19 de dez de 2010

Limite Branco

Escrito por Caio Fernando Abreu, 1970, 184 páginas. Romance.
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Confesso que sempre li boas opiniões a respeito das obras do autor brasileiro Caio Fernando Abreu, mas nunca havia lido nada dele. Então, uma colega – a Verônica, a quem aproveito para agradecer – me emprestou esse livro dele e, embora me dissesse que “não era um dos melhores dele”, disse que valia a pena lê-lo por ser o único romance escrito por esse autor (todos os outros publicados eram contos).

Então, sem esperar muito, comecei a lê-lo e fui conhecendo um pouquinho do estilo de Caio F. É claro que não me embaso nesse único livro para pressupor o estilo do autor, pois, como Limite Branco foi a sua primeira publicação, a sua escrita ainda estava em formação e muito provavelmente mudaria nos anos seguintes. O livro nos conta a história de Maurício, que era filho único e que começou a ficar meio perturbado com a vinda de um irmão. A narrativa acompanha a trajetória de sua vida, desde criança, quando tem bastante admiração pelas pessoas até o seu envelhecer, quando começa a enxergar com mais realidade. Paralelamente, somos apresentados ao seu diário, no qual um Maurício de 19 anos vai contando como se sente em relação ao mundo em que vive e em relação às pessoas com quem convive.

Queria tanto dizer que eu gostei muito do livro. Não vou mentir: achei que Limite Branco é realmente maçante, sem muito a acrescentar a quem lê. Não é um grande livro nem é criado com base em acontecimentos aventurosos, de modo a entreter o leitor. Simplesmente, é uma série de pensamentos e idéias do autor, que foram postos ali sem uma intenção visível. Ficou muito evidente para mim que o autor se confunde facilmente com o narrador pelas partes em que o diário é mostrado. O dono do diário curiosamente tem a mesma idade que o autor tinha à época em que escreveu Limite Branco. Logo no início do livro, há uma carta escrita pelo próprio Caio F., na qual ele comenta o quanto “imaturo” era o seu livro, tendo ele composto o seu personagem numa indefinição sexual, temendo a repreensão da época. Ele mesmo assume ter composto o seu personagem assim, muito indeciso quanto à sua sexualidade – e penso que isso tenha sido uma forma de o autor, que depois assumiu sua homossexualidade, colocar no personagem aquilo que ele vivia.

Talvez o que tenha sido mais incômodo para mim foi o modo como o autor concebeu o seu relato. Ainda que não aventura, como citei acima, isso não seria problema e ainda assim o livro poderia ser bastante interessante. O problema reside no fato de que parece também não haver muita predisposição a uma análise mais psicológica, restando ao leitor apenas um série de palavras. Em alguns momentos, parece que um determinado acontecimento vai modificar a história, dando-lhe intensidade. Aproveito para comentar sobre o momento em que Maurício flagra o episódio sexual entre um casal – o modo como ele comenta sobre os dois dá a entender que entraremos intensamente em sua mente e que nós o descobriremos todo, desde o seu íntimo, passando por tudo que o aflige, até a sua camada mais exterior, na qual os desejos se evidenciam. Mas, como também comentei acima, a indefinição sexual do personagem se revela e o autor escapa à essa demonstração daquilo que o personagem é.

Acompanhar a evolução do personagem é realmente maçante. Mesmo mais velho, ele não consegue ter uma personalidade interessante, não conseguiu me atrair. Se há uma característica positiva no livro, eu asseguro que ela se revela num único momento, que é quando o personagem principal finalmente concebe que mesmo as pessoas que potencialmente viveram de modo não-alienado, como o seu primo Edu, acabam caindo no senso-comum e se tornam vítimas do tipo de vida do qual fugiam. Eis a crítica forte do livro, a qual considero muito válida, porque ela, embora também me pareça mal construída ao longo dessa obra, consegue desautomatizar um pouco daquilo que é clichê nesse romance, o qual eu definitivamente não recomendo.

Acredito que Caio Fernando Abreu possa ser um excelente escritor, mas definitivamente a sua força deve estar nos contos, porque esse romance é realmente incômodo. Não sei se posso ou não atribuir a culpa ao autor, pois, como ele mesmo admite no prefácio, era bem novo quando o escreveu e talvez lhe faltasse a experiência dos anos para ajudá-lo a compor uma obra marcante.

4 opiniões:

Rafael Sanchez disse...

Ao colocar o diário do cara no livro, devia ter entrado na alma do cara mesmo, porque ninguém escreve um diário de acordo com os protocolos sociais, oras, isso é muita repressão.
Sério. Fiquei com uma certa raivinha desse livro, que minha deficiencia lexico-cognitiva me impede de por em palavras. Qualquer dia eu volto pra tentar explicitar esse sentimento incomodo.

Anônimo disse...

você lê cfa sob o crivo de uma estruta específica de romance. não sei se essa metologia é boa... esperar ação ou descobramento de perfil psicológico. dê um olhada no avanço da narrativa romanesca e veja as multiplas variáveis e possibilidades de forma.
acho que melhor seria se vc descrevesse mais e julgasse menos. talvez um ponto bom de sua resenha seja o fato de que o autor não explore a homoafetividade, talvez por questões de época. não sei ao certo.
quanto a colar vida à obra, realmente não considero que seja um critério para avaliar uma obra. isso cheira tão a séc. xix.
e quanto à idade, rimbaud escreveu sua obra a partir dos 15 anos. não creio que esse seja um fator determinante para qualidade de uma obra.

jorge a. santana (goiânia)

Jefferson Reis disse...

Por algum tempo o Caio contista foi meu favorito. Não mais, mas continuo gostando dele. Ele tem contos muito bons.

Anônimo disse...

A pior crítica que já li em toda minha vida. Ao ler o seu texto, entendi perfeitamente porque vc não gostou do livro. Vc não entende e nem fala coisa com coisa. O livro deveria ser "aventuroso"? Tenha santa paciência. Vc sabe pelo menos formar frases, o que demonstra que concluiu a alfabetização, mas entender de literatura é outra história...