5 de abr de 2012

Oscar 2012 - Melhor Filme


 
Nessa categoria, se destacam os filmes que não tiveram bons rendimentos em aspectos individuais, mas sim, que se destacaram no geral trazendo ao público uma obra completa. O grande vencedor da 84º edição foi 'O Artista' e é interessante observar que, desde 'Asas' (1929) um filme mudo não ganhava o premio de Melhor Filme, além do fato do filme francês ser o primeiro longa de língua não-inglesa a ganhar a estatueta nos 84 anos de cerimônia. Hugo, filme de Martin Scorsese, lidera o grupo dos nominados a Melhor Filme com 11 indicações, estando em quantidade a apenas uma indicação a frente do vencedor da noite, The Artist, de Michel Hazanavicius. Moneyball e War Horse, respectivamente de Bennet Miller e Steven Spielberg, seguem com seis indicações cada. Ainda que Millenium – The Girl with the Dragon Tattoo tenha conquistado 5 indicações, a Academia optou por outros títulos para ocupar as vagas remanescentes na categoria principal: assim, também com 5 indicações, entrou para a lista The Descendants; com 4 indicações, entraram The Help e Midnight in Paris; com apenas 3 indicações, The Tree of Life conquistou seu espaço e, surpreendentemente, Extremely Loud and Incredibly Close também foi indicado à categoria de Melhor Filme, trazendo consigo apenas mais uma indicação (para Max Von Sydow, como Melhor Ator Coadjuvante), mostrando que a Academia, ainda que não tenha indicado Stephen Daldry ao prêmio de direção, nutre por ele bastante afeto a ponto de colocar seu filme num status que definitivamente não lhe cabe. Acredito que, reduzida a lista ao antigo formato – ou seja, cinco nominados –, ela seria composta por “O Artista”, “A Árvore da Vida”, “A Invenção de Hugo Cabret”, “Meia-noite em Paris” e “Os Descendentes”, ficando de fora os outros filmes que, de um modo geral, estão também listados aqui devido a um aspecto forte, como o elenco de “Histórias Cruzadas”, o queridismo por Stephen Daldry e, ainda, a boa execução que Bennet Miller dá a seu filme.

O Artista
A obra escrita e dirigida por Michel Hazanavicius chocou alguns e encantou outros: a obra saudosista remetia a época já distantes, quando o cinema era mudo e a imagem não era colorida. George Valentin e Peppy Miller, um astro já consagrado e uma estrela em ascensão protagonizam a trama, que aborda a decadência do cinema mudo e as conseqüências da vinda do cinema falado e dos intérpretes capazes de se adaptar a essa nova forma de arte.Com dois atores simpaticíssimos, uma trilha sonora encantadora, um trabalho de edição fantástico e, sobretudo, muito carisma, um história simples se torna uma narrativa memorável e digna de atenção, que nos mostra que a arte é atemporal: mesmo que moldada conforme a década de 1920, essa produção franco-belga é atualíssima e seu plano de expressão bem como seu plano de conteúdo são indiscutivelmente satisfatórios.

A Árvore da Vida
O filme de Terrence Malick é, sem sombras de dúvida, o mais pedante dentre os indicados e ele está no grupo dos filmes que anualmente são indicados pelo fato de que têm uma estrutura rebuscada, aspectos pós-modernos que apenas tangem a compreensão, sem jamais trespassá-la. Obras desse calibre agradam o público, que, ante cenas de sentindo não restritamente intrínseco à trama, se sente mais inteligente – é sempre bonito gostar de obras que são um emaranhado de idéias e sensações. Assim, a relação pai-filho, embora difícil de ser trabalhada dada a sua grandiosidade, aqui ganha proporções bem maiores e se aproxima de um universo intrincado de situações-problema que existem hoje, mas que atravessaram todo o período de vida na Terra (indo, inclusive, além dela). Decerto é a obra com a melhor fotografia, mas, em contrapartida, a mais pseudo-inovadora.

Cavalo de Guerra
Já ouvi diversas críticas sobre o filme que, no geral, caracterizavam-no como uma “história barata sem fundamentação”. Penso que é papel do cinema trazer discussões sobre algo, mas ainda acho que a pedra fundamental do mesmo é entreter, e nesse quesito, o filme de Spielberg é certeiro. Ao longo da trama, percebemos que o longa não se propõe a contar a história de um cavalo e de seu dono, mas sim, da trajetória épica do cavalo. Considero a abordagem muito boa, focada no enredo muito interessante que, juntamente com outros elementos técnicos (trilha sonora, figurino e as locações usadas, por exemplo), tornam as mais de duas horas do filme extremamente fáceis e prazerosas de se assistir.

