1 de abr de 2012

Oscar 2012 - Melhor Roteiro Original



A categoria de Melhor Roteiro Original – como o próprio nome diz – é entregue ao melhor enredo que não é baseado em nenhum material que seja de conhecimento público, seja  ele livros, peças teatrais entre outros. A importância dessa categoria se dá no fato de premiar as mentes mais criativas do mundo, aquelas que constroem a base sólida para que um filme possa ser desenvolvido. Tudo isso se torna mais importante no quesito reconhecimento tendo em vista o grande número de adaptações que a indústria cinematográfica lança atualmente. Cabe ainda apontar que o único representante dessa lista a já ter competido ao Oscar é Woody Allen – que, aliás, já concorreu nessa mesma categoria outras 14 vezes –, e que em 2012 foi o responsável pelo aclamado “Meia-noite em Paris”, filme que rendeu milhões nas bilheterias. Cinco plots básicos compõem a lista dos indicados: um drama político sobre a crise econômica experienciada em 2008; os problemas advindos de um casamento e de cinco mulheres bastante temperamentais; um casal iraniano e suas dificuldades com sua cultura; a ascensão do cinema falado e o impacto dessa nova cultura nos artistas do momento; e, por fim, o vencedor, um romance que transita entre a Paris atual e a Paris dos anos 1920, berço de novas propostas artístico-culturais.

Annie Mumolo e Kistren Wiig, por “Missão Madrinha De Casamento”
Bridesmmaids foi a prima pobre desta categoria. O roteiro, apesar de divertido e realmente engraçado em certas partes (algo difícil tomando, por exemplo, as comédias atuais), é fraco considerando-o todo. O grupo de personagens principais talvez seja o ponto alto do filme, uma vez que o enredo da história propriamente dito não tenha nada de realmente encantador. As cinco conhecidas se unem pelo casamento de uma amiga em comum, mas o que chama a atenção mesmo são as diferenças que ocorrem entre elas em quase todos os quesitos, seja ele financeiro, social ou afetivo. Essas diferenças são o que as tornam simpáticas e nos fazem assistir ao filme sem sofrimento e nos trazem diversão. Adendo: a cena do avião é ótima! (por Renan)

 Ashgar Farhadi, por “A Separação”
O premiado pela Academia pode ter sido Midnight in Paris, mas o meu vencedor é esse filme iraniano.  O roteiro é fantástico! Ashgar Farhadi consegue conceber todo um núcleo livre de maniqueísmo, construindo assim personagens verossímeis que fazem com que o espectador  simpatizem pela grande maioria destes, justamente pelo caráter humano que eles passam. O enredo em que se ambienta a história também é excelente. Todos os fatos são interligados criando um cenário em que, a meu ver, é impossível a quem assista essa obra prima sentir indiferença em relação a ela. (por Renan)

 J. C. Chandor, por “Margin Call – O Dia Antes Do Fim”
J. C. Chandor conseguiu com extrema eficiência mostrar o universo dos negócios e explorou com sabedoria e coerência o capitalismo. Colocou-nos num momento singular, não apenas de conhecimento – tomamos ciência, afinal, dos bastidores dos grandes negociadores –, mas também de apreensão: inevitável não acompanhar o filme sem se sentir atemorizado pelo que acontecerá quando, por fim, os números financeiros, cada vez maiores, obrigarem a uma redução brusca do número de pessoas empregadas. A grande crise economia acontecida em 2008 é registrado aqui e nós acompanhamos o seu desenrolar, esperançosos para que, pelo menos na ficção, ela termine um pouco melhor – o que, em respeito aos fatos, felizmente não acontece. Um roteiro que explora fascinantemente não apenas a economia, mas também a política, apresentando um cenário bastante influente para o mundo. (por Luís)

