17 de ago de 2010

Quando Duas Mulheres Pecam

Persona. Suécia, 1966, 85 minutos. Drama.
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Primeiro filme de Ingmar Bergman a que assisti. Depois de vê-lo, me veio aquela sensação de peso, pois essa é uma obra-prima psicológica, que obriga o espectador a pensar sobre cada detalhe em cena. Cada momento indica uma situação, cada expressão indica uma vertente da pessoa e nós caminhamos junto com o filme e somos apresentados a um final reflexivo.

Elisabeth é uma atriz de teatro que após uma apresentação de teatro decidiu calar-se. Desde então, fica muda e vive num hospital, onde conhece Alma, a enfermeira que tomará conta dela. Com o ínfimo avanço nas tentativas de fazer Elisabeth falar, a médica do hospital sugere que as duas mulheres vão passar algum tempo na em sua casa de praia, onde poderão ficar mais à vontade e o tratamento poderá fluir melhor. No período em que passam juntas, cresce entre elas um relacionamento confuso, bastante íntimo, amarrando-as.

Bergman, Liv Ullman e Bibi Andersson, respectivamente, diretor e intérpretes de Elisabeth e Alma, compõem uma obra interessantíssima cuja principal nuance apresentada é a psicológica. O diretor prima pelo silêncio de uma das atrizes, faz com que haja apenas uma voz, apenas um rosto em foco, para nos apresentar posteriormente uma conclusão magnífica. Em conjunto, os três entraram em perfeita sintonia, proporcionando uma ótima afeição em relação ao espectador, já que nos identificamos com tudo o que vemos. Os planos-sequência de Bergman são fantásticos. Ele mostra sempre uma atriz em cena, dificilmente vemos as duas ao mesmo tempo e isso é o necessário para que possamos concluir corretamente a excelência de sua obra. A iluminação que ele usa em cena é fantásticas, pois vemos as atrizes conforme estão suas personagens: embora diante uma da outra, elas estão ocultas e são parcialmente vistas. Curiosamente, o lado do rosto que vemos de uma é o oposto ao lado do rosto que vemos da outra. Em preto e branco, o filme proporciona um furor ainda maior. O calor provém das palavras, dos olhares, jamais das cores em cena. Logo, a eficiência do diretor para captar os melhores ângulos das atrizes é fundamental.

Bibi Andersson representa o descontrole emocional, as revoluções internas do ser. Em pouco tempo, sua personagem ama e odeia, se sente apaixonada e, pouco depois, se torna vingativa. A atriz responsabiliza-se pelas modificações comportamentais, tornando-se um objeto de estudo de Elisabeth. Liv Ullmann, em seu primeiro papel num filme - este seria o 1º de 12 filmes em que ela trabalharia com Bergman -, nos apresenta uma personagem maravilhosa, que sobressai à outra. Sem falas, suas interpretação resigna-se aos olhares e gestos. Os close-ups em seu rosto nos revelam emoções e vontades, nos revelam interesse e, sem nenhuma palavra, podemos compreender todo o significado daquilo que ela sente. Gostaria de citar uma cena que para mim é uma das melhores do filme. Elisabeth está sentada na cama fumando e Alma está numa poltrona, contando a elas seus segredos. Uma cena belíssima na qual todos estão em perfeita sincronia.

Lembram-se de que disse que o filme mostra várias vertentes de uma pessoa? Usei o singular, porque é exatamente isso que o filme representa. [SPOILER] Elisabeth e Alma são, na verdade, a mesma pessoa. Representam, respectivamente, o físico e o emocional. Para isso, basta analisarmos como são mostrada. Elisabeth se move pouco, é bastante linear e a sua única grande explosão é aquela instintiva (quando teme que a outra lhe jogue água fervente); Alma, como o próprio nome sugere, é a parte interna, cheia de movimentos bruscos, variando em humor e sentimentos. Duas cenas deixam isso bem claro: a que o marido de Elisabeth dorme com Alma e quando as duas mulheres conversam no final do filme. Sr. Vogler busca os sentimentos de Elisabeth e não o seu físico, logo ele se deita com Alma. No final, Bergman mostra a mesma sequência de duas perspectivas, exibindo as expressões das atrizes, buscando representar o quanto a culpa pesa (metaforicamente mostrada pelas ofensas de Alma) e a maneira como o físico reage (visto na interpretação de Ullmann). [FIM DO SPOILER]

Quando Duas Mulheres Pecam, muito mais conhecido como Persona, é um filme instigante e hipnotizante, que deve ser visto pelos cinéfilos e pelos fãs de Ingmar Bergman. Infelizmente, o título nacional interfere no depreendimento daquilo que o orignal apresenta, mas o bom espectador facilmente entende tudo o que vê. Definitivamente, uma obra que demorei para descobrir, mas entrou para a minha lista de filmes preferidos.

2 opiniões:

Lia disse...

Gostei da resenha, bem articulada e com um ritmo bom pra leitura. Hj passará esse filme no telecine cult às 22:00h dai vim cá, dá uma espiada na tua resenha. Té mais ;)

Ed, o Vórtice disse...

Gostei muito de sua resenha. Encontrei-a minutos antes de assistir o filme, o qual já planejava ver há muito tempo, esperava somente o momento certo. Logo no início do texto, percebi que seria de melhor proveito lê-lo após o filme, e aqui estou. Até o spoiler foi colocado de forma adequada.