30 de dez de 2011

Carnage

Carnage. França / Alemanha, 2011, 77 minutos, comédia. Diretor: Roman Polanski.
Um filme singelo, com alguns momentos engraçados, alguns dramáticos e um bom desempenho dos atores em situações bastante inesperadas.

Eu estava ansiosíssimo para assistir ao filme Carnage, ainda sem título definido no Brasil, justamente por causa do maravilhoso elenco e do diretor, que nos trouxe, entre outras obras, a interessante produção “O Bebê de Rosemary”, de 1968, estrelando Mia Farrow num filme de terror genial. Decerto a reunião dos intensos Jodie Foster (“O Silêncio dos Inocentes”), Kate Winslet (“O Leitor”) e Christopher Waltz (“Bastardos Inglórios”) resultaria num filme bastante positivo, mesmo que houvesse com eles o mediano - e às vezes irritante - John C. Reilly (“Chicago”). Pois bem, apesar das minhas ânsias, o filme não estreou aqui na minha cidade nem eu nenhum lugar no Brasil, eu acho; baixei-o, pois, e o conferi.

Toda a parte substancial da história se passa num apartamento e isso acontece praticamente do começo ao fim da trama, havendo apenas um pequeno prefácio e um posfácio, mas que nada acrescentam verdadeiramente à trama. Assim, ficamos focados em pouco mais de uma hora na qual os personagens se reúnem para discutir a situação de seus filhos, já que Zachary, filho de Nancy e Alan (Winslet e Waltz), agrediu Ethan, filho de Penélope e Michael (Foster e Reilly), com um bastão, prejudicando-lhe os nervos dos dentes. O encontro dos pais consiste basicamente em discutir o porquê de aquilo ter acontecido além de tentar encontrar uma alternativa para que os filhos se encontrem e possam se desculpar. Mas o que eles percebem é que eles mesmos não sabem exatamente como lidar com a situação, já que deixam a todo o momento transparecer os seus descontentamentos com a discussão e com o novo rumo que ela toma bem como demonstram os problemas que trazem em seus casamentos.

 Quatro pessoas e um suposto encontro "civilizado".

Talvez a característica mais notável seja o fato de que todos estão ali desconfortáveis por estar ali. Nem mesmo os anfitriões estão totalmente à vontade naquela conversa, que percorre caminhos tortuosos à medida que eles passam mais tempo juntos. Cabe ainda apontar a evidente desatenção de Alan, que fica falando no celular devido ao seu trabalho, o que apenas prolonga a estadia do casal convidado na casa do outro casal - e o que apenas acrescenta ainda mais tensão e incômodo aos outros três personagens, que, num determinado momento, já se mostram bastante irritados com aquela situação de constante interrupção. Curioso notar a rápida mudança de comportamento dos interessados - a princípio, a calmaria e a compreensão parece predominar, não sem acompanhá-las também alguma dose de tensão, mas logo, em parte por causa da insistência de Michael para que tomassem café ou comessem torta ou ainda comesse pizza faz com que os dois casais fiquem por mais tempo juntos, dividindo algumas experiências e discutindo assuntos paralelos - como o fato de os homens terem sido “líderes de gangues” quando pré-adolescentes e o recente abandono do hamster da família Longstreet por Michael -, que inevitavelmente levam a discussões mais pesadas a respeito da índole de cada um dos personagens.

Nota-se com facilidade que não há como culpar os pré-adolescentes pela briga que tiveram quando seus próprios pais não conseguem chegar a um acordo pacífico, discutindo um casal com o outro e ainda entre si mesmo. Mais interessante do quando Nancy discute com Michael ou Penélope com Alan é quando Nany e Penélope discutem com seus respectivos maridos, criando aí um clima que trespassa a rincha do “meu filho agrediu ao seu”. Percebemos que os personagens vivem problemas de alicerce mesmo e trazem consigo incômodos que pouco têm a ver com a situação problemática vivida por Zachary e Ethan no parque. Como percebemos ao longo do filme, a carnificina sugerida no título original e no meio de um diálogo entre Penélope e Alan, não precisa acontecer num espaço aberto, com as pessoas armadas com bastões ou cercadas por gangues - ela pode perfeitamente acontecer numa sala de estar, entre pessoas ditas civilizadas, enquanto se servem aperitivos e bom uísque - puro malte 18 anos - e cercados por tulipas amarelas e revistas de história de arte e de culturas não-ocidentais. 

 Nancy depois de ter vomitado e estragado as revistas de arte de Penélope e também a roupa do marido.