 Michel Hazanavicius, por “O Artista”
“Uma embalagem ousada, um conteúdo convencional” – as palavras não são minhas tampouco concordo com todo o conjunto de informações presente nelas. Apenas concordo com a primeira parte e acho que “ousado” representa bem esse trabalho escrito por Hazanavicius, cujo corpo é quase restrito às imagens, já que se trata de um filme predominantemente mudo. São as imagens e as situações que nos permitem conhecer a rotina dos personagens, as suas ambições, as suas personalidades – se vemos Peppy toda carinhosa, decerto não se deve à sua entonação, já que em nenhum momento ouvimos sua voz; se sabemos que George é um bonachão simpaticíssimo, isso também se deve às imagens. O roteirista soube bem como trabalhar a conexão entre as cenas e como organizá-las de modo a tornar esse filme não apenas ousado, mas também uma obra-prima singela. (por Luís)

 Woody Allen, por “Meia-noite em Paris”
Talvez o roteiro desse filme seja, dentre os indicados, o mais “sociológico”: ele aborda todo um período histórico-cultural de mudanças nas estéticas artísticas, de transições político-econômicas, de integração étnica, além de situar dois personagens bastante simpáticos numa das cidades mais bonitas do mundo e, como se não bastasse, vivendo inúmeras experiências com grandes nomes das artes numa historie d’amour. Woody Allen dá a seu personagem principal a oportunidade de se transportar, à meia-noite, para a Paris da década de 1920, e, assim, se aventurar não apenas num tempo diferente ao seu tempo natural como numa sociedade de pensamentos bastante diversos. Ainda que o roteiro pareça interessantíssimo, trata-se de uma propaganda de Paris num enredo parcamente desenolvido feito para pegar bobos que vêem grandes nomes da cultura mundial e realmente acreditam que isso dá ao filme algum valor a mais. (por Luís)

CONCLUSÕES:

Renan
Concorda com a Academia: não.
Quem deveria ter vencido: Ashgar Farhadi, por “A Separação”. Apesar de gostar do roteiro de “Meia Noite em Paris”, Asghar traz ao espectador uma obra incrível com personagens e enredo brilhantemente desenhados e desenvolvidos. Sem dúvida nenhuma, o filme iraniano deveria ter saído com os dois prêmios aos quais foi indicado no Oscar 2012.

Luís
Concorda com a Academia: não.
Quem deveria ter vencido: Ashgar Farhadi. O roteirista iraniano realmente conseguiu fazer um filme que impressiona, não apenas pelo seu conteúdo aos nossos olhos ocidentais, mas justamente pelo modo como cada elemento vai sendo introduzido na história. Diferentemente do filme vencedor, que tangencia cultura e usa isso como desculpa para se firmar como um filme bom, a obra iraniana apresenta, sem negligências, as problemáticas dos personagens com bases em suas expectativas particulares e também no meio em que estão inseridos. Sem dúvida, extremamente superior a Midnight in Paris.

2 opiniões:

Alan Raspante disse...

Eu ainda não vi "A Separação", portanto, acabei gostando de Woody ter saido como grande vencedor! rs

Júlio Pereira disse...

Disse aqui e repito: o roteiro do Allen é muito mais complexo que parece. Muito mais que uma mera comédia, ele debate a arte e a idealização do passado, impossibilitando a vida no presente. Além disso, evoca uma áurea mágica, que encanta e envolve o espectador. Ainda sim, o provável melhor roteiro seja mesmo, who knows, o de A Separação, que é brilhante, de fato. Acho bacana a iniciativa de indicar Missão Madrinha de Casamento, adoro a comédia e é um bom reconhecimento do gênero (ainda que não seja genial). O roteiro de O Artista é um estranho no ninho, devia sair daí, porque não tem absolutamente (friso: absolutamente) nada de mais. História pra lá de simples que emula vários outros filmes. E Margin Call é sensacional também. Impressionante como a crise é apenas pano de fundo para desenvolver seus personagens de forma tão zelosa e eficiente!