8 de abr de 2012

Estranho Encontro

A meu convite, o Celo Silva, dono do Blog Espectador Voraz, vem ao Literatura e Cinema falar sobre um título nacional para o especial sobre o cinema brasileiro. O texto que segue foi originalmente publicado no blog Um Ano em 365 Filmes, outro sítio do convidado de hoje. Agradeço-o pelo aceite ao convite e espero que haja outros mais por vir.

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 Brasil, 1957, 92 minutos, drama. Diretor: Walter Hugo Khouri.

por Celo Silva

Segundo filme dirigido pelo saudoso e talentoso Walter Hugo Khouri, o fabuloso Estranho Encontro de 1958, marcou a transição das produções da lendária Companhia Cinematográfica Vera Cruz, aonde Khouri realizou seu primeiro filme, O Gigante de Pedra, para a então novata Brasil Filmes. Apesar da mudança de nome, pouco mudou, continuou-se a usar os estúdios, equipamentos e profissionais da extinta produtora. A Vera Cruz ficou conhecida pelo classicismo de suas produções e com esse filme em questão não é diferente. Khouri em inicio de carreira, remete seu trabalho a todo o glamour que o próprio cinema propunha ter nos anos 50. Essa tendência fica até evidente pela bela fotografia em preto e branco, a trilha sonora mágica de Gabriel Migliori e as atuações marcantes de todo o elenco, que não faria feio em filmes Hollywoodianos da época.

A história começa com o bon-vivant Marcos (Mario Sergio) encontrando a bela e perturbada  Julia (Andréa Bayard) em rota de fuga em uma estrada deserta no meio da noite. Marcos a leva para uma imponente propriedade em que pretendia passar o final de semana. Julia lhe conta a sua historia, em um genial flashback, que consiste no seu relacionamento doentio com Hugo (Luigi Pichi), um neurótico ex-combatente de guerra, que a mantinha como prisioneira, motivando assim a sua fuga. Logo percebemos que a atração entre Marcos e Julia é evidente, talvez até amor à primeira vista, mas sem duvida a figura frágil da moça fez com que aflorasse o lado mais protetor do homem. Nesse contexto, ainda temos o cínico caseiro (Sergio Hingst), mau-caráter e um tanto desconfiado, que começa a investigar os passos de Marcos. Por fim, para aumentar ainda mais a tensão, o que todos menos contavam é que a amante (Lola Brah) de Marcos, dona da propriedade, aparecia sem avisar.

A primeira atitude de Marcos é esconder Julia em uma casa de barcos dentro da propriedade. Dentro do bucólico casebre é que se desenrola boa parte da trama, aonde as juras de amor são feitas e aonde o suspense gira em torno da existência e descobrimento daquela bela e aparente desequilibrada moça, fazendo render um bocado de tensão. Mesmo ainda sendo um trabalho seminal na filmografia de Walter Hugo Khouri, percebe-se o seu estilo autoral se formando. Em Estranho Encontro já temos as mulheres difíceis e dominadoras que marcariam todo o trabalho de Khouri e a influencia (mesmo que tímida) do existencialismo de diretores marcantes como Ingmar Bergman e Luis Buñuel. Verdade também que nessa realização, assim como a sua anterior e a seguinte, percebe-se como nunca uma aproximação com o cinema americano dos anos 40 e 50. Afirmo isso pela narrativa clássica e personagens bem definidos, como o moçinho, a donzela, o vilão, a megera; características que não tardaram a serem deixadas de lado dos trabalhos mais arquetípicos  desse talentoso diretor.

Ainda é necessário ressaltar que Estranho Encontro é um filme repleto de cenas maravilhosas. Desde a inicial, passada na estrada, ao epílogo realizado em um bambuzal. A atriz Andréa Bayard ilumina a tela quando aparece, seu belo rosto nos faz lembrar as grandes divas do cinema. O galã Mario Sergio demonstra uma impressionante química com a moça, difícil não torcer pelos dois. O imponente casarão onde se passa toda a trama remete um tanto ao de Crepúsculo dos Deuses, reforçado ainda pela atuação de Lola Brah, que faz a amante madura de Marcos e carrega uma atuação à lá Gloria Swanson, claro que guardada as devidas proporções. Se esse maravilhoso filme tivesse sido realizado nos EUA, com certeza, seria tratado com muito carinho, com restaurações em DVD especial lotado de extras ou mesmo em Blu-Ray, sendo reverenciado por público e crítica. Pena que nosso país é conhecido por não ter memória e uma pequena Obra-Prima como essa acaba ficando esquecida e restrita a amantes do cinema. 

5 opiniões:

Kamila disse...

Conheço pouco do cinema brasileiro antigo. Acompanhei mais aquelas obras dos anos 80, da pornochanchada, e agora a retomada, mas adorei o texto do Celo. Me deixou curiosa para conferir este filme, que eu não conhecia ainda.

Celo Silva disse...

Grande Luís, meu camarada, eu que agradeço pelo convite! Falar de Walter Hugo Khouri é sempre um prazer para mim. Do que precisar, estamos ai!

Grande Abraço!

Adecio Moreira Jr. disse...

Uia. Daí já se percebe como guest posts podem ser interessantes.

Thiago Silva disse...

Andréa Bayard, saudosíssima. Belo texto do Celo. E que bom saber que existem pessoas que se importam com o antigo cinema brasileiro num lugar em que muitos gostam de falar mal até mesmo do recente. Parabéns!

J. BRUNO disse...

Ainda não o vi e tenho que confessar que não conheço nada da filmografia do diretor...