25 de mai de 2010

Desejo e Reparação

Atonement. Reino Unido, 2007, 120 minutos. Drama.
Ganhador do Oscar de Melhor Trilha Sonora e indicado a outras 6 categorias.
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Depois de todos me falarem que Atonement é um dos melhores filmes produzidos recentementes, eu me senti obrigado a vê-lo. A princípio, algo me dizia tratar-se de uma obra mediana, afinal estavam presente no elenco Keira Knigethly e James McAvoy. O meu problema é principalmente com ela, já que quase não percebo mudanças em suas interpretações, como se todas as personagens fossem a mesma. Em relação a ele, apenas me parece que o filme podia ser denso demais para ele... Como percebem, puro preconceito e um grande erro.

Dificilmente podemos ver um filme tão psicológico como esse. O assombro que ele causa não é pelo que ele mostra explicitamente, mas por aquilo que vemos nas entrelinhas. A densidade sentimental se embasa numa análise interior, bastante árdua, tanto para os personagens quanto para os espectadores. A principal abordagem desse filme é o arrependimento e a maneira como o tempo faz com que sejamos postos diante de nossas escolhas feitas quando jovens. Briony é uma menina de 13 anos bastante decidida. Percebe um envolvimento entre Cecilia Tallis, sua irmã mais velha, e Robbie, filho de um ex-empregado. Ela não compreende bem o que significa a relação deles, mas um dia presencia três eventos que fazem com que seu pensamento interfira drasticamente na verdade e, por causa de uma mentira, a vida desses três personagens muda completamente.

O filme basicamente se divide em três atos, que coincidem com variações na idade de Briony. No primeiro momento, vemo-la pré-púbere e contrastante: sua mente fria pouco condiz com sua pouca experiência e esse é estopim para a próxima hora e meia em que veremos as consequências de uma mentira. Particularmente achei esse momento interessantíssimo pois duas das principais cenas são vistas sob duas perspectivas - a de Briony e conforme aconteceu, sem impressões pessoais. A princípio, ainda que bem interessante, esse recurso parece sem propósito, mas logo percebemos o quão necessário ele é. Tão logo que o segundo ato começa, o roteiro se ocupa em uma análise mais psicológica, mostrando que os personagens passaram por bruscas rupturas, de forma que o momento pelo qual passam não poderia ser diferente. Essa é a parte em que Briony - interpretada por uma segunda atriz -, já com 18 anos e plenamente consciente do mal que causou, submete-se à provação, sacrificando possíveis sonhos para render-se à sua meta catártica. Cecilia e Robbie parecem fadados à separação, embora haja entre eles grande desejo de estarem um com o outro. Com delicadez, o roteiro mostra a dedicação de Briony em conseguir purificação; o desespero de Robbie, que estava louco pra voltar para os braços da amada; Cecilia, que trabalhava num hospital e que aguardava o homem que ama. O terceiro e o último ato é o mais curto e definitivamente conclusivo. Nesse ponto, o filme foca em Briony - interpretada por uma terceira atriz -, já idosa, falando a respeito do lançamento do seu livro no qual narra exatamente a história de sua vida.

Lembram-se no primeiro parágrafo quando disse que Keira Knightely e James McAvoy pareciam não combinar com o filme? Pois estava totalmente enganado. Ambos realmente bem em seus papéis e a minha grande surpresa fica por conta dela, afinal tenho para mim que Cecilia Tallis seja a melhor personagem de Keira no cinema. Já McAvoy não está tão diferente de outros personagens, como no filme O Último Rei da Escócia, mas está igualmente numa atuação positiva. Talvez ela esteja um pouco agressiva demais no começo e ele deveras fragilizado, mas logo os atores entram no clima adequado e cumprem bem a proposta apresentada. No ano retrasado talvez tenha sido o momento certo para nomeá-los pela primeira vez (eu sei que ela já recebeu uma indicação por Orgulho e Preconceito, mas nem considero aquela nomeação válida). Ainda quanto a interpretação, o grande destaque se concentra em três pares densos de olhos azuis: Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave interpretam a mesma personagens respectivamente aos 13 anos, aos 18 anos e na fase idosa. Todas participam o tempo suficiente para que olhares profundos marquem o espectador. Dentre as três, é claro que o destaque vai para a mais nova, que inclusive foi indicada ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante, mas todas estão realmente muito bem.

