4 de nov de 2010

Educação

An Education. Inglaterra, 2010, 95 minutos. Drama. Dirigido por Lone Scherfig.
Indicado a 2 Oscar: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan) e Melhor Roteiro Adaptado.
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Educação é um filme que coloco no grupo daqueles em que você não precisa assistir para reconhecer qualidade na obra. Há coisas que se pode dizer só de olhar para o pôster dessa obra inglesa. Não me restavam dúvidas de que, pelo menos, a fotografia seria interessante. E conhecendo um pouco da história abordada no filme, concluí que, se o roteiro funcionasse bem, o enredo seria potencialmente um grande entretenimento - e entretenimento de qualidade, desses que provocam questionamentos.

Logo no começo do filme já percebemos o elemento resumidor e o elemento constrastante - a rigidez imposta pelo pai de Jenny e a possibilidade de fugir da rotina, respectivamente. Sem perda de tempo, o filme já vai diretamente ao ponto a que quer chegar, já nos mostrando nos momentos iniciais os dois fatores que se justaporão e formarão os desejos e ações da jovem londrina que sonha em ir pra França - ideia que o pai reprova, pois pensa que ela deve estudar a fim de ser aceita em Oxford. À Jenny cabe escolher que tipo de vida ela quer ter: aquela moldada conforme a educação tradicional - o que implica certo falso moralismo e uma rigidez que, embora negativa, lhe garante certa segurança - ou a educação proporcionada pela vida - aquela em que se prioriza as ações impulsivas e as decisões rápidas. A sua dificuldade de escolha aumenta ainda mais quando ela percebe que as suas opções têm características muito próprias e ao mesmo tempo intercambiáveis - não há como avaliar com exatidão qual de suas opções lhe trará mais felicidiade, pois tudo é um risco.

Inquestionavelmente, o roteiro funciona muito bem. O espectador está diante de todos os problemas da personagem central e também compartilha com ela todas as suas dificuldades de questionamento. Fica evidente para todos que o caminho mais divertido a seguir é aquele em que ela monta num carro e vai junto com David, um homem mais velho e mais maduro e que decerto poderá lhe apresentar todo o glamour que a sua vida rotineira na casa dos pais não lhe traz. Por outro lado, logo que descobrimos o trabalho de David, em nós é introduzida a dúvida: o quão capaz ele será de proporcionar à garota a estabilidade de que ela precisa? Por mais que queiramos afirmar que estabilidade não é um aspecto necessário, não podemos nos esquivar do fato de que é exatamente isso que procuramos numa relação. E Jenny não foge à regra. Burlar as normas de boa conduta impostas pelo pai não é uma problema, desde que David seja capaz de lhe manter a felicidade que sente quando está com ele. O choque de opiniões - a dele e a dela a respeito do que ele faz - leva a uma ruptura dessa noção de estabilidade e isso é evidenciado pela cena em que Jenny simplesmente dá as costas a David e aos seus amigos e decide ir embora. O título original, que traduzido literalmente, seria "Uma Educação" é uma potencial referência às concepções morais que Jenny deve escolher seguir, pois fica claro que, com David, ela está sujeita à inversão daquilo a que ela está habituada e, sem David, ela se manterá na estrutura inflexível do comportamento familiar no qual reina a opressão.

A fotografia do filme ajuda muito bem a condensar essa noção de positivo versus negativo. Basta repararmos nas cores e na intensidade delas para que notemos o quanto elas também nos conduzem a pensar como Jenny. Nos jantares e momenntos em família, o ambiente é fracamente iluminada, usualmente escuro, parecendo opressor e incômodo - decerto Jenny enxerga nebulosamente; no entanto, quando está com David, as cores são mais vívidas e há cores mais claras e mais iluminação, permitindo a personagem enxergar além daquilo que é possível em sua casa. E curiosamente isso se reflete também em todos os personagens. Na casa da garota, todos se constragem: os pais dela, ela, o garoto que prentendia namorá-la; ao lado de David, porém, tudo reluz: nem mesmo a extrema ignorância de Helen, namorada do amigo de David, parece incômodo a Jenny. O roteiro não evita realizar críticas mordazes aos personagens e seus comportamentos, podendo projetá-las a classe a que esses personagens pertencem. Jack, o pai de Jenny, é extremamente conservador e severo, chega a ser grosseiro com a filha quando ela não corresponde às suas expectativas; cobre-a de lições moralistas, incentivando-a a crescer como pensadora, a formar-se na universidade e conquistar o seu próprio espaço. Diante do convite de casamento de um homem financeiramente mais favorito, o seu discurso acaba distorcido e ele passa a favorecer o casamento em vez da imposta admissão da filha em Oxford. Assim, o enredo critica a hipocrisia que regia o moralismo extremamente "adaptável" que dominava as pessoas daquela época. Quando o ambiente é o glamour e a fineza das festas e ambientes frequentados por David e seus amigos, a alienação é oposicionada ao requinte desses personagens: Helen, por exemplo, simplesmente não se ocupa em entender o acontece e solta frases ignorantes e ninguém a questiona ou a corrige, pois parece inerente a eles que o lado pensador seja posto de lado. Não é à toa que seduzem Jenny com o prazer estético das sensações vertiginosas e não com o prazer do desenvolvimento do intelecto.

