. Ocupa-se em descobrir o que a palavra significa e a mãe limita-se a dizer que significa “coisa ruim”. A partir de então, o garoto começa a analisar o que pode ser ruim, pois em sua opinião nada é ruim; não entende como uma palavra tão bonita seja algo tão feio, nem como assimilaram a figura do diabo as coisas do cotidiano.

7 - Inverno: a família reúne-se em torno do pequeno enquanto conversa por pequenas frases e palavras monossilábicas. Fabiano relata aventuras passadas, mas, como não conhece muitas palavras e usa muitos gestos, a escuridão não permite que todos o compreendam bem. As intromissões dos filhos deixam Fabiano bravo, porque ele acha que estão sendo audaciosos. Enquanto isso, a cheia provoca um alagamento, o que os preocupa, pois, se a cheia persistir, a água chegará até a casa, desabrigando-os.

8 - Festa: Fabiano compra tecidos para que Sinha Terta faça roupas novas pra família, porque vão a missa na cidade. Desacostumados com trajes mais justos, Fabiano e Sinhá Vitória têm dificuldades para caminhar. A cachorra Baleia segue a família e quando finalmente chegam à cidade, Fabiano se vê receoso, pois tem muita gente e ele - assim como toda a família - está acostumado à solidão. Fabiano bebe demais após a missa e começa a procurar pelo soldado amarelo e querendo brigar. Envergonhada, Sinhá Vitória e os meninos se escondem entre as pessoas; Fabiano acaba dormindo na rua, atrás de uma barraca.

9 - Baleia: a cachorra já está para morrer; a pele está coberta de feridas que acumulam mosquitos, os pêlos se distribuem escassamente pelo corpo da cachorra, que mal podiam comer por causa das chagas e inchaços que circundavam a boca. Fabiano decide matá-la, então. Entristecido, pois Baleia é com um membro da família, Fabiano pega a espingarda e seuge o animal, que, percebendo que algo ruim vai acontecer, tenta se esconder. Por engano, o primeiro tiro acerta a perna da cachorra, que se rasteja sangrando; depois, Fabiano por fim a mata.

10 - Contas: Fabiano rece a quarta parte na partilha dos bezerros, mas, ao receber a quantia, admitiu estarem erradas as contas do patrão. O capítulo dedica-se à exposição dos pensamento de Fabiano, que acredita que por ser rudimentar, as pessoas acham que ele não merecem justiça. Aspira a conseguir juntar dinheiro suficiente para que a família possa se mudar e ter um lugar próprio. Relembra da época em que criara porcos a fim de vendê-los e que, ao tentar fazê-lo, foram cobrados impostos pela venda; concluiu que o governo sempre se metia naquilo que não devia e que era por isso que não havia prosperidade na região.

11 - O Soldado Amarelo: Fabiano está na vereda, cuidando de uma égua e acaba encontrando o soldado amarelo que o levou preso um ano antes. Sente-se tentado a matar o homem; impulsivamente, levanta o facão e abaixa-o em direção à cabeça do soldado. Pára e observa a fraqueza do homem que, estando tão distante da cobertura do governo, não consegue fazer nada a não ser tremer. Se no capítulo segundo, Fabiano concluíra que era um bicho, aqui concluiu que o outro é um bicho; ele é um homem, pois decide não matar alguém que apenas serve a outra pessoa. Acaba apontando a direção na qual o soldado amarelo deve seguir e volta ao que fazia antes, sentindo-se melhor.

12 - O Mundo Coberto de Penas: Sinhá Vitória concluiu que as arribações (nome das aves) vão acabar matando o gado. A príncipio, Fabiano pensa que a mulher está louca, depois concluiu que as aves podem matar o gado porque as arribações beberiam toda a água do bebedouro e os gados, consequentemente, morreriam de sede. Fabiano vai até o morro e começa a atirar nas aves; algumas caem mortas, as penas cobrem todo o chão. Fabiano chega à conclusão de que a seca está voltando e é necessário que eles andem de novo, seguindo adiante; leva as aves, das quais a família se alimenta. A situação remete Fabiano à morte de Baleia, cujos olhos eram comidos por urubus e também à submissão em relação ao soldado amarelo no capítulo anterior.

