10 de nov. de 2011

Água para Elefantes

Water for Elephants. EUA, 2011, 115 minutos, drama. Diretor: Francis Lawrence.
A história água-com-açúcar consegue engambelar com beleza e carisma e ainda traz Christopher Waltzem numa interpretação vivaz.

Pode-se dizer que Water for Elephants é um daqueles filmes que já causam alvoroço antes mesmo de sua estréia. Assim como inúmeros outros títulos lançados anualmente, esse filme causou furor em basicamente dois grupos: o das garotas que adoram Robert Pattinson e que vivem em função de conhecer e adorar todas as obras desse ator; e o dos esperançosos, que viam em Witherspoon e em Waltz – e em Pattinson, quem sabe – a possibilidade de uma grande obra cinematográfica.

Creio que ambos os grupos foram favorecidos, pois o filme, que fala sobre o período em que Jacob Jankowski esteve acompanhando uma trupe, consegue agradar sem apelações e sem delongas desnecessárias que perturbam a exibição de um filme. A história acompanha a narrativa de um senhor, que nos a respeito do seu passado quando, desistindo da universidade na qual cursava medicina veterinária, escolheu viver acompanhando um circo – lugar que foi responsável por grandes lições de vida.

 Christopher Waltz e Reese Witherspoon no momento em que August apresenta Rosie, o elefante, à Marlena

O período histórico-político em torno do qual a história se localiza é justamente o começo da década de 1930, quando os EUA ainda está extremamente afetado pela quebra da bolsa de valores. Assim, pessoas estão endividadas, esfomeadas e desempregadas – e é a combinação desses e de outros fatores que faz com que mais de 300 homens sigam viajando de cidade em cidade num trem para conseguir pagamento de alguns centavos por dia de trabalho escravizado. Jacob, sem dinheiro e sem família – um acidente matou os seus pais e, por causa da hipoteca da casa, o banco assumiu os bens dos Jankowski –, o jovem é obrigado a buscar um meio de sobreviver. Acaba, assim, integrando a equipe dos Irmãos Benzini.

Sabendo o arquétipo básico de histórias como essa, podemos prever facilmente o que vai acontecer: Jacob vai se apaixonar pela mulher do dono do circo, nesse caso, Marlena, interpretada por Reese Witherspoon, e August, vivido por Christopher Waltz. Tendo estabelecido o triângulo, resta apenas aguardar pelas complicações. Quanto à problemática da temática, não sei bem se a considero boa ou não. Se assumir o tom cinematográfico, diria tratar-se um encadeamento meio pobre, já que os conflitos são bastante delimitados e encontram praticamente nas reações bruscas de August em relação a como ele lida com os empregados e animais do circo. Se vir através de um tom cronista, aí parecerá extremamente adequado, pois o retrato que se faz é mais da relação tensa profissional e comportamental de August do que afetivo-amorosa de Jacob e Marlena. O romance se evidencia, mas calmamente e em segundo plano. Os mais românticos decerto acharão que falta emoção; para mim, estava na medida certa, sem dramalhões inconvenientes.

 Momento catártico do filme: o novo recomeço de Jacob e Marlena, ao lado de Rosie
O ritmo do filme é lento. Acompanhamos com calma o que há para ser mostrado. Vale notar que a obra não quer apenas expor o enredo, mas também encantar artisticamente – e devo dizer que eu me senti atraído pela abordagem estética da obra: a fotografia é bonita, o contraste da beleza quase clássica de Marlena com a selvageria em torno da qual ela está se insinua o tempo todo. Até mesmo a animalização de August – que se torna mais animal instintivo do que qualquer outro animal irracional – contrasta com a sutileza vivida pelos protagonistas e pelo ambiente circense. Francis Lawrence tem uma direção modelada, dessas que estão na cartilha. Momentos de slow-motion, algumas repetições de cenas como ênfase – nada errado, no fim, mas bastante comum e sem nenhum diferencial.

Penso que seja Christopher Waltz o ponto auge do filme. Sua atuação é marcante, mesmo nos mínimos detalhes, mesmo nos momentos mais rápidos. É o modo como olha e como usa os olhos como fonte máxima de expressão. Não me surpreenderia que concorresse a prêmios por sua atuação. Reese Witherspoon traz consigo algo de caricato. Não sei exatamente explicar nem considero ruim a sua interpretação. Mas, assim como a direção de Lawrence, parece que ela pegou algumas expressões de outras atuações, seja dela mesma ou de outras atrizes, e as usou para compor Marlena. Nenhum grande problema – nem mesmo com Robert Pattinson, ator que, honestamente, eu considero bastante canastrão. Não creio que ele atue nessa obra. Algo me diz que são outros fatores presentes na produção que causam a impressão de que ele, às vezes, sorri ou se desespera convincentemente. 

Com exceção de Waltz, a força do filme está longe da área das interpretações. Acho que está na sua beleza. Por mais que não seja um filme memorável, é uma obra que cativa ao seu modo, que mostra uma beleza que, durante a exibição e por um tempo depois dela, prende os olhos do espectador. Não chega a ser um guilty-pleasure, porque reconheço bastantes qualidades – fotografia, figurino, direção de arte –, mas é uma dessas obras cujo charme está aparentemente além do próprio filme. Talvez esteja até mesmo na receptividade do espectador...

6 opiniões:

Luiz Santiago (Plano Crítico) disse...

Luís, adorei sua crítica! E devo dizer que concordo plenamente com ela. Também acho Pattinson canastrão, e que o filme vale-se pelos setores técnicos. Já tínhamos conversado sobre ele no facebook, e foi bom ler a opinião completa por aqui.

Um abraço.

Alan Raspante disse...

Gostei de "Água para Elefantes", mas achei um tanto decepcionante. Esperava bem mais do filme sendo que, ele apenas se revelou como um filme fazendo alusão aos grande clássios. Waltz está ótimo, mas Robert e Reese estão normais. Enfim, tem o seu charme, claro. Mas não é o melhor do ano.

Rafael W. disse...

Achei o filme muito bom, ora divertido, ora dramático, balanceia bem as duas coisas.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Unknown disse...

Ainda não assisti esse, vlw pela visita la no blog, apareça sempre! Vou linkar sua pagina para poder acompanhar seus textos. Abração!

Kamila disse...

"Água para Elefantes" é um filme tecnicamente perfeito. Se fosse uma obra de melhor qualidade, provavelmente figuraria em várias categorias do Oscar. Mas, não é o caso. Acho que o roteiro vai se desenvolvendo bem até chegar ao seu ato final, que é um tanto apressado no desenrolar dos acontecimentos.

Cristiano Contreiras disse...

Já eu acho um excelente filme, lindo e emocional, fiel ao livro. Bem poético. Pattinson convence sim, está bem, natural e é a sua melhor atuação até agora. Eu gosto da fotografia e figurino, direção de arte também pontuais. Merecia ser mais valorizado. abs