6 de jul. de 2012

A Vida É Bela


La Vita è Bella. Itália, 1998, 116 minutos, comédia. Diretor: Roberto Benigni.
Trata-se de uma obra cuja intenção é muito maior que o resultado obtido.

Existem momentos históricos que são de tal modo marcantes que não se pode deixá-los passar sem registro nas artes. E, decerto, a Segunda Guerra Mundial é um dos eventos mais importantes do século passado e, justamente por isso, adquiriu um status que outros acontecimentos não conquistaram: tornou-se uma estética artística – a estética da guerra. Não de guerras, como muitos filmes mostram, mas da guerra, de um período específico, que é justamente esse que mobilizou praticamente todas as potências mundiais e que dividiu o mundo entre os Aliados e o Eixo, resultando na dizimação de centenas de milhares de militares e na única vez em que uma arma nuclear foi usada em combate.


O drama da guerra que, afinal, a tornou mote para tantas películas, não se resume apenas ao período de 1939 a 1945, anos em que os conflitos bélicos são registrados como oficiais. Há o Holocausto – grafado com letra maiúscula mesmo, referindo-se à brutalidade à qual foram submetidas milhões de pessoas –, que foi um grande precursor da guerra e que salvaguarda um bom conteúdo para explanação, em parceria com a guerra em si e as conseqüências dela. Desse modo, pensar na Segunda Guerra Mundial implica também conhecer a figura de Adolf Hitler, conhecer a sua política de valorização da raça ariana e, ainda, as suas táticas de combate, eliminando todos aqueles que podem estar atrapalhando a sua tentativa de purificação da raça alemã – mesmo que essas que pessoas que atrapalhem nada façam, apenas sejam: judias, polonesas, não-católicas, ciganas, deficientes.

Roberto Benigni, que co-escreveu e dirigiu La Vita È Bella, nos diz que – como o próprio título sugere – a vida é bela, apesar de estar vivendo na Itália dos anos 1930, que vive o perigo iminente da ascensão nazista. Como um alegre livreiro, Guido, personagem de Benigni, vive uma série de desventuras para conseguir alvará para abrir sua livraria. Nas suas andanças, ele eventualmente encontra Dora, uma professora simples e já noiva por quem ele simpatiza e mais tarde se apaixona, resultando em momentos nos quais os dois passeiam e dividem momentos e, posteriormente, resultando em um casamento e em filho, o pequeno Giosué. Não faria sentido introduzir a guerra se não houver função para ela na história – e nessa trama italiana, o nazismo é de extrema importância, já que é ele que obrigará Guido e Giosué a se enclausurar num campo de concentração, local que se tornará cenário para uma aventura fabular, já que é assim que Guido faz com que Giosué veja aquele drama.


Curioso pensar na função desautomatizadora de um elemento. A guerra, tão trágica e desumanizadora, se torna uma brincadeira imensa nessa película. Não que essa inversão de valores – tornar o trágico cômico – seja algo inovador na obra de Benigni – John Boorman já havia criado algo particularmente interessante – aliás, mais interessante do que o que vemos aqui – quando compôs “Esperança e Glória” (1987), no qual vemos a Segunda Guerra pela perspectiva infantil: os tiros de canhões e as rajadas de fogo são como fogos de artifício, o estrondo das armas são elementos para uma brincadeira mais realista de polícia-e-ladrão. Mas Benigni mostra uma vertente cômica que se difere daquele que Boorman apresentou, sendo a versão bastante madura deste, apesar de se referir ao universo infantil: Benigni cria um personagem histriônico cuja vida se mostra histriônica e sempre – obrigatoriamente – engraçada. De certo modo, apesar de ser essa a intenção, esse exagero é o que distancia “A Vida É Bela” de uma verossimilhança mais palpável, tornando-a, portanto, mais agradável de ser vista. Até mesmo “A Bela e a Fera” (1991), cuja história tem a finalidade de ser aventurosamente romântica, traz uma personagem que, embora sonhadora, apresenta mais veracidade no seu modo enxergar o mundo.

