23 de mai de 2010

Gota D'Água

Brasil, 1973, 170 páginas (editora Civilização Brasileira - 39ª edição). Autores: Chico Buarque e Paulo Pontes.
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O livro é resultado da adaptação de Medeia, famosa tragédia grega, para a contemporaneidade e, principalmente, para o cenário nacional. Oduvaldo Vianna Filho recriou a história para a televisão e, inspirados por isso, Chico Buarque e Paulo Pontes compuseram uma peça de teatro, que mais tarde foi transcrita para um livro, sendo que esse contém exatamente as indicações conforme a peça de teatro.

Para os que não tem conhecimento da intertextualidade, Medeia aborda a vida de uma mulher traída, que, revoltada por ter sido trocada por outra mulher, decide transformar a vida do esposo, Jasão, um inferno. Gota D'Água, sendo uma narrativa intertextual, tem como personagens Joana - aqui no lugar de Medeia - e Jasão, que vivem no Rio de Janeiro, num conjunto habitacional cujo dono é Seu Creonte, pai de Alma, que foi escolhida por Jasão como nova esposa. Joana, dilacerada, não apenas cria transtorno para Jasão, como - assim como Medeia - descobre um jeito absurdamente inesperada de vingar-se do ex-marido: matando-lhe os filhos.

Não me restam dúvidas de que todos os professores de literatura deveriam requerer que seus alunos lessem esses dois livros, principalmente quando o assunto tratado for o teatro. Ler Medeia é essencial para que depois, ao ler Gota D´Água, o aluno possa compreender o que significa a releitura na literatura. Chico Buarque e Paulo Pontes souberam como captar todos os momentos do momento histórico no qual Medeia se passa e transpô-los para a contemporaneidade: a magia mitológica já não existe; em seu lugar estão os terreros de macumba, a magia negra. Em vez de reis, há homens ricos; em vez de princesas, há as filhas dos homens ricos. De muito bem estruturado, os autores fizeram com que nós pudéssemos compreender tanto a realidade mítica de Medeia quanto a realidade concreta de Joana; as duas são a mesma mulher, vivem em épocas diferentes e, por conseguinte, passam por situações diferentes em sua concretude, mas iguais em sua essência. Quanto a Jasão, fica evidente que ele tem muito mais espaço na versão atualizada e abrasileirada. O Jasão moderno é bem brasileiro: torna a música de alcance popular, faz parte da massa. Joana, tal como ele, também é bem brasileira: vive cercada pelo calor humanos de pessoas pseudopreocupadas, se está com raiva, fica com o sangue fervendo, explode facilmente. Creonte é representação magnífica dos homens de negócio: finge preocupação e honestidade, mas rouba tanto quanto pode. De um modo bem esperto, legaliza todos os seus roubos, cobrando mais do que deve, tornando os moradores mais miseráveis.

Talvez o que torne Gota D´Água muito melhor que Medeia seja o fato de que a obra de Chico e Paulo Fontes é bastante ampla e é bastante acessível, todos podem lê-la. Embora a escrita se apresente de modo bastante popular - o que implica no uso de termos simples -, percebemos que tal característica requereu dos autores pesquisa e dedicação, afinal, o livro é bastante complexo. O livro vai além de uma simples narrativa: com eficiência, somos apresentados àquela característica mais comum das pessoas - elas estão ao nosso lado até o momento em que ela começam a perder algo por causa disso. Entre o próprio bem-estar e o conforto do amigo, as pessoas dão preferência por si mesmas - isso é mostrando de modo excelente quando todas as amigas de Joana, que antes estavam ao seu lado, falham-lhe que aceitarão o emprego que Creonte, pai da mulher com que Jasão se casará, lhes ofertou.

Para mim, o simples fato de haver o nome de Chico Buarque na capa já indica que o livro deve ser, ao menos, respeitado. Decerto há os que não gostaram dessa leitura - eu a adorei e a recomendo. Para mim, é extremamente válido ler a obra original e depois a releitura, para que se percebam duas perspectivas da mesma história. Isso talvez prove duas coisas: 1) as obras de Chico são sempre boas; 2) o adultério e as consequências dele são um tema atemporal. Tendo explicado de modo bastante sintético, fecho minha resenha com a recomendação de leitura.

Luís

3 opiniões:

Marcelo A. disse...

Uma vez ouvi que Chico e Paulo se inspiraram, além da tragédia, é claro, num roteiro que Oduvaldo Vianna fez para a TV e que teve Fernanda Montenegro como protagonista. Nunca assisti, pois ainda não estava sequer nos projetos dos meus pais, mas já tive a oportunidade de conferir alguns trechos em programas como Video Show.

Já Gota D'Água li quando, na época da facul, havia escolhido, inicialmente, o Teatro e a Censura como objetos de estudo da minha Monografia - já te contei essa história. Gostei muito. A Monografia não rolou, mas valeu muito a pena ler o livro.

Nossa, Match Point é um filmaço! Preciso rever...

Abração!

Marcus disse...

concordo com você, prefiro ler algo que possa ter acontecido de verdade, do que aquelas cheias de "magias" e contos com seres imaginaveis. E sem contar que os autores, que só de saber quem escreveu, ja sabemos que o livro é bom.

Ewerton disse...

Gota d'Água é realmente um texto muito bom! Aliás, ele reflete perfeitamente o universo de Chico Buarque.

Boa recomendação!

:)