21 de ago de 2010

A Centopeia Humana

The Human Centipede. Holanda, 2010, 92 minutos. Thriller.
_______________________________________________

“Eu não gosto de seres humanos”. – Dr. Heiter.


Esses dias, o Ewerton, um colega meu – dono do blog A Cereja do Bolo –, comentou comigo sobre um filme chamado The Human Centipede e me mandou um link para que eu visse o trailer. Como estou acostumado com as mais diversas (e, às vezes, absurdas) idéias para filmes de horror, não me surpreendi ao ver aquilo: um médico-cirurgião renomado, especialista em separação de gêmeos siameses, tem o sonho de criar trigêmeos siameses. Como nunca viu isso, ele mesmo desejar criá-los e a parte em comum entre eles será o trato digestivo. Com essa intenção, ela seqüestra três pessoas e as opera, conectando a boca de uma ao ânus da outra, de como que se assemelhem a uma centopeia.

Devo dizer que eu realmente achei fantástica a intenção do filme. Confesso que nunca pensei naquilo que o médico pensou. A simples imaginação de como ficariam as pessoas depois da cirurgia me deixou meio nauseado, principalmente quando pensei na conseqüência de conectá-las do modo como o cirurgião desejava: o que a pessoa A comesse seria transferido para a pessoa B e tudo sairia pela pessoa C. Parece bem escatológica a situação – e ela de fato é –, mas em nenhum momento o filme aborda essa ocorrência de modo medíocre ou sujo. Esse é um ponto positivo, em minha opinião. Creio que a máxima qualidade do filme seja a indignação causada no espectador. Eu me senti indignado com a situação a que os três turistas foram submetidos. Não me refiro ao fato de terem sido seqüestrados, mas à condição desmoralizante em que foram postos. Os três tornaram-se um animal – um bicho quase bestial, exótico e não nomeado pela biologia. Os três se tornaram uma criatura fora do convencional e o pior é que são três células colocadas juntas e isso faz com quem elas não tenham independência, porque definitivamente não pensam como um único ser. Devido, porém, à condição crítica na qual se encontram, são obrigados a conviver juntos.

Se a idéia me pareceu legal, o roteiro me pareceu bem estranho e mal desenvolvido. O começo do filme, no qual somos apresentados à estranha figura do Dr. Heiter e às turistas americanas que servirão como partes da centopéia, é totalmente clichê e improvável. O médico, na cena inicial, que acontece na beira da rodovia, seqüestra um homem. O modo como Tom Six escreveu esse trecho do roteiro é totalmente inverossímil, principalmente pela improbabilidade da concretização daquele seqüestro. Embora o rapto de Lindsay e Jenny seja mais aceitável, a introdução dessas personagens é absurdamente clichê. As jovens bobas, que estão num país alheios sem saber falar a língua oficial, se perdem numa área de florestas e acabam chegando à casa do médico que as costurará. Ridículo, é o que eu tenho para dizer. De certo modo, nada se desenvolve no roteiro – não sabemos nada sobre nenhum personagem e as cenas basicamente estão ali para que saibamos que os personagens estão tristemente ferrados. No caso de Lindsay e Jenny, elas estão comendo merda literalmente. A única verossimilhança do roteiro diz respeito ao modo como a polícia começou a desconfiar de Dr. Heiter: o médico simplesmente não se ocupou em esconder os carros dos turistas que estavam próximos à sua propriedade.

Quando à direção, não sei bem o que dizer. A Centopeia Humana tem uma estrutura bastante simplória, sem muitos elementos que poderia implicar dificuldades para o diretor Tom Six. Acho também que o diretor optou por ângulos e planos não muito interessantes e mostrou algumas coisas bem estranhas e inexplicáveis – se ele tivesse bom senso, decerto perceberia que a centopéia não conseguiria descer da mesa em que estava sendo analisada do modo como foi mostrado. Aliás, não foi mostrado; e isso dá maior credibilidade à minha desconfiança de que era impossível aquele acontecimento. As atuações não têm muito destaque: as intérpretes de Lindsay e Jenny são bem fracas e o caráter dramático de suas interpretações é realmente paupérrimo. O único grande destaque no filme é Dieter Laser, intérprete de Dr. Heiter. O ator me assustou com a sua maluquice e o seu comportamento complexo de querer ser Deus. Os seus olhares, os seus modos de se comportar e, sobretudo, o modo como ele age em relação aos outros: nem mesmo os seus cachorros – que ele considera “queridos” – sobreviveram à loucura de sua mente. Laser conseguiu reproduzir muito bem esse aspecto do personagem. E ele é realmente assustador, talvez tanto quanto o próprio personagem.

A Centopeia Humana é um filme esquecível, devo admitir. Não tem nada nele que me provocou uma reação de potencial lembrança. Assisti a esse filme há sete dias e nem sequer me lembro de algumas passagens. O único momento de real tensão é o momento final, quando o filme termina num momento extremamente pessimista e dramático – como seres individuais ou como gêmeos, a morte parecia inevitável. Penso que a finalidade do filme era nos causa certa aflição e confesso que há uma cena capaz disso: a simples imaginação de que os três personagens vão se “descosturar” um do outro me causou uma sensação de dor. Isso aconteceu em uma cena apenas...

2 opiniões:

Anônimo disse...

Muito bacana e completa a análise!

Valeu mesmo.

Gabriel Reis disse...

Achei sensacional a análise sobre o filme 'louco'. Particularmente, eu gostei bastante do filme mas não do filme em si (atuação, enredo, cenas e etc...) mas sim, de sua intenção. A idéia de poder passar para o espectador. Uma pena, realmente, que foi pouquíssimo desenvolvido. =/