28 de dez de 2011

Desenrola


Brasil, 2011, 88 minutos, comédia. Diretora: Rosane Svartman.

Uma obra bastante simples, com deslizes imensos no roteiro, alguns personagens bastante chatos, mas, como um todo, funcional e simpático graças aos atores.

O Brasil tem apostado bastante nas abordagens cinematográficas de histórias sobre adolescentes. Somente esse ano, além do título dessa resenha, vimos também “As Melhores Coisas do Mundo”, “Antes que o Mundo Acabe” e “Os Famosos e os Duendes da Morte”. Essa produção - “Desenrola” -, cujo roteiro é de autoria da diretora e de Juliana Lins, aborda a vida de Priscila, de 15 anos, que anseia perder a virgindade bem como quer envolver-se com Rafa, um dos garotos mais bonitos da cidade. Com a viagem da mãe à trabalho, a garota ficará sozinha na casa por aproximadamente 20 dias, período no qual ela tem que lidar com um trabalho em grupo cujo tema é virgindade além de lidar com um garoto, o Boca, que espalhou que ele e ela transaram.

A primeira coisa que pensei a respeito desse filme é: “mais um filme adolescente sobre jovens querendo perder a virgindade?”. Cheguei à conclusão de que jovens só pensam nisso - a adolescência é toda voltada para o sexo. Pessoas de 15 anos com pensamento político, que praticam a solidariedade, que gostam de arte e cultura, que viajam, que fazem peregrinação não existem. Se o filme quer tratar temas políticos, crianças são a metáfora para esse assunto, como vemos em “Machuca”; se o filme for do John Hughes, veremos adolescentes menos toscos e com maiores problemas na vida; se as pessoas têm outro foco que não o sexo, então parece que obrigatoriamente devem já ter passado dos 20 anos - abro aqui a exceção para o escroto “Qualquer Gato Vira-lata”. Os adolescentes no Brasil pensam em sexo, sobretudo, e perder a virgindade é algo essencial na vida - como Priscila bem diz num momento em que está quase morrendo: a única coisa que não podia era morrer virgem. OK, então.

 Dois personagens incapazes de conquistar a nossa simpatia.

Esse filme se perde um pouco nesse debate já desgastado do adolescente burguês cujo único drama pessoal é ser virgem. Ainda que o roteiro não se foque exclusivamente nisso, esse mote acaba soando repetido ao espectador e os resíduos dele que aparecem intercalados a outros assuntos dramáticos acabam tornando o filme menor. Também há a centralização da história no pseudo-romance entre Priscila e Rafa, numa história que notadamente não se desenvolve, mas, apesar de sua deficiência, toma mais da metade do filme, ignorando elementos-problema que são absurdamente mais interessante, como a aparente homossexualidade de Caco, o melhor amigo de Priscila, e a gravidez da irmã de Rafa. Sei que gravidez na adolescência, assim como drogas, são assuntos já desgastados, ainda que mais em debates monótonos supostamente instrutivos nas escolas do que cinematograficamente, mas já que o sexo sem camisinha surgiu em questão, poderiam tê-lo abordado com maior fraqueza e menos medo. Digo o mesmo acerca do personagem homossexual - o assunto surge tímido e logo morre, sem qualquer expansão para um debate mais sério. Enquanto isso, a Priscila está lá, correndo atrás do pinto do Kayky Brito do Rafa.

Outro grande problema do filme é o Boca, um personagem que deveria se contrapor inicialmente à Priscila e ao espectador e, pouco a pouco, conquistar tanto a garota quanto a n os, fazendo- com que todos percebam que, no fim, o que importa é estar ao lado de alguém que saiba reconhecer o nosso valor (clichê, né? Pois é...). Isso, porém, é dificílimo de acontecer, porque, infelizmente, o personagem é ridículo e incômodo e o mesmo se aplica ao seu melhor amigo, que consegue ser ainda pior que ele. Assistindo a alguns filmes, concluí que sempre existe um amigo desagradável para perturbar um personagem já escroto - basta vermos “Qualquer Gato Vira-lata”, esse filme resenhado agora e todos da série “American Pie”. Só não incluo aqui o Stuart, de “Três Formas de Amar”, porque Eddie, o protagonista, é um personagem bem bacana. Enfim, o que queria dizer é que é difícil simpatizar com uma criatura tão abominável e destoante como Boca, mas como era necessário um par para romance, não apenas para sexo, aí o jeito foi colocá-los juntos mesmo. Detalhe: para que os olhos do garoto fossem aberto, é necessário o conselho de uma mulher mais velha, uma prostituta simpática - decerto é o diálogo mais curioso do filme, já que ele não representa nada além de ser patético.

 Priscila e Rafa: embora não sejam grandes personagens, não bastante simpáticos.

O filme começou e a primeira coisa que eu pensei, tendo assistido a apenas 4 minutos de filme, foi que a atuação de Claudia Ohana seria provavelmente a mais sincera ali. Isso porque ela aparece como mãe de Priscila por breves segundos ao começo e ao final do filme. Mas depois percebi que todos os atores são simpáticos em suas interpretações, cabendo dúvida apenas quanto às participações de Juliana Paes e Heitor Martinez, que não se sabe o porquê de estarem ali. Os outros - Claudia Ohana, Marcelo Novaes e Letícia Spiller - realmente trazem simpatia ao filme e mostram-se elementos de melhoria no filme. Sem os momentos dos quais eles participam, estaríamos mais propensos a achar que os personagens são todos estereotipados. Mesmo a participação de Kayky Brito não é negativa - mesmo seu personagem sendo bastante indisponível sentimentalmente, ele é carismático e faz com que nós não nos incomodemos com ele. O problema, obviamente, está no modo rápido como ele e Priscila se envolvem, ofendendo qualquer espaço temporal coerente.

O filme é dotado de momentos desnecessários, mas não se trata de uma perda de tempo. É uma obra de caminhar suave, de narrativa prazerosa e de entretenimento mais palpável do que, por exemplo, aquele que o filme “As Melhores Coisas do Mundo” nos proporciona, ainda que esse tenha qualidade maior. Mesmo caindo em muitos clichês, os atores tentam segurar a história e nos apresentam atuações que merecem alguma valorização, em especial a da protagonista Olívia Torres, que se junta bem numa química interessante com todos do elenco, e que, a somar, tem um sorriso sinceramente lindo. Acredito que não seja um filme que faça com que olhemos mais atentamente para o cinema nacional, mas pelo menos não o deprecie e ainda traz alguma diversão ao espectador - vale a pena vê-lo num dia em que não há muito que fazer, numa noite chuvosa sem expectativas.

1 opiniões:

Júlio Pereira disse...

Acho difícil lidar com a sexualidade na adolescência. Na maioria dos casos cai no caricato, como me parece ser o de Desenrola. Ao mesmo tempo, há filmes que tratam isso de forma admirável, como o cômico Superbad, que é extremamente engraçado e é mais sobre amizade do que sexualidade.

Os dois nacionais que você citou são curiosos. Os Famosos e Os Duendes da Morte é muito "quero ser Gus Van Sant" pra mim, e em toda sua pseudo-profundidade é raso. Já Os Famosos e Os Duendes da Morte eu acho formidável como trata os dramas e dilemas adolescentes - digo isso por ter 16 anos e ter me identificado. Porém, Desenrola me soa desinteressante, portanto, não devo assistir a obra.

Hahahaha, ri muito com isso: "Enquanto isso, a Priscila está lá, correndo atrás do pinto do Kayky Brito do Rafa."