5 de ago de 2010

Uma Casa no Fim do Mundo

A Home at the End of the World. EUA, 1994, 347 páginas. Drama.
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 Antes de tudo, gostaria de agradecer à Jacqueline por me recomendar e emprestar esse livro. Discutíamos sobre relacionamentos a três e sobre como eles podem ou não dar certo e então ela me falou desse livro, se prontificou a me emprestá-lo e, por causa dela, pude conferir essa obra literária que é, no mínimo, elogiável.


Jon e Bobby são crianças nos anos 60 e eles ainda não se conhecem. O primeiro vive o conforto de uma família que lhe conforta carinhosamente nos braços do pai e no metodismo inflexível da mãe; Bobby, por sua vez, é iniciado aos nove anos no uso da maconha e vê em seu irmão um verdadeiro herói. Tudo se desestrutura quando Carlton, irmão de Bobby, morre tragicamente num acidente doméstico e a família do garoto se desestrutura totalmente: a mãe morre depois por depressão e o pai se mantém alheio ao filho que lhe restou. Já adolescentes, Bobby é um garoto solitário e Jon é tagarela, casualmente acabam se aproximando e descobrindo um no outro qualidades que queriam para si. Tornaram-se amigos, mesmo com o receio familiar que os pais de Jon sustentavam pelo novo amigo. Descobriram-se mais íntimos, enamoram-se. Depois de um tempo separados e já adultos, Bobby vai morar com Jon e Clare, mulher mais velha que divide o apartamento com o amigo. Aos poucos, os três descobrem-se numa tumultuada relação a três, que implica vários questionamentos e decisões difíceis.

Pela sinopse que eu fiz, vocês podem contar três personagens, creditando a dois deles – Jon e Bobby – a categoria de protagonistas. Mas a narrativa de Michael Cunningham, autor do livro, é muito mais ousada: ela dá voz a quatro personagens, tornando-se todos principais. Desse modo, conhecemos Jon, Bobby, Clare e Alice, mãe de Jon. O livro é todo estruturado na narrativa dessas pessoas, sendo, portanto, narrado em primeira pessoa. Isso permite que o leitor se identifique com os quatro e permite que conheçamos os pontos de vista de todos os envolvidos nesse romance. Cada personagem comenta não apenas sobre os medos que lhe cerca como também falam sobre as alegrias e momentos de felicidade por que passa, comenta sobre a relação que tem com a sua própria vida. É possível a nós conhecer os personagens a partir do seu interior. Por exemplo, primeiro o autor se ocupa em narrar os pensamentos e sensações dos personagens. Logo no primeiro capítulo, Jon, ainda criança, nos narra o quanto se sente confortável nos braços do pai e fala sobre o quanto se sente atraído pelo conforto que aqueles braços lhe proporcionam; noutra passagem, ela comenta sobre como se sentia ao olhar no espelho: nem homem nem mulher, ele não se via numa figura masculina nem em uma feminina. Bobby, por sua vez, admite o quanto admira o irmão, figura importantíssima na sua infância e companhia da qual jamais se desligaria, mesmo depois da morte do irmão. Clare – que entra na história somente na terceira parte do livro, quando os personagens já são adultos – discorre sobre a importância que a sua família teve na formação do seu caráter e o modo como ele é capaz de lidar com a relação a três que vive com Bobby e Jon. Alice, aparentemente de menos importância na história, aborda vários assuntos de sua vida: o casamento acomodado, as preocupações com o filho, a esperança de uma vida fora da monotonia habitual.

O autor não se equivocou ao compor o relacionamento de Jon, Clare e Bobby se sem focar naquilo a que estão sujeitos os relacionamentos como esse: a sensação de exclusão. Os personagens mantêm relacionamentos sexuais entre si, mantêm afeição e também se amam – mas de formas diferentes. Cunningham acertou ao mostrar que, embora o sexo admita três pessoas, no amor só cabem duas. O amor é uma estrada estreitas e por elas só passam duas pessoas por vez. Assim, sabemos que, mesmo que façam sexo e se sintam afeitos um ao outro, eles não se amam de modo a ficar os três protegidos. Bobby e Jon se amam fraternalmente, amam-se de tal modo que o sexo não interfere no sentimento e assim eles perceptivelmente continuarão pelo resto de suas vidas. Bobby e Clare também se amam, mas se amam como homem e mulher, e, mesmo sentindo extremo carinho um pelo outro, têm noção de que um dia aquilo pode acabar. Jon e Clare partilham do sentimento de carinho, amam-se também fraternalmente, chegam a ser confidentes – mas, tal como o relacionamento de Bobby e Clare, sabem que um dia pode acabar. Desse modo, se Jon sobra no quesito intensidade sexual, Clare sobre no quesito “durar para sempre”. Vivenciando esse sentimento e tendo-o como base para as suas ações, os dois personagens tomam decisões muito fortes e decisivas, como no momento em que Jon decide se desvincular do triângulo no meio do livro e, mais tarde, quando Clare opta por fazer o mesmo.