13 - Fuga: a fazenda se despovoou, os animais morreram. Restavam à família apenas dar continuidade à viagem; assim, Sinhá Vitória salga a carne das arribações e todos seguem, afastando-se da fazendo, indo na direção da cidade mais próxima, longe da área rural. Embora esteja em silêncio, o casal espera que haja conversa. Por fim, começam a divagar sobre o futuro dos filhos; Sinhá Vitória os imagina em vidas completamente diferente das dos pais e a sua perspectiva agrada Fabiano e a família segue viagem, caminhando mais uma vez entre os juazeiros, mandacarus, à espera de água e de uma vida melhor.

Agora que já apresentei o assunto abordado nos treze capítulos, vou falar o que achei sobre o livro. Confesso que não me anima muito ler essas obras obrigatórias, pois elas normalmente são extremamente maçantes e o leitor leva horas para ler pequenos trechos, o que o cansa a ponto de adiar interminavelmente a leitura de um livro que, se não fosse pelo rebuscamento e pelo ritmo lento, seria lido em três dias. Vidas Secas, considerando o número de páginas, poderia ser lido num único dia. O que me deixou realmente feliz quanto a essa obra é o fato de que o rebuscamento que citei acima não existe: a linguagem é bastante simples, típica da região, descrevendo com eficiência o cenário, mas sem se prolongar infinitamente com assuntos que pouca relevância têm para a história. O maior problema em relação à obra de Graciliano Ramos certamente é alguns substantivos específicos que o autor usa a fim de descrever com a maior eficácia possível. Assim, muitas palavras deixam o leitor meio confusa e outras tantas obrigam-no a procurar no dicionário - que muitas vezes não possui descrição para o nome - o significado de palavras como alpercata, aió, etc.

Inquestionavelmente, o autor faz uso do livro para explicitar uma imensa crítica à situação na qual as pessoas da região vivem. Não somente aborda aspectos dos quais não se pode fugir, como o ciclo natural da seca, como também narra o abuso que muitas pessoas sofrem por serem como Fabiano e sua família. Isso se evidencia nas passagens do capítulo décimo. E ainda há uma crítica maior, que a que fica exposta nos momentos em que Fabiano se vê abusado por aquele que detém o poder e que, por causa disso, se vê no dinheiro se maltratar aqueles que perceptivelmente encontram-se numa degrau social inferior. Algumas figuras de linguagem são bastante usadas durante a obra e eu evidencio primeiramente a hipérbole, presente em muitos momentos, como quando Fabiano se considera a pessoa mais infeliz do mundo e quando diz que, de tão vazio, o estômago é um buraco. Há também metáforas e antíteses, estas muito mais frequentes. Sugere-se que o próprio título seja antitético, afinal, vida é uma alusão à plenitude enquanto a secura contrapõe o substantivo.

De todos os livros de vestibular da lista, acredito realmente que Vidas Secas seja um dos mais fáceis para ler e entender; a leitura, por exemplo, de Dom Casmurro é bem mais gostosa que a de Vidas Secas, mas, ainda assim, se todos os livros fossem como esse, os vestibulandos seríamos pessoas realmente felizes. Logicamente que digo àqueles que gostam de literatura modernista para ler esse livro; àqueles que não gostam, se não precisam prestar vestibular, sugiro que abstenham-se de lê-lo e apenas o façam quando realmente sentirem vontade. Mas eu realmente tenho que admitir que há passagens excelentes, principalmente aquelas que mostram os pensamentos de Baleia, o que dá um tom de humor a uma obra séria e faz com que o leitor relaxe um pouco, se descontraindo e retomando com mais curiosidade a leitura. Não há diálogos em quantidade muito considerável aqui; desde o começo fica claro que a família é caipira, não sabe falar como seu Tomás da bolandeira. Logo, os assuntos são descritos pelo narrador e, quando há falas, normalmente se repetem, numa clara alusão ao enxuto vocabulário que a família possui. Embora bem curta, eu acredito que essa seja uma obra bastante completa e - para quem a analisa profundamente, não com eu acabei de fazer - deve ser bastante complexa também.

Luís

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