22 de jul de 2010

Leite Derramado

Brasil, 2009, 200 páginas. Editora: Companhia das Letras. Escrito por Chico Buarque.
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Não deve ser novidade para as pessoas que eu sou fã de Chico Buarque. Vejo nas suas obras grandes composições, que refletem o quão ele é bom ao escrever – sejam canções, sejam livros. Sua literatura é intensa e é muito bem trabalhada e até hoje eu não senti que houvesse um único em que seu empenho não tenha sido total.


Leite Derramado é a sua obra mais recente e ela aborda a história de cinco gerações, cujas vidas são retratadas conforme a educação de cada um e também de acordo com o seu momento histórico. O cenário é o Rio de Janeiro e nessa cidade são mostradas tanto a sua faceta elitista quanto a sua faceta mais popular, segundo as situações pelas quais cada personagem passa.

Quando comentei aqui o livro Cem Anos de Solidão, eu escrevi que me agradavam histórias que permitem uma visão panorâmica da vida familiar dos personagens centrais, mostrando uma cadeia de eventos, apresentando um começo, meio e fim – sendo que a linha temporal abranja muitos anos. E Leite Derramado se enquadra nesse grupo de livros, afinal, sua história começa com o avô de Eulálio, o personagem-narrador, e termina com o neto dele. É importante ressaltar que não há um “começo” e um “fim” definidos. Como o narrador é um homem velho e doente, e que está num hospital, ele narra as suas memórias conforme elas lhe vêm à cabeça e, como característica das pessoas idosas, suas memórias não se apresentam numa ordem correta, embora elas aparentem precisão. Outro grande acerto do escritor é ater-se ao personagem e à personalidade dele, não deixando que o leitor veja no personagem o escritor. O personagem é o personagem e o escritor, no caso Chico Buarque, é o responsável pela caracterização perfeita desse personagem.

A noção temporal composta por Chico Buarque é muito boa. Como cada personagem – avô, pai, narrador, filha e neto – pertencem a uma época e, obviamente, os costumes pertencentes a ela são bem representados pela narrativa eficiente do narrador, que primeiramente esteve na classe alta e foi decaindo, até chegar a um apartamento mal-iluminado num bairro pobre do Rio de Janeiro. Por intermédio das informações dadas pelo homem hospitalizado mostram a postura nobre e altiva dos seus avôs e pais, que viajavam pra fora do país e falavam francês e tomavam bebidas finas. Também por intermédio daquilo que ele diz, conhecemos a vida tumultuada de sua filha, que passou por um divórcio e pela falência, e também nos é exibida a vida de seu neto, típico garoto do Rio calor que provoca arrepio dragão tatuado no braço que passa a maior parte do tempo na surfando e que, por ter uma personalidade dúbia, envolve-se com problemas de todos os tipos, chegando ao ponto de roubar os últimos móveis da família falida pra sustentar seus vícios e necessidades.

Não resta dúvida de que devo recomendar Leite Derramado para vocês. É uma obra curta, mas não é superficial e é decerto uma narrativa de que vocês se lembrarão, mesmo que se passe um ano. Esse é mais um dos livros que ficam muito bem nas nossas estantes – é uma obra que merece ser lida!

Luís

3 opiniões:

joyce domingos disse...

olá luis,

li esse livro tão logo ele foi lançado,e mesmo me confundindo entre tantas e tantas histórias,achei uma leitura muito gostosa....do meio para ''o fim'' fui ficando mais íntima com o livro...

recomendo mto tbm....afinal chico é sempre impecável,ne??

ps>>sobre bastardos inglórios,

amo tarantino....e delirei ao ver este filme....achei tdo eletrizante:elenco,roteiro,trilha....tarantino é sensacional...sempre espero coisas impactantes dele...e até agora n me decepcionei^^

bjbj

Kamila disse...

Gosto do Chico compositor, mas confesso que nunca li uma obra literária dele. Seria bom começar por este livro aí??

Rafael disse...

Chico Buarque tem estilo; Só não entendi a metáfora do Leite Derramado, porque sou péssimo em metáforas. Como rola? O leite tava fervendo com os avós e derramou com o neto? Jurava que, pelo nome, fosse uma obra de auto-ajuda.
Sabe, o Chico decadente que escreve para não morrer de fome. Que esperto eu sou. Latifundiários não morrem de fome.