Como se não bastasse um grande trabalho do elenco, há uma direção muito boa de Joe Wright - que nem sequer recebeu uma indicação - e uma trilha sonora que intensifica cada cena exibida. Como se criada especialmente para cada gesto, ora sutis, ora enérgicos, os toques musicais ampliam cada sensação, tornam-na maior, mais bela. Tal como uma fala do filme, Atonement é um filme sem rimas e sem embelezamento, mas ainda assim é pura beleza e poesia. Deixar de vê-lo consiste em realmente perder uma das melhores obras lançadas nessa década. Assim, não posso simplesmente fechar essa resenha sem pedir que vocês confiram essa produção de forte carga emocional.

Luís
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6 opiniões:

Thiago Paulo disse...

Esse filme é muito bom mesmo. Fiquei impressionado quando assisti. Uma coisa que gosto é o barulho da máquina de escrever, achei fantástico. Agora me diz: de onde surgiu Saoirse Ronan? Essa menina é demais! Como você disse, é o destaque do filme.

Abraço!

Marcelo A. disse...

"Atonement" - como você prefere chamar - é um dos filmes que eu mais gosto. Você resumiu muito bem como me sinto em relação a ele, em sua resenha: "(...)é um filme sem rimas e sem embelezamento, mas ainda assim é pura beleza e poesia." Sinto muito por não ler o livro, mas prometo que ainda o farei - muito em breve, espero.

Algumas razões pela qual vale a pena assistí-lo:

1)Uma linda história de amor, daquelas que não se faz mais;

2)Dois dos rostos mais bonitos do cinema - na atualidade - pra mim (você sabe disso): McAvoy e Knigethly.

3)Saoirse Ronan. Deus, como gosto dessa garota!

Bela crítica de um belo filme - que toda vez que vejo, lembro de você comentando das unhas do McAvoy... Uahahahhahhaa!!!!

Marcelo A. disse...

Gente, e como esqueci de comentar? Que tomada é aquela, de mais de cinco minutos, quando eles chegam à praia?! Nossa... até o mais empedernido coração balança ali.

=)

Renan disse...

O título (mal traduzido), o modelo da capa e a presença da Keira Knigethly traz a impressão que esse filme seria no estilo de Orgulho e Preconceito. Uma impressão falsa.

Nesse filme, há pontos positivos como a presença da garotinha que traz toda a diferença.

O casal principal, pra mim, é meio chatinho e o próprio enredo não entretém.

Caio Coletti disse...

É uma produção muito emocional, como você disse, e o que mais me agrada nela é como foge das convenções, consegue ser criativa e inventiva sem para isso precisar ser espirituosa ou mesmo cômica, clima que não combinaria com a trama. É a prova de que dramas de época são, sim, terreno fértil para experimentação cinematográfica.

Só discordo com você em relação a Romola Garai. Achei a atuação dela fraca se comparada as de Saoirse Ronan e Vanessa Redgrave. E o primeiro ato para mim foi o mais marcante, o mais bem estruturado. Os outros tem seus grandes momentos e concluem a trama com maestria, mas não tem a energia e a novidade do primeiro. É um filme que surpreende a quem vai vê-lo com preconceitos arraigados.

E Keira e McAvoy formam um casal central encantador, enérgico, interessante e vivo como poucos no cinema hoje. Realmente um filme que merece ser visto.

Abraço! :D

Cristiano Contreiras disse...

Pra mim, uma obra-prima incontestável.