Me vem uma dúvida quanto à categoria a que o filme pertence. Parece que o drama é a principal característica dele, mas percebo que, na verdade, os elementos do filme o levam a uma tensão dramática que reside não apenas nas situações em si, mas também nesses próprios elementos. Por exemplo, Nancy passa mal devido a dores no estômago e, para ajudá-la, Penélope lhe oferece coca-cola quente, o que, notoriamente, não é uma idéia muito sábia; o resultado: Nancy vomita na sala, sujando Alan e Penélope além de deixar a sala imunda - isso para não falar das revistas de arte da anfitriã - e com mau cheiro. A situação é hilária, principalmente pelo vômito absurdamente inesperado e pelo resultado daquilo: Alan se irrita com o outro casal, por ter ficado oferecendo comida a todo o tempo e também com a esposa, que sujou a roupa com a qual ela compareceria a uma entrevista àquela tarde; Penélope fica enfurecida pelo que aconteceu às suas revistas, Nancy fica totalmente envergonhada pelo que houve e Michael se mostra o único a tentar intermediar a situação, tornando-a um pouco mais suave. Vemos claramente que o cômico e o dramático confluem, havendo bom humor no drama bem como há tensão na vertente cômica.

Como disse no primeiro parágrafo, os atores Kate Winslet, Jodie Foster e Christopher Waltz mostram-se bastante competentes e John C. Reilly, o único mediano do elenco, consegue sustentar-se nesse filme, embora esteja aquém dos colegas de elenco. Não se pode negar que o ponto forte do elenco são as duas mulheres, que praticamente definem todo o andamento do filme, com direito a dois bons momentos, que é quando Nancy discute com Michael a respeito de ele tê-la acusado de negligenciar a educação do filho quando ele mesmo havia abandonado um animal indefeso à sorte, o que provavelmente o levaria à morte, e depois quando Penélope e Michael discutem a respeito de suas perspectivas de vida, numa atuação arrepiantemente singela, que me provou o porquê de Foster ter conquistado uma indicação ao Globo de Ouro e o que me fez pensar bastante se ela, talvez, considerando evidentemente todo o conjunto de sua atuação nesse filme, não merecia a quinta indicação ao Oscar, ao lado dos potenciais nomes de Viola Davis, Michelle Williams, Glenn Close e Meryl Streep. Mas tão humilde que está a divulgação dessa produção que decerto ela não estará entre as indicadas.

 Jodie Foster e Kate Winslet: a vertente dramática e a vertente cômica, respectivamente.

Roman Polanski conseguiu construir uma verdadeira selvageria em ambiente urbano. Nem mesmo o aspecto extremamente cívico do apartamento fez com que seus personagens agissem também cívica e pacificamente, embora eles aleguem isso umas duas vezes. O diretor foi sensato também em não estender a história do que o necessário: em 77 minutos, ou seja, uma hora e dezessete minutos, vemos todos os problemas dos personagens naquele que eles garantem ser “o pior dia” da vida deles. Também devo elogiar o cuidado em não caracterizar os personagens, uma vez que aqui o trabalho entre diretor e elenco foi fundamental para que não víssemos os personagens como criaturas inverossímeis - e isso definitivamente não acontece: somos absurdamente capazes de nos enxergarmos nas atitudes deles. Polanski, pra acentuar o humor do filme, até aparece num cameo: é ele o vizinho que abre a porta quando Nancy está gritando no corredor dos apartamentos. Enfim, o misto de humor e drama me cativou, embora eu não ache que seja essa a melhor interpretação desses atores nem ache que esse seja o melhor filme de Polanski. Mas me soou inegável que seja uma obra interessante para se assistir e, ainda, para ver o excelentemente desempenho de Jodie Foster, que há algum tempo não me impressionava.

3 opiniões:

Alan Raspante disse...

Vou precisar baixar também! Quero muito ver!

Júlio Pereira disse...

Quando assisti ao trailer, de imediato fiquei ansioso. Claro, anteriormente já tinha ficado louco com a ideia de 4 dos meus atores favoritos sendo dirigidos por um dos meus diretores favoritos - é admirável que não tenha deixado a peteca cair, mesmo depois da prisão, realizando Carnage e O Escritor Fantasma. Uma pena que venha passando em branco na temporada de premiações, mas a crítica está elogiando muito a obra. Ainda não assisti, mas irei (quero ver no cinema).

Quando ao gênero dele, pode ser uma dramédia, né? Mas amigos me disseram que é uma comédia e o Globo de Ouro reforça esta ideia.

Carnage me lembra também, pelo trailer, a obra-prima "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?". É apenas uma impressão ou parece mesmo?

Matheus Pannebecker disse...

Adorei saber que a Jodie Foster está excelente nesse filme. Sempre tive o palpite de que ela seria o destaque de "Carnage"!