Os Descendentes
Considero “Os Descendentes” um filme bem complicado de se avaliar, pois ainda não sei se gostei dele ou não. Ao mesmo tempo que, artisticamente, o filme é muito interessante - onde se pode citar as magníficas atuações de George Clooney e de Shailene Woodley - tive a impressão de assistir a um filme de quatro horas, dado ao ritmo lento e cansativo da narrativa que foi utilizado. Um pai que tem que lidar com sua mulher em coma, com a descoberta de uma traição da mesma anos atrás, com a relação delicada com os filhos e com a herança da família me parece muito material muito rico, mas que acaba se perdendo no desenvolvimento lento supracitado. De maneira geral, considero 'Os Descendentes' um filme bom, que tinha como ser melhor.

Histórias Cruzadas
Começo falando desse com a minha opinião de forma clara e aberta: gostei muito do filme. Apesar de saber que - excluindo a personagem interpretada por Emma Stone, que age para bem próprio - todo o enredo é escrito de forma maniqueísta e que os personagens, por vezes, são caricatos, volto ao mesmo ponto de “Cavalo de Guerra”: o entretenimento. Me parece difícil encontrar, hoje em dia, filmes que te façam emocionar e te sensibilizem ao ponto de sermos capazes de deixar o lado racional de lado e nos entregarmos ao sentimentalismo puro. “Histórias Cruzadas” faz exatamente isso. Durante todo o longa, somos apresentados a um enredo bom (e por vezes apelativo, concordo) com atuações boas inseridos em um filme que merecia ser indicado.

O Homem que Mudou o Jogo
Filmes sobre esportes, por vezes, pendem para um aspecto emocional muito viral: aquele semelhante a quando um grupo se reúne para assistir a um jogo de futebol. Outra vezes, o esporte, apesar de seu caráter social, ganha proporções mais ontológicas e individualistas, como é o caso de “Menina de Ouro” (2004) e essa obra, na qual Brad Pitt interpreta Billy Beane, um ex-jogador fracassado de beisebol que agora é treinador de uma equipe que, ironicamente, é extremamente fracassada. Seus novos métodos e sua perseverança colocam-no ante muitos problemas, mas também o põem diante da possibilidade de qualidade técnica e reconhecimento profissional. Ainda que transcorra lenta, a trama se desenvolve de modo interessante, permitindo que acompanhemos a vida das personagens e que nos sintamos minimamente próximos delas, de modo que a história deixe de ser unilateral, como alguns filmes dessa lista são.

A Invenção de Hugo Cabret
É interessante observar a volta ao passado que o Oscar 2012 fez. Dentre os filmes, os dois com mais indicações - e com maior chance de ganhar o maior premio da noite - estavam dois longas que se propuseram a contar histórias sobre períodos marcantes do cinema. Em “A invenção de Hugo Cabret” somos levados ao início do cinema de uma forma didática e, pode-se dizer, mágica. Nele o espectador se vê de frente com histórias sobre os irmãos Lumière e Charles Melier, ícones do cinema francês, sendo este o país natal da sétima arte. A direção de Scorsese é pontual e as atuação – destaque aqui para a atuação mirim de Asa Butterfield – são muito satisfatórias. O elogiado uso do 3D aqui, também se contrapõe: o início “rudimentar” e a mais atual tecnologia andando de mãos juntas, proporcionando ao público uma aula de como fazer um bom filme. Se o também francês “O Artista” não estivesse no páreo, sem dúvida nenhuma esse filme sairia vencedor da noite.