O filme se distingue em dois atos bastante nítidos. No primeiro, vemos o desenvolvimento do relacionamento de Guido com Dora e todas as peripécias pelas quais o casal passa. Inclusive, ela, já noiva, é “seqüestrada” de sua festa de casamento por um Guido sentado num cavalo pintado de verde, pichado por vândalos nazistas que escreveram no animal que se trata aquele de um animal judeu – e Dora parte, montada no cavalo, à frente de Guido, deixando todos boquiabertos por causa de sua escolha. O segundo ato acontece quando pai e filho são levados ao campo de concentração e Dora, por sua escolha, os acompanha. É aí que começa a nova aventura fabular, na qual Guido tenta de todos os modos convencer seu filho de que tudo aquilo é uma grande brincadeira – um jogo de pontos, no qual os vencedores são aqueles com a maior pontuação. Desse ato, talvez o grande destaque seja uma das cenas finais, que é a purgação de Guido e a grande catarse da trama.


A meu ver, o filme tem seu bom momento na primeira parte, ainda que nem mesmo ela seja grandiosa. Mas pelo menos o humor é mais bem posicionado, é mais interessante acompanhar a trama. O tom divertido parece ajustado, ainda que, como disse, bastante exagerado. E é justamente tanto exagero que me impede de enxergar uma grande atuação por parte de Roberto Benigni, que é curiosamente apenas o segundo ator a ganhar um Oscar sob sua própria direção. Talvez o roteiro seja o mais agradável nessa obra; isto é, agradável se desconsiderarmos uma série de erros que se mostram perpétuos. O filme é, indubitavelmente, acomodado no impacto que a guerra provoca e no choque do espectador de ver um personagem feliz na guerra. Trostky, antes de ser assassinado, escreveu que, apesar de tudo, a vida é bela – e a apropriação que Benigni fez, sobretudo na cena final do filme, é bastante adequada. Talvez seja esse o grande mérito do filme.

4 de jul. de 2012

Julho: Cinema Italiano


Dando continuidade ao que fiz nos meses de abril e junho, nos quais comentei, respectivamente, filmes nacionais e filmes estrelados por Meryl Streep, o mês de julho será marcado pela Itália, país cujo indústria cinematográfica é dotada de nomes que são referências para o cinema, como Vittorio de Sica e Federico Fellini, dois grandes diretores que proporcionaram, respectivamente,  filmes como "Ladrões de Bicicleta" (1948) e "A Doce Vida" (1961).

Esse é um momento para que eu possa me aproximar mais do cinema produzido na Itália, já que o meu repertório inclui pouco conhecimento acerca do que se faz cinematograficamente nesse país. Com exceção de um ou outro filme, não há muitos títulos a que eu assisti e o pouco que sei sobre o cinema italiano se deve às minhas leituras, não às minhas experiências vendo e analisando obras. Espero que seja engrandecedor tanto para mim quanto para os leitores que me acompanharão ao longo do mês. Ao longo do mês serão apresentados os seguintes filmes:

1. Viagem à Itália (1954) - Roberto Rossellini
2. Rocco e Seus Irmãos (1960) - Luchino Visconti
3. Duas Mulheres (1960) - Vittorio de Sica
4. 8 e 1/2 (1963) - Federico Fellini
5. Teorema (1968) - Pier Paolo Passolini
6. Perfume de Mulher (1974) - Dino Risi
7. Pasqualino Sete Belezas (1975) - Lina Wertmüller
8. Salò ou 120 Dias de Sodoma (1975) - Pier Paolo Passolini
9. Olhos Negros (1987) - Nikita Mikhalkov
10. Cinema Paradiso (1988) - Giuseppe Tornatore
11. O Carteiro e o Poeta (1994) - Michael Redford
12. A Vida É Bela (1998) - Roberto Benigni

2 de jul. de 2012

TOP 10 - Meryl Streep


Finalizando o mês de junho, no qual fiz um breve panorama das interpretações de Meryl Streep, apresentando as suas dezessete indicações ao Oscar e resenhando onze de seus filmes, encerro esse especial com um TOP 10 com as interpretações mais interessantes da atriz. Sem delongas, vamos ao que interessa:

10ª posição – A Escolha de Sofia (1982)
Uma interpretação que, com certeza, acaba impulsionada pelo filme. Não que a interpretação seja ruim, longe disso – se fosse, afinal, não estaria nessa lista. Mas penso que boa parte da grandeza de Meryl também advenha do filme e do seu conteúdo, que contém momentos bastante tensos. Decerto não é a minha personagem preferida, mas, ainda assim, é uma atuação que estarrece o espectador.

9ª posição – As Horas (2002)
Ela não foi nominada por esse filme, mas foi por “Adaptação”, do mesmo ano. A personagem Clarissa Vaugham é verdadeiramente uma das pequenas pérolas de Meryl. O filme de Daldry favorece notadamente a atriz, cujo espaço em cena lhe permite rir e chorar, nos apresentando uma face completa de sua interpretação. Para mim, os seus ápices acontecem em presença de Ed Harris, fabuloso aqui.

