16 de abr de 2012

Lúcio Flávio - o Passageiro da Agonia


Brasil, 1977, 120 minutos, drama. Diretor: Hector Babenco.
Trata-se de uma obra que se volta mais para quem é fã do que para quem simplesmente gosta de cinema.

Lúcio Flávio, nascido em 1944 no Rio de Janeiro e tendo se tornado um nome nacionalmente conhecido durante os anos iniciais da ditadura militar, é um criminoso cuja história se associa diretamente ao um período histórico do nosso país, mas de quem pouco se ouve falar. Particularmente, eu havia ouvido falar sobre o livro que deu origem ao filme, mas não sabia exatamente as proporções da fama do sujeito nem a sua relevância. Morto aos 31 anos, no ano de 1975 numa prisão, sem grandes apurações quanto ao seu assassinato, a figura de Lúcio fica registrada no livro “Lúcio Flávio – o Passageiro da Agonia”, de José Loureizo, concebido apenas um ano após a morte do rapaz, e, por fim, o filme homônimo cujo roteiro se baseou no livro.

Tantas são as figuras inseridas no universo da ditadura e talvez nós estejamos bastante a par de muitas figuras importantes que ajudaram a combater a ditadura, tenso sido, em qualquer momento, vítimas diretas do sistema governamental. Basta que nos lembremos de dois filmes recentes, “Zuzu Angel” e “Batismo de Sangue”, respectivamente de 2006 e 2007, retratam personagens que sofreram as opressões da ditadura: no primeiro, uma mulher, a personagem-título Zuzu, mãe de um rapaz que sumiu devido aos seus envolvimentos políticos contrário ao governo vigente, luta para conseguir notícias acerca do filho; no segundo, freis franciscanos são punidos por apoiar às causas estudantis contra o governo. Curiosamente, são pessoas que estão conforme à lei, oprimidos pelo sistema – Lúcio Flávio, por sua vez, é um fora-da-lei, um homem que não se detém pelas noções de ordem, que não ouve instruções, que não ouve a polícia, que não respeita os cidadãos ou seus direitos, mas notadamente se coloca contra o sistema vigente, visando tirar mais dele do que de qualquer outro cidadão.


Curioso notar que mesmo outros bandidos respeitam Lúcio. O rapaz burguês cuja família foi assassinada é uma criatura influente em qualquer ambiente: os policiais o teme, porque ele não mede esforços para conseguir o que quer; os bandidos o temem, porque ele se encontra protegido por inúmeros outros bandidos, já que ele é bastante habilidoso para crimes mirabolantes. Os bancos o temem – ele sempre os rouba; a delegacia não quer dizer nada pra ele – ele sempre foge. Assim, sua figura pouco a pouco se cristaliza como um homem com que se preocupar. Não sei como é no livro, mas o roteiro deixa bastante clara a postura de Lúcio em relação aos seus comparsas e o modo eficiente com o qual lida com problemas, mesmo que eles demandem atenção prescritiva.

Considerando a personagem e a sua força, parece que a interpretação de Reginaldo Faria é pouca. Aliás, qualquer personagem é pouco perto da narrativa que notadamente favorece uma única personagem, que não apenas é a central como também e a única verdadeiramente interessante. Acompanhar Lúcio é interessante, mas ver as subtramas não nos soam emocionantes o suficiente a ponto de que verdadeiramente nos sintamos cativados e motivados a acompanhá-las com atenção. Não quero, porém, criticar a direção de Hector Babenco, como se ela fosse incabível à trama – o problema talvez esteja no roteiro, que singulariza Lúcio de tal modo que soa inclusive incomum vê-lo interagindo com qualquer outra pessoa. O personagem ganha tom heróico demais para alguém comum, mesmo que, AM sua maneira, díspar da sociedade ordinária que caminha inquestionada. Se Reginaldo Faria, o protagonista, some em seu personagem, sendo esse mais interessante que aquele, parece evidente que o mesmo acontece com outros atores – e é verdade. 

Acredito que a obra seja fundamental àqueles que realmente visam maior conhecimento de um assunto específico – seja os agentes sociais mais ativos do período ditatorial, seja o personagem desse filme. De um modo abrangente, ainda que satisfatório, não é um filme que atraia a atenção ou que mantenha a atenção do espectador fixa, a não ser, como disse, se o espectador realmente estiver assistindo a fim de aprender mais sobre o sujeito-objeto desse filme. Penso que seja mais válido conhecer com caráter educativo e de pesquisa a conhecer a obra por entretenimento.

2 opiniões:

Hugo disse...

Gosto muito deste filme, mostra que o cinema brasileiro poderia explorar melhor o gênero drama policial, o que acabou acontecendo apenas nos últimos anos.

Com certeza é o grande papel de Reginaldo Faria no cinema.

Abraço

Celo Silva disse...

Particulamente eu gosto muito desse filme, acho um dos melhores do cinema nacional e apesar de datado, ainda reflete muito do Brasil. Otima resenha, apesar de achar que o filme é bom entretenimento.

Abs!