20 de dez de 2011

A Pele que Habito

 La Piel que Habito. Espanha, 2011, 115 minutos, thriller. Diretor: Pedro Almodóvar.

Quando todos elogiavam sem parar o filme, duvidei de sua qualidade aparentemente inquestionável. Ao vê-lo, concluí tratar-se de uma das melhores obras do Almodóvar!

Sou fã de Almodóvar e usualmente encontro em suas obras um deleite magnífico, seja num roteiro excelente que trabalha o psicológico dos personagens, seja em sua direção não-conservadora e bastante ousada. Vemos temas bastante delicados em suas obras, como incesto, estupro, adultério - mas, honestamente, penso que seja com La Piel que Habito que Almodóvar trouxe a sua maior polêmica. A obra não-linear nos apresenta um médico-cirurgião que se encontra obcecado por sua magnífica pesquisa: uma pele resistente que substitui - ou melhor, se sobrepõem - a pele verdadeira, possibilitando, como vemos, reconstituições da face ou, ainda, modificação dela.

Acredito que será difícil discorrer acerca do roteiro, porque muito do filme se constrói e ele todo é o seu próprio mote. Assim, é difícil apontar partes “essenciais” dele sem dar spoilers, mas adianto desde já que é inevitável não revelar detalhes reveladores do filme - se você ainda não viu, recomendo não continuar a leitura. Pois bem, a primeira meia hora do filme é justamente aquela na qual se verifica a semente da dúvida que nos é implantada: parece que tudo o que está ali está deveras concluso e não há o que acrescentar, assim, ao término do primeiro quarto de filme, ficamos pensando no que virá a seguir e quais novas informações serão acrescentadas àquilo que já vimos. Basicamente, temos conhecimento de que o Dr. Robert mantém uma garota em cativeiro, embora a relação deles não seja exatamente a de carcereiro e prisioneiro. A curiosidade do espectador é causada justamente por essa dubiedade na relação dos dois e, ainda, pela presença curiosa de Marília, a governanta da casa, que, lá pelos trinta minutos, confessa à Vera, a encarcerada, um pouco da história de Robert e o porquê de ela, Vera, ter sido confundida com Gal, a esposa falecida do médico.

 Vera e Robert, perto do clímax final.

A mistura de flashback com o ar de mistério da narrativa da governanta estende a curiosidade de Vera ao espectador. Somos, naquele momento, todos ouvintes atentos do que a senhora tem a dizer. Num corte, finda-se o “primeiro ato” e somos levados ao passado, seis anos antes da narrativa que dá início ao filme e seis anos depois da morte de Gal, a esposa de Robert. Lá conhecemos um evento que transtornou Norma, filha de Robert, levando-a à morte por suicídio e fazendo com que Robert se encontra, por fim, na decisão que o levaria a extremos e a qual Vera está relacionada. Confesso que achei os trinta primeiros minutos bastantes mornos e prolongados, embora, obviamente, houvesse aquela característica almodovariana que prende o espectador ao que está sendo narrado. Não fosse também o charme de Antonio Banderas, eu teria achado o prólogo bastante comum - algo que definitivamente não combina com o diretor. Então, o novo ato trás consigo uma amostra valente de perspectivas: primeiro vemos o pensamento de Robert acerca da situação, depois vemos o que verdadeiramente aconteceu (algo semelhante acontece em Atonement). Daí pra frente a história deslancha e conhecemos por fim o homem sem escrúpulos que o médico é e o seu plano de vingança, que, como veremos, se encerra muito shakespeariano (quem conhece as pessoas desse autor sabe do que eu falo).

Honestamente, a sua vingança é, a meu ver, um das mais geniais já realizadas. A transformação de Vicente, o suposto estuprador de sua filha, em Vera é um dos argumentos mais assustadores e mais bem trabalhados que eu já vi em cena. Interessante também notar que há aqui um jogo de verdades que frustram e amedrontam o espectador: Vicente não estuprou Norma, filha de Robert, logo não cabia que fosse punido por esse crime, já que ele não chegou a acontecer; por outro lado, Vicente é a pessoa que causou o distúrbio em Norma, fazendo-a achar que seu pai (que a encontrou inconsciente) fosse seu agressor. Assim, ainda que responsável por algo, não era responsável por tudo pelo que Robert o acusava - mas, afinal, foi ele que indiretamente levou a garota à morte, então, sob a perspectiva de Robert, nada mais justo do que ele se transformar numa garota. Assim que o espectador descobre qual é a cirurgia realizada em Vicente, tudo vem à tona de modo intragável - constatamos, pois, que Vera é na verdade Vicente e que ela própria já não se vê como homem devido aos seis anos que passou enfurnada na casa do cirurgião.

 Um dos momentos mais importantes do primeiro ato do filme: o Tigre, antes de descobrir Vera.