8ª posição – Amor à Primeira Vista (1984)
Meryl e Robert De Niro se juntaram mais uma vez no romance Falling in Love, cujo título alude exatamente à história dos personagens: apaixonando-se num processo contínuo. Grande interpretação da atriz, cuja simpatia se faz presente a cada momento em que ri. E acho que é justamente isso que me cativa nessa interpretação: o sorriso de Meryl Streep. É ele, simples e verdadeiro, que a coloca aqui, na oitava posição.

7ª posição – Kramer vs. Kramer (1979)
É a sua cena no tribunal e o seu último momento nesse longa-metragem que lhe garantiram lugar no TOP 10. É inegável que esse é um dos momentos mais notáveis da jovem atriz, à época com 30 anos, cuja personagem se mostrava confusa ao longo de toda a obra. O espectador também ficou – mas em nenhum momento antipatizou com Joana Kramer, mesmo que ela fosse uma perturbação na vida de Ted Kramer. Para mim, o filme é o embate entre Ted e Joana no tribunal – justamente por causa da interpretação de Meryl.

6ª posição – Dúvida (2008)
Não saberia como reagiria se eu fosse o Padre Flynn! Não é à toa que ele desistiu de lecionar na escola St. Nicholas – a freira Aloysius fez de sua vida um inverno acreditando que ele cometeu um crime que somente ele sabe se cometeu ou não. Honestamente, essa é a figura mais medonha que Meryl já interpretou, justamente por sua postura extremamente rígida e inflexível. O grande momento é o diálogo entre Flynn e Aloysius na sala dela – toda a atuação é elogiável.

5ª posição – A Mulher do Tenente Francês (1981)
Facilmente eu lhe daria o Oscar por essa interpretação, que a meu ver é ainda melhor do que aquela apresentada no ano seguinte pelo filme “A Escolha de Sofia”. Como uma mulher marginalizada na sociedade, Meryl apresenta uma interpretação bastante segura e convincente, seja como a mulher do tenente francês seja como a outra personagem que interpreta no mesmo filme.

4ª posição – Adaptação (2002)
O filme pode ajudar, mas com certeza Meryl é a grande responsável por sua interpretação como Susan Orlean, uma jornalista que se excita com a história de orquídeas e, eventualmente, se torna viciada no efeito alucinógeno delas. Um momento lindo, lindo!, de Meryl Streep, basta vê-la para amá-la – uma personagem tão comum que realmente conquista a nossa simpatia e esse é o grande mérito da atriz.

3ª posição – O Diabo Veste Prada (2006)
Quem diz que essa não é uma ótima interpretação? Quando se fala nesse filme, a única figura de que nos lembramos vividamente é Meryl Streep, com seu cabelo branco, seu jeito calmo, porém intrinsecamente tempestivo, e seu jeito de desprezar suas funcionárias. A meu ver, uma das melhores personagens, dessas inesquecíveis.

2ª posição – As Pontes de Madison (1995)
Pode ser a cena em que ela hesita em sair do carro do marido, pode ser quando ela diz não se importar sobre os comentários da população – qualquer uma das cenas justifica a presença pungente e intensa de Francesca Johnson – ou melhor, de Meryl Streep – nessa lista. Para mim, esse é o seu grande momento da década de 1990 e, não houvesse o filme que está no primeiro lugar, “As Pontes de Madison” seria facilmente o primeiro lugar absoluto. Difícil explicar Meryl aqui: linda, perfeita, simpática, romântica,

1ª posição – A Dama de Ferro (2011)
Sei que serei criticado, mas essa interpretação é, a meu ver, aquele que mais valoriza Meryl e a que mais possibilita que ela se expanda. Estamos falando de um filme cuja época histórica – relevantíssima – não importa, cujos personagens coadjuvantes não importam, cujo enredo não importa: a única coisa destacável é Meryl Streep e ela apresenta uma interpretação que faz jus a um filme cuja única função é cultuá-la, do começo ao fim.

30 de jun. de 2012

Adaptação


Adaptation. EUA, 2002, 114 minutos, comédia. Diretor: Spike Jonze.
Provavelmente uma das melhores metalinguagens do cinema. Não fosse por Nicolas Cage, o filme seria verdadeiramente perfeito.

