22 de mar de 2010

Anticristo

Antichrist. Alemanha/Dinamarca, 2009, 100 minutos. Drama/Terror.

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Lars von Trier começou 2009 de maneira polêmica: confessou ser o melhor diretor da atualidade e ainda trouxe um filme que posicionou os espectadores de dois lados distintos. Ou gostam ou detestam. Tal como em outras obras, Trier optou por uma série de metáforas e alusões, acrescentou cenas consideradas fortes (por quem?, eu me pergunto) e nos apresentou o filme baseado numa obra de Nietzsche.


O filme possui uma das mais belas introduções que eu já ví: um casal transa enquanto o filho, sozinho no quarto, abre a janela e cai. A cena é totalmente inspirada, com direito a uma fotografia linda e inclusive uma cena explícita de penetração. Nada, porém, é chocante e a composição é belíssima, nos mostrando alta sensibilidade por parte do diretor. A lente em preto e branco e a música de fundo acrescentam ainda mais primor àquilo que Trier queria nos mostrar: a poesia de um momento dramático. Temos uma excelente visão daquilo que o filme pretende nos mostrar a partir desse momento; já no início vemos que o sexo e a morte - por vezes tão brutais - tornaram-se leves e puros, compeltamente epifânicos. A essa abertura, dei nota 10! Mas falemos mais sobre o filme, afinal há mais uma hora e trinta e cinco minutos depois disso.


Após a morte acidental do filho enquanto transavam, a mulher fica totalmente desestabilizada, culpando a si mesma pelo acontecimento. O marido, terapeuta, tenta ajudá-la, pedindo a ela que coloque no topo de uma pirâmide o seu maior medo. Ela confessa temer a natureza e o marido propõe que eles vão ao Éden, onde fica uma cabana do casal. O processo de ajuda evolui à medida que o relacionamento se desgasta e num determinado momento tudo foge ao controle.


Uma característica interessante do filme é a opção por não nomear os personagens. São apenas "ele" e "ela", numa demonstração óbvia de que o importante não é quem eles são, mas sim a que eles estão sujeitos. Não posso avaliar o filme como adaptação, porque não conhece a obra que o originou, mas a ideia de não nos revelar sobre os personagens em si é muito interessante. Conhecemos principalmente alguns pensamentos e medos deles, temos consciência do quanto um necessita do outro, mas não os enxergamos em sua essência; vemos o casal como casal, não os vemos como duas pessoas. Decorrido um tempo, o filme começa a ficar estranho e o roteiro nos apresenta diálogos completamente assustadores - não no sentido literal da palavra. Começamos a achar certas passagens deveras tendenciosas e até mesmo preconceituosas, como no momento em que ele diz à esposa que ela não pode se esquecer de que as mulheres são más, por isso eram condenadas à morte. Talvez isso venha de Nietzsche, como uma colega comentou. Mas o fato é que no meio do filme, as coisas parecem fugir ao controle e a história, antes interessante, fica meio abobalhada.


A partir do meio do filme surgem as tais cenas polêmicas, que envolvem uma masturbação próxima a uma árvore, na qual a atriz Charlotte Gainsbourg aparece totalmente nua, com a mão na vagina numa simulação muito realista.; há também uma cena de sexo na qual, ao final, acontece um imprevisto, com a mulher masturbando o marido e com o pênis dele jorrando sangue. Não sei se os atores se submeteram realmente a todas aquelas cenas, mas não é nada tão monstruoso que não possa ser visto; logo, os comentários exagerados provavelmente provêm dos conservadores extremistas que não podem ver um pênis e uma vagina - vulgo "pau" e "xana", respectivamente - para acharem que a obra se trata de um filme pornô. Não quero parecer meio bobo ao dizer isso, mas não sei avaliar a atuação dos atores. Achei-as deveras convencionais, mesmo num filme que pede algo mais. Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg estão em sintonia, mas, ainda assim, estão aquém do que o filme representa. A direção de Trier é eficiente e podemos perceber o mesmo punho firme de seus filmes anteriores, como Dogville.


Entre tantos boatos, é apenas mais um filme que te faz pensar a respeito daquilo a que o título possa se remeter. Eu compreendi da seguinte maneira: a história narra o curso natural das coisas se a natureza, tipicamente feminina, fosse o anticristo e, por causa disso, agisse de maneira cruel. Isso ficou evidente para mim principalmente por causa das cenas que mostram os animais e as árvores; os primeiros, em estado crítico, se mostram sofredores, como se a natureza os impusesse a uma situação desconfortável (para isso, basta ver aquele veado pendurado no corpo da mãe) e as árvores são uma ênfase na duração da dor, uma vez que elas persistem fazendo barulhos, impedindo que os personagens durman bem. Anticristo é um filme que faz o espectador pensar bastante e faz ficar dividido entre as características boas e as ruins. Uma vez que ele opte pelas quais acha mais fortes, basta concluir que gostou ou que não gostou do filme. Honestamente, achei um filme dispensável e se você não o vir, não perderá uma grande obra.


Luís

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2 opiniões:

O Cara da Locadora disse...

Discordamos veementemente sobre o filme, você já leu lá no Cara da Locadora, falando nisso... cadê você, meu filho? hahaa

Marcelo A. disse...

Putz, já ouviu falar sobre sincronicidade (é assim que se fala?)? Impressionado aqui, pois acabei de ver Anticristo e cismei que já tinha lido algo no L&C... Quando entro... caraca!

Sei lá, esse é um filme que me instiga. Na realidade, passei só pra conferir a sua resenha - que pra mim já existia. Se eu conseguir formular algum pensamento lógico, eu te falo...