Se o roteiro tem sua primeira meia hora bastante morna, a direção de Almodóvar e os atores fazem questão de suprir a carência do argumento fílmico. Em pouco tempo, as atuações se tornam ainda mais notáveis, principalmente a de Jan Cornet e Elena Anaya, que parecem bem mostrar os dois lados da moeda: o medo que de tão imenso chega a ser impassível de expressão e o acatamento inevitável. Ambos trazem interpretações seguras, sem cacoetes, muito densas e próprias - já não estivessem as temporadas de premiações tão fechadas como aparentemente estão, eu acredito haver um espaço pelo menos para ela. Banderas traz consigo um charme e segurança em cena bem mais maduros - inevitável não se surpreender com sua voz firme, sua postura cênica marcante. Se fosse isso uma peça teatral, mesmo ele longe da ribalta, ainda o veríamos viril, tão potente é sua atuação aqui. E Almodóvar conseguiu me seduzir com o charme tenebroso do seu filme, de uma história de desejo às avessas - é quase penumbroso o caminhar de Vicente até transformar em Vera e ainda mais penumbroso o relacionamento que se estabelece entre ela e Robert: vemos quase uma síndrome de Estocolmo, mas, a somar mais suspense, verificamos não sê-lo.

Quando todos comentavam a maravilha desse filme, eu suspeitei. Se todos falam muito bem, ou é um filme grandioso ou é loucura massificada. E curiosamente me deparei com um filme verdadeiramente bom, que impressiona e choca paralelamente, dada a sua composição cheia de qualidade. Essa obra de Almodóvar é um exercício de cinema - um produção para não ser esquecida e para ser revista várias vezes.

8 opiniões:

Carissinha disse...

Estou louca para ver esse filme. Eu amo o trabalho do diretor, e ver o Banderas novamente trabalhando com ele deve ser sensacional.

Beijos!!

@carissinha
Arte Around The World

Celo Silva disse...

Luis, q bom q gostou desse filme, um dos melhores de 2011. Grandes atuações em um filme misterioso e cativante. Abração!

Júlio Pereira disse...

É uma aula do Almodóvar, de perversão, sensualidade, maldade, cinema. Amo muito o filme. Mas é difícil sair indicações de atores não-americanos para as premiações americanas de fim de ano =P

Luiz Santiago disse...

Para mim, é o segundo melhor filme desse ano. Simplesmente maravilhoso. Também escrevi sobre ele aqui no Cinebulição, e foi um prazer incomparável. Concordo plenamente com sua abordagem. Ótimo filme, ótimo texto. Almodóvar merece. =)

Matheus Pannebecker disse...

Maravilhoso! Superou as minhas expectativas. E concordo contigo: um dos melhores do Almodóvar!

Gabriela disse...

Concordo que é um dos melhores do Almodovar, mais um filmaço de um dos meus diretores preferidos. Parabéns pelo blog, literatura e cinema são temas fascinantes. Acompanhando!
Beijoss

Pipoco disse...

Oi, Luis!
Meu nome é Andre, sou jornalista, pós-graduado em arte e cultura e atualmente cursando mestrado em memoria social (abordando cinema documentário e a questão da encenação). Encontrei seu blog enquanto vagava sem rumo pela net e estou maravilhado pelo bom gosto e pelas dicas. Também sou amante de cinema, pretendo fazer meu doutorado em literatura (temática gay autobiográfica) e sou um fã incondicional do Almodóvar!
Enfim, só queria mesmo parabenizar pelo belo trabalho e registrar o quanto curti este espaço!
Beijo grande,
André

Jean disse...

Eu necessitava - mesmo que atrasado - vir aqui e expor o que estou sentindo após ter visto "A Pele Que Habito". Fazia tempo que um filme não conseguia me impressionar e mexer tanto com a minha cabeça. O que mais me espanta aqui, nem é o fato da revelação final nos mostrar que ela, na verdade é ele. Mas sim como Almodóvar conduz o tema.

A todo instante eu tentava imaginar como seria a relação de um casal, sabendo que seu parceiro tem o seu mesmo sexo. A princípio imaginamos que o ódio de Robert pelo que Vincente fez, seria o suficiente para que ele se livrasse desse fardo, já que a vingança já tinha sido feita. Ao contrário disso, ele se apaixona por uma imagem. Criador e criatura cara a cara, em um enlace desconcertante!

As atuações foram magníficas! Antonio Banderas sempre me cativou e neste ele está ainda mais encantador. Elena Anaya - que é uma atriz que conheci recentemente, graças ao belíssimo "Um Quarto em Roma" - mostra aqui todo seu talento e se entrega de corpo e alma. As cenas em que ela demonstra repúdio ao ato sexual, soa ao mesmo tempo como "experimentar do próprio veneno" e "sentimento de pena".

No fim, só posso dizer que a película é magnífica! E que mais uma vez Almodóvar conseguiu fazer minha cabeça pirar. E como você mesmo disse Luís, é um filme que vale a pena rever. Perfeição define!!