Confesso sempre ter havido algo que me fazia querer assistir a esse filme e outro algo – esse facilmente identificável: Nicolas Cage – sempre me refreava. Criar esse especial sobre Meryl Streep foi um grande motivo para finalmente me colocar a frente dessa fita e finalmente conferi-la, somente para descobrir que eu estava bastante enganado ao não tê-la visto antes, sobretudo porque se trata de uma grande obra, dessas que merecem atenção e que não podem não estar presentes na lista dos filmes vistos de algum cinéfilo.

Difícil apresenta a sinopse desse filme porque ela é o filme, literalmente. Charlie Kaufman traz a história de um personagem – ele mesmo – que tenta adaptar um livro chamado The Orchid Thief, escrito pela repórter Susan Orlean, sobre um homem cuja notoriedade aconteceu devido aos constantes roubos de orquídeas, mesmo em reservas nas quais ele definitivamente não poderia entrar. Dois planos se estabelecem: um no qual o personagem Kaufman tenta lidar com sua dificuldade em escrever um roteiro sobre um livro que ele acaba entendendo como inadaptável e outro no qual se apresenta a relação de Susan e John Laroche e as diversas perturbações que surgem ao longo de sua vivência enquanto pesquisador e objeto de pesquisa.

 Chris Cooper e Meryl Streep interpretando John Laroche, o expert em orquídeas, e Susan Orlean, a jornalista que investiga Laroche e seus métodos de colheita de material de análise.

Escrever sobre esse filme não é fácil, sobretudo porque o universo que ele abrange – seja no seu enfoque ou na sua produção – é muito maior do que o conteúdo exclusivamente encerrado no universo cinematográfico. Talvez, para começar, é importante ressaltar que Charles Kaufman, Susan Orlean e John Laroche são personagens verídicos, cujas vidas foram transpostas para as telas, não sem antes sofrerem algumas modificações básicas.  Também considero relevante dizer o livro The Orchid Thief (1998) também é real, já que Orlean realmente se dedicou à pesquisa sobre o cultivo e uso das orquídeas, sobretudo as raras, encontradas por Laroche nas diversas vezes que ele se apropriou de uma espécie praticamente extinta dessa planta. Mais a fundo, é necessário esclarecer que Kaufman já declarou ter verdadeiramente tentado adaptar o livro de Orlean, mas, enfrentando uma dificuldade imensa na transposição do caráter jornalístico da história de Laroche, ele decidiu escrever sobre essa sua dificuldade.

Compreendamos: Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julgou inadaptável, decidiu escrever um roteiro sobre ele mesmo, Charles Kaufman, tentando adaptar um livro que ele julga inadaptável. Ousou ainda mais: também escreveu sobre a veracidade acerca das pesquisas de Orlean com Laroche. Não bastando, mais um desafio: duplicar-se na figura do gêmeo inexistente Donald Kaufman (transpondo-o inclusive para a vida real, num processo inverso a tudo o que fez nesse filme, em que trouxe elementos da vida para a arte). Finalizando, deu aos personagens de Susan e John certa ficção, transformando-os em amantes e, mais do que isso, em consumidores de drogas extraídas a partir do extrato das orquídeas.

Spike Jonze, Charles Kaufman e Donald Kaufman (uma vez que o roteiro do filme é dos irmãos, devo atribuir também ao gêmeo os créditos por esse filme) realmente apresentaram uma obra cuja estrutura é, senão inteligentíssima, decerto um dos melhores trabalhos metalingüísticos que o cinema já viu, superando inclusive os trabalhos apresentados em “Cantando na Chuva” (1952), “A Noite Americana” (1973) e “Lembranças de Hollywood” (1990), sendo todos files que, em sua essência, abordam a indústria cinematográfica e o seu relacionamento consigo mesmo, nos mostrando os bastidores, as gravações, o processo artístico por trás do objeto de trabalho que um filme é. Considero essa uma obra simplesmente genial, porque ela não tem medo de transformar a realidade em arte ficcional (basta ver que todos os personagens são reais com histórias remodeladas) e, ainda, fazer o inverso, levando à realidade elementos fictivos. Não é à toa que Donald Kaufman, uma criatura que existe exclusivamente no universo artístico da ficção, mais especificamente nessa obra de 2002, foi nominado ao Oscar pela escrita desse roteiro, juntamente com seu irmão, Charles Kaufman, o “verdadeiro” autor do roteiro.

 Nicolas Cage dando vida aos gêmeos Charles e Donald.