Educação, no entanto, não é apenas um excelente roteiro. É também boas atuações de dois atores e atuações corretas dos outros integrantes do elenco. Tanto Carey Mulligan quanto Alfred Molina conceberam personagens muito densos e suas interpretações foram muito bem cuidadas - tanto um quanto o outro merecia uma indicação ao Oscar, de modo a ser justo com os seus esforços artísticos de compor trabalhos tão sérios. Não sei bem o que é mais bonito - se Carey Mulligan ou Jenny, mas penso que seja mesmo difícil desassociá-las, logo o trabalho da atriz como intérprete e o trabalho do roteirista como criador devem ser elogiados. Peter Sarsgaard interpreta David de um jeito cuidadoso e seu trabalho também merece elogio, embora esteja num nível bem inferior ao da sua colega de elenco e parceira de cenas. Todo o elenco coadjuvante funciona muito bem e não creio que haja qualquer ator - protagonista ou secundário - que tenha me chamado a atenção negativamente.

Educação é um exercício de questionamento e somente por isso já vale a pena ser conferido. A somar, há boas atuações, um roteiro excelente, uma fotografia elogiável, uma trilha sonora que conta com cações francesas, um figurino muito bom e uma edição que consegue proporcionar uma cadência excelente ao filme. Considerando tudo, afirmo com convicção: assistam a esse filme! Vejam-no com a calma e concentração necessárias para compreender cada cena e sorvê-la o máximo possível. Não quero terminar sem acrescentar que Carey Mulligan me surpreendeu a tal ponto que imagino vê-la indicada muito mais vezes ao Oscar e quero ainda conferir a muitas outras obras na qual ela mostra todo o seu talento inglês.

5 opiniões:

alan raspante. disse...

com certeza não preciso dizer mais nada, teu excelente texto já disse tudo. o filme é mesmo otimo, simples e agradável!

Thiago Paulo disse...

Eu adoro filmes ingleses, e esse sem dúvida é um dos meus favoritos. Carey Mulligan também me surpreendeu, e é claro que a veremos mais vezes indicada ao Oscar.

Estou mega ansioso para conferir "Never Let Me Go", onde só pelo trailer já dá pra notar que ela, mais uma vez, fez um ótimo trabalho.

Abraço.

Marcelo A. disse...

"Educação", pra mim, foi um dos melhores filmes que vi, nos últimos tempos. A história da mocinha dividida - e quem nunca se sentiu assim? - que se envolve com o rapaz com o dobro de sua idade, já me conquistou na leitura da sinopse. Além disso, há todo o climão do filme, que eu adoro! A efervescência de uma Inglaterra pré-Beatles, aquela ar beat pairando o tempo todo, as interpretações geniais de Molina e de Mulligan, um toque de humor fino... Nossa, é um dos que, com certeza, terei em minha coleção!

=D

Cristiano Contreiras disse...

Um belo filme com a atuação densa de Carey que merecia o Oscar!

Renan disse...

Belíssimo filme. Há mesmo de se notar - como você citou - sobre a fotografia do filme. Uma das cenas mais bonitas do longa é quando Jenny e David vão a Paris e é mostrados ela sorrindo numa tarde iluminada, claramente feliz por ter realizado seu sonho.

Concordando com o Cristiano, também acho que Carey Mulligan merecia a estatuea, mas isso é assunto pra postagem de Melhor Atriz do Oscar 2010.