Meia-noite em Paris
Woody Allen é um diretor sempre muito querido por todos, não importa se seus filmes sejam bons nem importa se eles sejam de fato perspicazes: inevitavelmente atribuirão essa qualidade a qualquer filme que ele dirija. Assim, bastou colocar inúmeros nomes relacionados às mais diversas formas de arte na cidade de Paris e fazer com que Owen Wilson não soe tão irritante e pronto – conseguiu inúmeras indicações e mais reconhecimento. A trama gira em torno de um jovem que vai com a esposa a Paris e descobre eventualmente que à meia-noite se abre um “portal” que o leva a outra época, num período histórico-cultural de extrema relevância para o universo artístico e, desse modo, tem contato com muitos artistas, como Zelda e Scott Fitzgerald, Salvador Dali, Ernest Hemingway e Gertrude Stein, além de se apaixonar por Adrianna, amante de Picasso. O segundo filme mais pedante dessa lista, já que todos esses nomes e alusões servem apenas para enfeitar uma história bonitinha vendida por aí com o epíteto de “romance de humor refinado”.

Tão Forte e Tão Perto
O quarto filme de Stephen Daldry, curiosamente antes nominado como Melhor Diretor pelos três filmes que dirigiu, conquistou somente duas indicações; e esta, de Melhor Filme, somente se deve ao carinho que a Academia tem pelo diretor britânico, que, apesar de filme, detém um portfólio invejável de trabalhos. O jovem Oskar, depois de perder o pai no ataque terrorista em 11 de setembro de 2001, sai às ruas à procura de um objeto que possa ser aberto por uma chave que ele encontrou – o garoto acredita que, encontrando o conteúdo “perdido”, estará mais próximo do pai. A trama é bastante longa e monótona, apesar do seu ritmo dinâmico – o que é uma verdadeira contradição a ser observada com atenção. Apesar do empenho do diretor, trata-se do filme mais fraco dentre os indicados nessa categoria e inevitavelmente temos a impressão de que a indicação se trata apenas de bajulação, já que essa película dificilmente chamaria a atenção para outra qualidade que não a interpretação de Max Von Sydow, responsável pela segunda indicação que o filme recebeu.

 CONCLUSÕES:

Luís
Concordo com a Academia: sim.
Quem deveria ter vencido: “O Artista”. Para mim, trata-se do filme mais carismático desse ano e, não bastasse a simpatia do filme, há ainda as qualidades técnicas que surpreendem, como a excelente trilha sonora, a edição que evidentemente o torna ágil, sem falar das excelentes interpretações dos atores. Não fosse esse filme a vencer, o meu segundo favorito era “Cavalo de Guerra”.

1 opiniões:

Júlio Pereira disse...

Achei O Artista um filme bom. Nada mais. Ele se sabota em inúmeros momentos e no fim das contas é extremamente moderno - embora engane muitos se passando por um filme de velha guarda. Hugo, do Scorsese, é decerto o mais emocionante e me arrancou lágrimas durante toda sua projeção, pela homenagem ao primeiro cineasta de todos os tempos (os irmãos Lumière são muito mais cientistas e espertos do que propriamente cineastas). Dum contemporâneo do Scorsese, o Cavalo de Guerra achei uma babaquice tremenda, o ápice da apelação do Spielberg, com uma narrativa frágil - ainda sim, tem suas qualidades, ainda que poucas. Acho Meia-Noite em Paris muito mais do que você citou. É uma discussão sobre a vida eterna no passado, a idealização de uma época que você não viveu. Dessa forma, o roteiro do Allen é muito mais complexo que parece (sou fã dele, mas sei reconhecer quando erra, como no seu último, "Você Vai Conhecer..."... Errou feio, aliás!). Os Descendentes é uma obra minimalista e necessária no século XXI, ao contrário de você, achei que passou bem rápido (e Clooney está brilhante). O perigoso Histórias Cruzadas me desperta o ódio por sua filosofia errada, que reforça esteriótipos, e, em certos pontos, chega a ser racista em sua abordagem. Achei Moneyball extremamente subestimado (dei 5 estrelas), é um filme que possui um cuidado tão grande com seus personagens, dota de um roteiro inteligente e eficiente; além disso, a cena final é inesquecível. (Recomendo ainda dois textos que, pra mim, fazem jus ao filme: o do Caetano Barsoteli, no Lumi7, e o do Roger Ebert). Por último, meu favorito: A Árvore da Vida. Pra mim, uma gama de sensações incríveis, somados à um elenco competente, com o melhor roteiro do ano, e, certamente, a melhor direção (ao lado do Scorsa). Terrence Malick não tenta inovar - mesmo porque, utiliza a mesma estrutura narrativa em filmes anteriores -, mas é o jeitão dele. Mas o que o filme guarda não cabe num breve comentário... Abraços!