Muito do filme se perderia não houvesse a edição de imagens que, dinamicamente, nos transporta da história dos aparentemente rivais irmãos Kaufman para a história de Susan e sua tentativa de entender que maravilha existe por trás das orquídeas, já que elas são objeto de atenção de um homem que, segundo as expectativas de Orlean, é muito interessante. Gosto especialmente da função da flor nas três histórias indubitavelmente reais: John Laroche, o ladrão de orquídeas, é o que é porque está sempre à procura de espécies raras e/ou em extinção; Susan Orlean, a repórter, viu em Laroche um tema interessante no qual se focar em sua pesquisa; Charles Kaufman, o roteirista, depois de analisado o livro de Orlean, achou-o adequado para uma história cinematográfica. O resultado é esse filme no qual a flor continua sendo o objeto de atenção de todos os personagens, mas gosto especialmente de sua simbologia na história da repórter: depois de acompanhar Laroche e descobrir o máximo que podia sobre sua vida, a repórter queria experimentar a sensação de encontrar um espécime raro da flor, então ela e Laroche saem à procura da inspiradora Orquídea Fantasma, que é um dos maiores tesouros para ele. Quando se deparam com ela, depois de percorrerem um laborioso caminho num pântano, finalmente a encontram – e Orlean se mostra decepcionada, uma vez que, afinal, constata ser apenas uma flor, não muito diferente de qualquer outra orquídea que já tenha visto antes; mais tarde, porém, ela descobrirá ser a orquídea a fonte de uma de suas maiores felicidades: a droga.

Meryl Streep e Chris Cooper com certeza são o ponto alto dessa produção. Acredito que os dois desenvolveram seus personagens de tal modo que é dificílimo não observá-los e crer que eles fazem jus às pessoas reais de que derivam. E eles souberam conquistar o espectador, mesmo que eles retenham características que notadamente os marginalizam. A começar pelo físico de John Laroche – já num primeiro momento, ele nos causa uma impressão estranha, justamente pela falta dos dentes da frente, cujo porquê é mais tarde explicado, causando no espectador uma sensação de agonia, sobretudo por causa do afastamento inicial em relação ao personagem. Já Susan é uma figura que aparentemente nos causa simpatia, mas partilhamos do seu descontentamento ante a tão esperada orquídea. Depois, há uma estranha – e extremamente simpática – união dela com Laroche, resultando num casal estranho, mas maravilhoso, que fica pelado numa casa num rancho cheirando o pó da orquídea e transando.

 Meryl Streep e Spike Jonze nos bastidores do filme.

Spike Jonze definitivamente transforma essa sua obra em algo verdadeiramente interessante que deve ser visto. Nenhum cinéfilo deve deixar essa obra passar em branco, pois ela definitivamente é uma das melhores produções da última década, e, não bastasse isso, ainda apresenta uma das melhores interpretações de Meryl Streep e, também, um momento interessantíssimo de Chris Cooper, na única interpretação sua nomeada ao Oscar. O grande problema do filme: Nicolas Cage. Afinal, ele sempre atua embasado em cacoetes terríveis que não acrescentam nada à atuação – mas aqui ele consegue não perturbar a trama, está aquém dos outros atores, mas, ainda assim, aceitável e quase satisfatório. O grande mérito está nas atuações de Meryl e Cooper, no roteiro de Kaufman – genial, insisto! – e na direção de Jonze, que soube bem como encaminhar o seu filme para um ritmo interessante, que somente valoriza a trama, que facilmente poderia ter se tornado confusa. A meu ver, este é facilmente um dos meus filmes preferidos e acredito que um dos files preferidos dos cinéfilos também.

28 de jun. de 2012

Música do Coração



Music of the Heart. EUA, 1999, 124 min, drama. Diretor: Wes Craven.
Apesar de mediano, o filme tem bons momentos.

Confesso que minha primeira grande surpresa com esse filme foi justamente o fato de ele ter sido dirigido por Wes Craven, diretor cujo nome está associado ao cinema de terror, tendo lançado títulos que são referências, como “Aniversário Macabro” (1972), “Quadrilha de Sádicos” (1977), “A Hora do Pesadelo” (1984), além da saga “Pânico” (1996 - 2011). Praticamente toda a filmografia de Craven é recheada de filmes que definitivamente passeiam longe do gênero de Music of the Heart, filme que, aliás, ele só dirigiu sob a condição de também dirigir o terceiro episódio da série com o ghost face, já que ele queria se livrar da franquia da qual ele e Kevin Williamson foram criadores.

