12 de abr de 2012

A Falecida

Brasil, 1965, 94 minutos, drama. Diretor: Leon Hirszman.
Uma obra que retrata com eficiência o universo de Nelson Rodrigues numa obra perturbadora, seja pela morbidez da protagonista ou pela interpretação monstra de Fernanda Montenegro.

Duas características chamam a atenção acerca desse filme. A primeira delas é que a narrativa é baseada numa obra de Nelson Rodrigues, dramaturgo realista responsável por grandes títulos na literatura nacional, e Fernanda Montenegro, uma das atrizes mais consagradas do Brasil, que estava em seu primeiro filme. A união desses dois nomes relevantes poderia render um excelente filme e, de certo modo, pode-se dizer que foi isso mesmo que aconteceu.

A atriz interpreta uma mulher que um dia se assume doente: dores nas costas, tosses ininterruptas, cansaço em demasia. Associando ao que uma cartomante lhe diz – “tome cuidado com uma mulher loura” –, ela começa a suspeitar que uma prima sua, Glorinha, lhe lançou feitiço e que ela está prestes a morrer. Assim, sua morbidez, um misto de querer morrer e de querer se mostrar majestosa à prima, resulta numa série de perturbações, seja a si própria ou ao marido, que assiste passional a loucura da esposa.


Talvez a primeira coisa que mais chame a atenção no espectador seja o modo espontâneo com a qual os atores agem ao longo de todo o filme. Fernanda Montenegro realmente conduz com máxima segurança sua personagem, nos fazendo acompanhar cada momento de seus devaneios, que vão desde o pensamento que a prima está a lhe fazer macumba até a tentativa de se converter ao protestantismo para ser como a prima. E a personagem Glorinha, apesar de aparecer rapidamente numa das cenas finais, é uma figura extremamente importante ao desenvolvimento da trama, principalmente porque ela é um contraponto essencial na narrativa, já que ela direta e indiretamente perturba a vida de todos os outros personagens.

Podemos perceber claramente as características rodrigueanas da narrativa, principalmente pelo modo tortuoso como a moral é apresentada. As personagens, cada uma a seu modo, se vêem em paradoxos ante a moral: Zulmira, por exemplo, se coloca como mulher respeitável, se negando a ir à praia para não ter que ficar apenas de maiô, pois assim se considera praticamente nua; no entanto, seu discurso trespassa a “imoralidade” quando ela fica atiçando o marido para que ele se deite com Glorinha, numa aparente tentativa de fazê-lo experimentar de ambas a fim de compará-las. Também a vemos percorrer as ruas com sorriso bobo no rosto, de quase flerte às vezes. Gostei principalmente do modo como Fernanda Montenegro conseguiu dar vida à sua personagem ministrando com precisão cada sentimento – ora ela se via alucinada pelos seus pensamentos enciumados, ora ela se entregava à autopiedade, ora à crítica ferrenha ao comportamento do marido.

Acredito que o charme do filme se deva mais ao enredo do que à direção ou ao elenco, mas é inegável que todos os atores fizeram algo impressionante. Numa obra que percorre vários sentimentos e sensações, passando pelas eternas críticas de Nélson Rodrigues às instituições do casamento, da igreja, da moralidade, a obra se sustenta como entretenimento pela sua narrativa bem trabalhada pelo roteiro escrito por Eduardo Coutinho e Leon Hirszman, o diretor. Acompanhar o desenvolver da história é um prazer, principalmente ao vermos o modo irônico com o qual ela termina. Assistir a atuação de Fernanda Montenegro é outro prazer, este maior que aquele, com certeza.

2 opiniões:

Celo Silva disse...

Cara, sou fã de Nelson Rodrigues, mas não vi esse filme. Preciso ver, indico dele tb, Beijo no Asfalto, Toda nudez será castigada e Boca de Ouro.

Abração!

Rodrigo Mendes disse...

Curtindo as sessões cinema nacional Luís. Ainda não assisti este da Montenegro (a cara da filha nesta fotografia e a filha certamente terá a face da mãe na terceira idade).
Do Hirszman só conferi mesmo "Eles Não Usam Black-Tie", um clássico do CN, sem dúvida. Vai postar?

Nelson Rodrigues dispensa comentários...

Ótimo texto. Fiquei curioso.

Abs.