15 de abr de 2010

Cidade de Deus

Brasil, 2002, 135 minutos. Drama.
Indicado a 4 Academy Awards nas categorias de Melhor Diretor (Fernando Meirelles), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem e Melhor Filme Estrangeiro.
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Primeiro, devo confessar que, antes mesmo de ver esse filme, eu nutria certa distância dele. Isso deve ao fato de eu não entender por que o cinema nacional gosta de cultuar a violência, banalizando, tornando-a cultural e, por causa disso,a ceitável. Logicamente que eu não poderia dar as costas a vida toda para um filme nacional que recebeu grande destaque internacional, chegando inclusive aonde os outros jamais chegaram: quatro indicações ao principal prêmio do cinema.

Resolvi me deitar para vê-lo e esperei pelo pior. Demorei pouco mais de dez minutos para me adaptar àquela lenta amarela-alaranjada usada para possivelmente captar com mais precisão a ideia de calor e iluminação do Rio de Janeiro. Logo nas cenas iniciais, percebemos o caráter épico do filme, que se comprova conforme vamos acompanhando o desenrolar a história, que aborda a trajetória da Cidade de Deus, uma comunidade bastante violenta, que, como bem dito por um personagem, "não recebe qualquer atenção, já que está bem longe dos cartões postais do Rio de Janeiro". Aproveito para explicar a palavra que usei... digo "épico" porque decididamente a linha narrativa abrange um período bastante longo e lhe dá credibilidade e sustância ao contruir vários personagens que dêem embasamento para os atos e acontecimentos mostrados.

Devo dizer que a característica que citei acima é importantíssima. Se não houvesse acréscimo dos vários personagens com breves introduções acerca de cada um deles, o filme certamente não teria o peso que tem. As situações individuais, que motivaram cada personagem a tomar um partido, são deveras importantes para o desenrolar dessa obra. Vale ainda comentar que o que disse no primeiro parágrafo aqui se aplica com sensatez: a violência na Cidade de Deus é mesmo cultural. Desde pequenos os jovens convivem com ela, logo a maioria tende a se aproximar cada vez mais, motivados peos seus heróis imaginários e pelos arruaceiros com que convivem. A somar, já os nascidos ruins, como é o caso de Dadinho, que mais tarde se tornaria Zé Pequeno e imortalizaria uma das mais famosas frases do cinema nacional - a qual nem preciso dizer, pois vocês já sabem qual é! Um dos maiores acertos do roteiro é contrapor personagens em relação às suas atitudes, mas centrá-los num mesmo ambiente. Ao não usar princípios deterministas, o filme se enriquece. Zé Pequeno é o típico vândalo-mor e ajusta as situações à sua vontade, da maneira mais violenta possível e se empenha em compor o perfil do bandido-exemplo: extremamente agressivo, sem meias palavras, totalmente autoritário e à margem da boa conduta social. Buscapé é a antítese: ainda que se situe no mesmo ambiente, ele tem uma visão voltada para o seu crescimento pessoal, sem intrometer-se na vida dos outros. No meio termo, está Bené, que é um óbvio intermediário: ele é vilão e mocinho, bandido e cidadão. Descrevo-o assim porque fica óbvio que suas atitudes positivas, que o elevam em relação ao outros, não excluem sua parte ao lado de Zé Pequeno. Suas ações são concomitantes; não excludentes.

A direção do filme é realmente muito elogiável. Fernando Meirelles ocupou-se em ambientar com perfeição aquilo que queria mostrar. O filme é, sobretudo, interativo. Tem um forte potencial de colocar o espectador ao lado dos personagens. Como disse, eu acrescentar vários personagens e breve introduções, o diretor causou uma aproximação do espectador. A opção por narrar em primeira pessoa surte efeito positivo, já que somos também induzidos pelas opiniões de Buscapé, o personagem. A edição é rápido, vemos vários ângulos da mesma cena. Isso causa um dinamismo que encurta o filme, fazendo-o parecer menor do que os cento e trinta minutos que tem. As atuações dos atores são mesmo boas - muitos deles inclusive são realmente moradores de comunidades como a Cidade de Deus. Até mesmo Matheus Natchergale - que é um ator convincente, mas que parece quase sempre igual - está bem diferente de suas outras atuações. Em minha opinião, o destaque vai para os atores Phellipe e Jonathan Haangensen, que participam de estágios diferentes da história, mas que contribuem firmemente para que sejam lembrados depois desse filme. Destaque especial para duas cenas de carga dramática e uma assustadora: Dadinho matando geral no motel; Zé Pequeno chorando por causa de Bené na festa de despedida na boate; e, por fim, a cena em que o grupo de Zé Pequeno atira em duas crianças e depois obriga uma terceira a matar um dos dois garotos.

Considerando o que esperava do filme e aquilo que vi, confesso que fiquei positivamente surpreso. Gostei mesmo do filme e me sinto obrig´pa-lo a recomendá-lo àqueles que buscam um filme nacional interessante. Aos que pensavam como eu, "deve ser um lixo porque só mostra violência", afirmo que a violência mostrada é totalmente coerente com a proposta do filme e não é gratuita. Talvez o filme seja um pouco longo demais, com um pouco de informações em excesso... mas certamente é um filme válido e uma amostra, sobretudo, de que temos bons diretores no Brasil!

Luís
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2 opiniões:

Roberto F. A. Simões disse...

O filme é uma obra-prima!
Se por vezes se fica, estática, a excelente montagem encarrega-se de conferir ao filme o seu ritmo de sempre: célere e enérgico, genuinamente espontâneo e contagiante. Aliás, diga-se mesmo: o trabalho de montagem de 'Cidade de Deus', a cargo de Daniel Rezende, é um dos mais memoráveis de sempre. E o argumento de Braulio Mantovani, adaptando a obra de Paulo Lins, é um exercício dramatúrgico puramente engenhoso, com sabor a originalidade em todos os seus avanços e recuos. Excelente.

5/5

Cumps.
Roberto Simões
» CINEROAD - A Estrada do Cinema «

Ciro Hamen disse...

Um dos maiores clássicos brasileiros! E um dos melhores filmes da década passada.

Abraços!