Tendo assinado contrato para dirigir “Pânico 3” (2000), o estúdio finalmente liberou “Música do Coração” (1999), no qual Craven se reuniu com Meryl Streep, Ângela Bassett (que já havia participado de outros filmes do diretor) e com Gloria Estefan, cantora mundialmente reconhecida. O elenco, sob direção de Craven e baseado no roteiro de Pamela Gray, traz a história verdadeira de Roberta Guaspari, dona de casa cuja vida virou de cabeça pra baixo quando seu marido a abandonou e, por incentivo da mãe e de um ex-namorado, decidiu tentar uma vaga como professora de violino numa escola pública, local no qual obteve sucesso e apoio do governo por dez anos. O choque acontece quando se descobre não haver mais incentivo financeiro público para as aulas, implicando no fechamento do curso de violino, o que obriga Roberta e todos os envolvidos no programa de ensino a encontrar meios alternativos de financiar as aulas.


Já no começo do filme percebemos um tom de feel-good movie. Não se pode, em momento algum, pressupor que algo ali vá verdadeiramente dar errado, já que a simples incursão de Roberta numa escola marginalizada (os alunos são, sobretudo, afro-americanos e hispânicos, grupos sociais notadamente desvalorizados nos Estados Unidos) e a imediata antipatia dos alunos faz com que pensemos que, a partir dali, só é possível dar certo e não mais errado do que já está. E é justamente isso: atravessados os problemas iniciais, a personagem se insere de tal modo na vida dos alunos que ao espectador cabe observar qual será, então, o próximo e talvez absoluto, pico de tensão da história. Para mim, a história é claramente dividida em dois grandes atos: o primeiro apresenta as dificuldades de Roberta em se adequar à nova escola, bem como em conquistar os seus alunos e, não por menos, lidar com seus filhos; o segundo bloco se apresenta depois de transcorrida uma hora de fita e ele mostra aquele que se alega o grande plot da narrativa: a luta de todos os envolvidos no programa de ensino de violino para mantê-lo como matéria adjunta no currículo escolar daquela escola.

Vejo a narrativa dividida em dois momentos bastante distintos, porque é perceptível que a primeira parte se encerra próximo à metade do filme. Não è toa que todos os alunos de Roberta, aqueles que inicialmente se mostravam antipáticos com a nova professora, findam sua participação antes do meio da história e retornam depois, justamente como um elemento a mais que une a primeira e a segunda partes. Ambos os atos acontecem tranquilamente e nenhum apresenta nenhum grave problema. De certo modo, o filme é bastante linear, muito constante e satisfatório na sua linearidade, sem nada que perturbe o modo como ele transcorre. Assim, considero essa uma obra de fácil leitura, sobretudo porque ela se trata mais de uma obra sensual (relacionada aos sentidos e ao despertar deles) do que uma obra realmente focada na trajetória da vida da personagem principal ou, ainda, numa dessas produções alicerçados nos diversos símbolos que mantêm o espectador à procura de seus significados.


Talvez o grande êxito do filme seja Meryl Streep e, em poucos momentos, a presença de Angela Bassett, nua interpretação às vezes exagerada, mas, ainda assim, intensa. Meryl, satisfatória, faz com que o espectador se sinta simpatizado pela sua personagem e consegue conduzi-la até o final do filme adequadamente. Se isso serve para valorizar o trabalho da atriz, podemos dizer que ela aprendeu a tocar violino, tendo praticamente seis horas diárias por seis semanas – o empenho lhe rendeu uma indicação ao Oscar, que a fez competir com atrizes como Hilary Sawnk, Annete Bening e Julianne Moore, por, respectivamente, “Meninos Não Choram”, “Beleza Americana” e “Fim de Caso”, todos também de 1999.

Como diretor, Craven não parece ter feito muito – seu filme, grosso modo, é bastante simples e não há que verdadeiramente o faça notar. Suas produções de terror são claramente mais suas do que esse filme, que poderia ter sido dirigido por qualquer outro diretor e que nós provavelmente não notaríamos tanta diferença. Isso não significa que o filme seja ruim, de modo algum. Como eu disse: é uma obra linear que tem seus bons momentos, mas que está longe de ser ruim ou de ser muito boa. Vale a pena conferir. No meu caso valeu a pena porque gosto do trabalho tanto de Meryl quanto de Wes, mesmo que essa parceria não tenha resultado em nenhuma grande maravilha.