12 de jul de 2010

Um Sonho Possível

The Blind Side - John Lee Hancock. EUA, 2009, 128 minutos.
Indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme e vencedor de Melhor Atriz (Sandra Bullock).
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Confesso que me deparei com uma situação que jamais imaginei: Sandra Bullock vencendo um Oscar. Acredito no talento da atriz e penso que ela seja uma artista plenamente capaz de realizar obras com qualidade; no entanto, sempre a vi em filmes medianos de comédia romântica que sempre serão lembrados pelos fãs de filmes light, mas que jamais seriam reconhecidos em grandes circuitos de premiação. Então, no final do ano passado li um artigo que falava sobre rumores de uma possível indicação ao Oscar e no começo desse ano eu pude vê-la na cerimônia, não apenas indicada, mas também premiada e a minha vontade por conferir The Blind Side apenas aumentou.

Baseado em fatos reais, o filme aborda a chegada de Michael Oher na família Tuohy. Leigh Anne, ao ver o jovem andando a esmo numa noite fria, decidiu acolhê-lo em sua casa por uma noite e essa “noite” se prolongou – Leigh Anne e seu marido aceitaram o jovem em sua casa, deram-lhe comida, alimentaram-no, tornaram-se seus representantes legais. Paralelamente ao aconchego familiar, o jovem sucedia nos esportes, parecendo deixar claro que era um potencial jogador de futebol americano.

Basicamente, essa é a premissa do filme. Sabemos que tudo aquilo que é “baseado em fatos reais” parece ter um charme a mais. Sempre fico pensando se as vidas das pessoas retratadas são mesmo tão dramáticas quanto mostradas nos filmes. É essa a sensação que me dá quando assisto a filmes como Johnny e June, O Último Rei da Escócia, Meninos Não Choram. Curiosamente, não tive esse pensamento em Um Sonho Possível. Isso se deve ao fato de que não há qualquer drama na vida pacata e cômoda da família Tuohy. Tudo parece bastante ajustado e perfeito no mundo deles e eu até fiquei com a impressão de que, exatamente pelo ajuste em excesso, tudo estava desajustado. Uma mulher traz um desconhecido pra casa e permite que ele durma lá numa noite: isso é aceitável. Fazer do abrigo temporário uma moradia fixa em pouquíssimo tempo sem que qualquer membro da família se oponha me parece bastante inverossímil. Mesmo se não houvesse oposição, eu esperava ao menos que houvesse um questionamento que os fizesse se perguntar se aquela atitude era sensata ou não. Isso não acontece em momento nenhum e tudo é realmente muito simples! É curioso também pensar que não haja qualquer amostra de preconceito. Um estudante negro numa escola onde só há brancos exige uma cena que mostre que ele sofre preconceito. Se todos fôssemos como a Leigh Anne do filme – tenho certeza de que a pessoa real passou por muito mais problemas para conseguir o que queria -, eu tenho certeza de que todas as pessoas carentes e desalojadas encontrariam em menos de uma semana um lar permanente.

Confesso que fiquei esperando pela cena-clímax; num filme de drama, essa cena usualmente apresenta conflitos de um personagem em relação a si mesmo ou em relação às outras pessoas e normalmente mostra o desempenho que faz com que acreditemos que se deve a ela a indicação do ator ou atriz à tão cobiçada estatueta. Sandra Bullock, no entanto, não teve esse seu momento de glória. Sua atuação é linear e a sua personagem é tão plana que tenho a impressão de que ela permaneceu rigidamente inalterada do começo ao fim. Não culpo a atriz, que realiza uma boa performance e está correta. Talvez tenha faltado ao roteirista um pouco mais de empenho ao escrever uma cena que exigisse um pouco mais da atriz ou talvez tenha faltado ao diretor um pouco mais de ousadia para pedir que ela chorasse de verdade na cena final. Talvez o maior erro seja do diretor, que simplesmente deixou Sandra Bullock alheia às reações normais das situações por que ela passa. Num acidente de carro envolvendo seus dois filhos, ela não chora, não se desespera; uma mãe provavelmente estaria tremendo de nervosismo. Ela não se exaspera diante dos comentários maldosos de suas amigas sobre o seu novo filho. Ela é boa demais, firme demais, controlada demais. Contraditoriamente, ela parece muito comum! Repito: não culpo a atriz, mas sim o diretor e o roteirista. Só para constar: não creio que essa atuação valeria a alguma atriz o prêmio máximo do cinema.

O filme se limita a Leigh Anne Tuohy e Sandra Bullock. Ou seja, todos os outros atores e personagens são apenas figuras que estão ali para dar suporte à linearidade assombrosa da protagonista. Nem mesmo o garoto, Michael Oher - que deveria ser protagonista da sua própria história -, tem importância na trama. Talvez se tivessem lhe dado mais destaque e tivessem nos mostrado a sua infância ou eventos anteriores à sua adoção, o filme seria mais dinâmico e teria mais emoção. Acho que o termo correto é: sem emoção. É exatamente isso que senti ao assistir Um Sonho Possível – que, vale ressaltar, é um péssimo título! Não é uma obra ruim, mas a sua falta de emoção e a comodidade da direção me fizeram considerá-la apenas “mais uma obra cinematográfica”. Acredito que daqui a um mês nem me lembraria do filme e, com sorte, me lembrarei um pouquinho da atuação de Bullock. Honestamente, prefiro-a em filmes de comédia romântica, como Enquanto Você Dormia; em filmes de romance, como A Casa do Lago, ou mesmo em um suspense, como Cálculo Mortal.

Luís

4 opiniões:

Fabricio bezerra da guia disse...

eu gosto da maioria dos filmes da sandra bullock.eu achei injusto ela ter ganho o framboesa de ouro por pior atriz,mas ela mereceu ganhar o Oscar.Prova que ela é uma atriz muito versatil

Guilherme Bayara disse...

Ainda não vi o filme, mas a impressão que tive ao ver o trailer foi exatamente essa, sem emoção. Acreditava que era apenas nas parte em que eram mostradas no trailer, vejo que me enganei.

Quero ver o filme.

Acho a Sandra uma atriz incrível, mas não posso argumentar se o prêmio deveria ser dado a uma interpretação de um personagem tão sem emoção.
Verei o filme e tirarei minhas conclusões.

Thiago Paulo disse...

Concordo com você em partes, realmente o filme é Sandra Bullock, os outros atores não se destacam. Mas, por um outro lado gostei da atuação dela, pelo que o marido diz, a personagem tem aquele jeito fechado mesmo.

A chei a indicação da atriz válida, e até gostei dela ter ganho, mas como Mlehor Filme fica complicado.

Até breve!

Renan disse...

É estranho ver as indicadas do ano passado e sobrepor suas atuaçoes com a da Sandra Bullock. Depois que vi Preciosa, achei ainda mais estranho. Penso que estamos acostumados a atuações fortes que nos deixam tensos. Em um Sonho Possível isso não ocorre, mas é aí que mora o diferencial do longa.

Sanda Bullock como Leigh Anne Tuohy
se mostra uma mãe forte, que defende seus filhos (como na cena em que ela vai sozinha até o bairro onde o filho morava), sem deixar que isso afete no seu carisma.

Acho que foi por isso que Sandra Bullock ganhou o premio, por se mostrar diferente. Não posso falar se foi merecido, pois ainda não vi todas as concorrentes, mas acho que foi um incentivo para que ela continue fsazendo filmes de gêneros diferentes dos quais ela é conhecida.

ps: concordo que Um Sonho Possível é um título terrível.