A personagem de Alice representa, muito provavelmente, a figura da sociedade observando o relacionamento dos três. Ela é uma mulher que se casou por não ter motivos para não se casar e manteve-se num casamento por muitos anos, até que o marido morreu e ela, então, pôde começar a viver como queria. Desde que seu filho era adolescente, ela já sentia impulsos de sair de sua vida cotidiana – tanto é que se aventurou a se juntar ao filho, Jon, e ao melhor amigo dele, Bobby, nas longas noites em que os dois – eventualmente os três – se entregavam às viagens lisérgicas. Assim, ela busca o tempo todo um escapismo psicológico, quer se sentir diferente de quem é. Diante da descoberta do relacionamento entre Bobby e Jon – numa das cenas mais tensas do livro –, Alice passa a lidar com a situação do melhor modo que consegue, pois ela, como ela mesma admite no livro, já havia notado que o filho era “diferente”. Muito mais tarde, ela diz para Jon que ele deveria investir num relacionamento sério, mesmo diante das argumentações do rapaz de que ele, Bobby e Clare vivem um relacionamento sério. O autor quis talvez mostrar um pouco da hipocrisia que embasa a sociedade: as pessoas, mesmo aquelas que buscam o tempo todo fugir do lugar-comum que assola as suas vidas, não são capazes de aceitar aquilo que lhes foge muito do convencional. Aceitam a homossexualidade porque ela já está consolidada na nossa cultura, mas temem relações que sejam diferentes daquelas a que estamos habituados.

Admito que Uma Casa no Fim do Mundo não é o melhor livro que eu já li, mas vejo nele muita qualidade para recomendar a todas as pessoas que buscam uma boa obra literária, capaz de propor excelentes questionamentos sobre diversos assuntos: amor, amizade, laços de ternura, impulsividade, entre outros. Tudo nesse livro parece muito bem conectado e cada estágio – infância, adolescência e idade adulta – representa uma série nova de reflexões. Eu, particularmente, adorei a adolescência, momento que mais me chamou a atenção exatamente por ser quando os garotos descobrem que se amam além do jeito como dois amigos normalmente se amam. Creio que vocês devam conferir esse livro, provavelmente um dos melhores que eu li esse ano. Recomendo que o leiam com atenção, tomem nota das passagens importantes, releiam-nas, absorvam o máximo possível. Embora não seja livro de auto-ajuda, pode acabar dando grandes dicas de como se portar diante de situações complexas – como, por exemplo, relações a três.

Luís

1 opiniões:

Anônimo disse...

Luis, Coincidentemente assisti ao filme alguns dias atras e vivo um relacionamento homossexual a três. Fui, inicialmente, o "incentivador" do relacionamento nesse formato por ficar dividido entre meu antigo parceiro e uma nova pessoa que conheci e fiquei bastante atraído. Durante algum tempo eu me sentia o "elo", o "cerne", dessa relação. O que era uma situação muito confortável. Depois de um pouco mais de um ano desse relacionamento, comecei a sentir algumas inseguranças com o crescimento da cumplicidade dos meus outros dois namorados e começamos a vivenciar uma crise. Inclusive forcei ao meu namorado mais antigo à uma escolha. Depois de muita crise, angustia, choro e tristesa, estamos nos permitindo um recomeço com mais diálogo e atenção. Reconheço que um dos fatos geradores dessa crise reside no meu egocentrismo. Acho que não concordo com você quando afirma que apenas sexo é possível à três, mas não amor. Isso é bastante subjetivo e depende muito da construção da personalidade de cada hum. Gostei muito da sua matéria e, de fato, esse é um assunto que tem me interessado bastante.