2 de nov de 2010

O Mensageiro


The Messenger. EUA, 2009, 105 minutos. Drama.
Indicado a 2 Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Woody Harrelson) e Melhor Roteiro Original.
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Como habitualmente acontece nas cerimônias do Oscar, um ou outro filme sobre guerra é agraciado com uma indicação ou até mesmo com a estatueta dourada. The Messenger, indicado em duas categorias, mostra a guerra sob uma perspectiva diferente daquela mostrada em Guerra ao Terror, grande vencedor do Oscar 2010 e é exatamente por esse motivo que o filme conquistou mais facilmente a minha simpatia.

Usualmente os filmes de guerra me incomodam porque sempre mostram as mesmas coisas. Dor, conflitos, problemas, tragédia – mas sempre fazem questão de defender uma ideologia política e humanizar os autores dela. O roteiro de O Mensageiro mostra outro ângulo das situações da guerra: o que acontece depois dela. O título faz alusão ao cargo exercido por um soldado que voltou da guerra e que, para cumprir os meses de alistamento, passa a ser responsável pela notificação dos mortos; cabe a ele ir até a residência do parente mais próximo do soldado morto e comunicá-lo de que o soldado morreu. Para acompanhá-lo, segue o Capitão Stone, já experiente nesse campo.

Indiscutivelmente, o filme retrata algo tão doloroso e complicado quanto o campo de batalha. Embora não haja tiroteios ou a guerra como concebemo-la em nossas cabeças, decerto há um envolvimento intrínseco que obrigatoriamente nos relacione às imagens de fuzis, canhões e granadas fazendo seus barulhos ensurdecedores. O mote do filme tem como intenção mostrar uma base psicológica, uma vez que, efetivamente, quem esteve numa guerra – e que tenha saído dela ferido ou até mesmo intacto – jamais conseguirá se esquecer das imagens que foram vistas e, consequentemente, vai carregá-las consigo por toda a vida. Talvez seja ainda pior aquilo que acontece a Will, pois ele não apenas viu pessoas morrendo como também foi encarregado de presenciar a dor daqueles que tinham algum sentimento pelas vítimas. E penso que a sua situação seja realmente mais intensa do que a de muitos outros, colocados em cargos em que não precisam lidar diretamente com os entes dos mortos.

Numa história tão dramática, seria fácil escorregar para os clichês melodramáticos e inserir pessoas chorando em todos os momentos. Nesse aspecto, o roteiro se mostra muito capaz ao saber intercalar muito bem os assuntos abordados. Eu poderia dizer que a história se divide em três: a vida de Will e do Capitão Stone enquanto servidores do exército; a vida dos dois enquanto amigos, já que eles indubitavelmente se aproximam bastante; e, por fim, o relacionamento de Will com a viúva de um soldado. Intercalados, esses planos se entrecruzam, proporcionando bons focos de emoção e também de drama. Sem superficializar nenhum personagem, o roteiro permite uma análise ampla de todos eles – desde os principais, que são o Soldado Will e o Capitão Stone, até os coadjuvantes, que são Olivia e Kelly, que aparece bem pouco. Gosto principalmente das relações de compensatórias que são mostradas ao longo do enredo. Will, por exemplo, aproxima-se de Olivia por partilhar da tristeza dela ao saber que o marido morreu; apaixona-se por ela, mas é difícil para nós saber o quanto sua paixão decorre do sentimento de afinidade ou do sentimento de pesar. Relação semelhante se aplica à relação entre Will e Stone. O capitão, ex-alcoólatra, tem problemas para dormir e descobriu que o soldado também tem e logo passou a telefonar para ele durante a madrugada. Aos poucos, aproximaram-se. Não sabemos definir ao certo se isso aconteceu devido ao sentimento de compatibilidade que eles dividem ou se aconteceu porque, de certa forma, eles são as únicas coisas que eles têm e logicamente resta a um a companhia do outro. Não me restam dúvidas de que seja muito difícil analisar as relações mostradas nesse filme, porque elas carregam consigo uma carga semântica muito dúbia e simultaneamente forte e sincera.

Para mim, todo o elenco do filme está muito bem. Não vejo como questionar ou desmerecer nenhuma atuação, pois creio que todos estejam muito bem em seus personagens. Woody Harrelson, como o Capitão Tony Stone, me pareceu ser aquele que mais se destaca, mas não sei se isso se deve exclusivamente ao ator ou também à personalidade de seu personagem, que é bem impactante. Sua indicação, penso que seja válida e eu não veria muitos problemas se o Oscar tivesse parado em suas mãos, pois eu definitivamente não tinha favoritos nessa categoria. Samantha Morton me impressionou muito com sua atuação contida e, ao mesmo tempo, muito segura e brilhosa. Olivia, a sua personagem, é a forma condensada de tudo o que se espera de uma viúva cujo casamento anteriormente havia fracassado. E Samantha soube defendê-la muito bem, tornando-a tão grande quanto os personagens centrais. Bem Foster, assim como os outros, também está admirável e a forma como concebeu o personagem também é muito válida. Não hesito ao dizer que todos os atores souberam bem como se entrosar em cena e aparentemente todos deram o melhor de si.

Com uma narrativa muito interessante, direção eficiente, boas interpretações e foco afinadíssimo, O Mensageiro tornou-se um filme muito prazeroso de se ver. Nele há poucas falhas e muito mais qualidades, o que o faz uma boa obra. Conferi-lo é algo que recomendo bastante, principalmente por ele conseguir fugir dos clichês em que filmes desse gênero sempre caem. Vejam-no.

1 opiniões:

Caio Coletti disse...

Muito interessante seu comentário sobre o filme, de fato a força dessa história está na relação entre os personagens e na forma como o elenco representa essa relação. Para mim Harrelson arquiva uma interpretação brilhante, e só não levou a estatueta porque Chritoph Waltz era out-concour esse ano. E não entendo porque Ben Foster não foi lembrado na categoria principal, rouba com facilidade os lugares de George Clooney e Morgan Freeman (ambos excelentes atores, mas em interpretações mornas, ao meu ver, nos filmes pelos quais foram nominados).

E acho que o ponto não é desmerecer a mensagem de "Guerra ao Terror", que é surpreendente, válida e carregada de entretenimento, mas de deixar claro que essa visão deve ser complementada pela de "O Mensageiro" para que se possa ter uma compreensão mais ampla da guerra.

Abraços! :D