10 de abr de 2012

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Brasil, 1964, 118 minutos, drama. Diretor: Glauber Rocha.
Uma obra de grande valor histórico para o cinema nacional – a meu ver, seu valor é mesmo, sobretudo, histórico.

Essa obra de Glauber Rocha – bem como o próprio diretor – são elementos importantes na história do cinema nacional, principalmente pelo fato de que eles – diretor e filme – de certo modo reviveram algo muito latente e pouco explícito no cinema. O cinema novo, movimento artístico que visava se afastar do histórico cinematográfico nacional de produção de filmes de grande orçamento, apresentou títulos que realmente modificaram bastante a estrutura proposta pelo estúdio Vera Cruz: os filmes eram bastantes simples, quase caseiros, no entanto, as idéias eram levadas a sério – uma câmera na mão e uma idéia na cabeça e assim surgiu títulos como “Rio, 40 Graus” (1955), “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), entre outros que marcariam essa nova fase do cinema.

A história tem início com uma breve visão da situação dos personagens. Manoel e Rosa vivem no sertão e têm uma vida bastante difícil, moendo eles mesmo os grão que plantam e trabalhando para seu próprio sustento e para lucro do fazendeiro que lhes concedeu espaço onde ficar. Com a morte de algumas vacas que seriam entregues ao coronel, este ameaça tomar o resto do rebanho de Manoel, que acaba por matar o homem, sendo obrigado a fugir junto com a esposa. A conseqüência disso é uma peregrinação sem rumo que os leva às figuras de Sebastião, um missionário negro que sai a apregoar as palavras do Senhor, e de Antônio das Mortes, um assassino contratado para matar o grupo que segue o missionário.

 Sebastião conduzindo o povo rumo à justiça.

Indubitável que o filme, pelo menos esteticamente, se afasta das produções da Vera Cruz, e, na sua vertente social, se afasta igualmente das produções de chanchadas, que visavam muito mais apenas o riso do que uma contextualização social severa e absurdamente crítica como é o caso dessa obra de Glauber Rocha. Basta notar o tom crítico sutil presente em toda a narrativa. Gostei especialmente do modo como as relações entre os grupos são observadas: a classe aristocrática se revolta com as “procissões justiceiras” de Sebastião e manda matá-lo; dentro do próprio grupo, Rosa se choca ao ver o homem cego pela fé e ela mesma o mata, abrindo assim novo percurso para discussões. Pouco a pouco, os personagens entram em conflitos cada vez maiores, principalmente porque eles não são capazes de se entender, independentemente de estarem numa mesma situação ou não.

Gosto especial do modo como a sociedade crente é retratada. A questão latifundiária se torna acobertada pela fé e as pessoas saem a chacinar a mando de Deus, quando, na verdade, estão a fazê-lo a mando de um homem que visa a redistribuição de renda e de terra. Uma belíssima proposição narrativa para ilustrar a frase “os fins justificam os meios”. Também há no filme uma questão imagética e simbólica bastante forte das relações dos personagens: Manoel mata por raiva o coronel que lhe roubava e se agrega ao grupo de Sebastião, acreditando ser certo matar sob as alegações do homem santo, mas não é capaz de matar quando se torna Satanás, um cangaceiro do grupo de Corisco, que sai a aprisionar pessoas e lhe tomar alguns bens. A idéia da moralização se vê bastante nítida aqui bem como as questões simbólicas da atração de duas mulheres, Rosa (esposa de Manoel) e uma do bando de Corisco.

Honestamente, não acho o filme interessante e está longe de ser um dos meus favoritos. Sua função importante, para mim, é mesmo a sua participação histórica no desenvolvimento do cinema nacional. Vale a pena conferi-lo para conhecer essas características, mas realmente não foi um grande entretenimento para mim, ainda que eu lhe reconheça bastantes qualidades.

3 opiniões:

J. BRUNO disse...

Eu acho o filme perfeito, ele e "Terra em Transe" estão para mim entre os 10 melhores filmes nacionais de todos os tempos. Tudo no filme é soberbo desde a linguagem desconstrutivista à trilha sonora... penso que o cinema brasileiro de hoje careça um pouca do espírito combativo que Glauber tinha, ele era autoral, seus filmes eram altamente pessoais e ideológicos e ele sabia perfeitamente o que estava fazendo... Ao meu ver seu nome deve estar posto no mesmo patamar dos maiores gênios da sétima arte!

O Narrador Subjectivo disse...

Tenho de ver este filme. Sei que é um clássico do cinema brasileiro, um país que me agrada bastante. Cumprimentos

Pedro Cavalcante disse...

Acho o filme péssimo e malfeito, "Deus e o Diabo" e "Terra em Transe"são filmes supervalorizados e pseudocultos. Malfeitos tecnicamente (filmagem, cenários, atuações péssimas) e em sua contrução, a história é maldesenvolvida e o filme é essencialmente... chato!