31 de mai de 2010

Nine

Nine. Estados Unidos, 2010, 112 minutos, musical. Dirigido por Rob Marshall.
Indicado a 4 Academy Awards: Melhor Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz), Melhor Canção Original, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte.
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Rob Marshall está bastante empenhado em compor grandes musicais. Em 2002, o diretor nos trouxe Chicago, que é um filme que divide opiniões: há aqueles que gostam dele e aqueles que simplesmente o acham intragável. Eu reconheço defeitos no filme - como o fato de haver uma protagonista num filme musical que, curiosamente, não canta bem -, mas creio que o efeito final seja mais positivo do que negativo. Em 2005, Marshall dirigiu Memórias de Uma Gueixa, que, como o filme anterior, concorreu ao Oscar. Em 2009, mais uma vez, ele nos mostra um musical. Desta vez, ele se superou: o elenco é mesmo assustador e a obra foi toda estruturada num gigantismo que provocou anseio e temores nos cinéfilos: o que esperar da mais recente produção desse diretor?

Nine é uma releitura de 8 1/2, obra famosíssima e autobriográfica de Fellini e que, curiosamente, também concorreu ao Oscar (na 36ª edição). Marshall recria praticamente o meu conteúdo: Guido é um diretor que entra crise criativa, o que o impede de dar continuidade ao roteiro de seu filme seguinte, cuja abordagem se refere ao país natal dele mesmo, a Itália - tanto é que esse é o título de sua nova produção. Sem saber bem como lidar com a situação, ele acaba encontrando várias mulheres que ou fizeram parte de sua vida, como a esposa Luisa Contini, a amante Carla Alabnese, a sua musa Claudia, a repórter Stephanie, a figurinista Lili, a sua paixão de infância Saraghina e até mesmo sua mãe.

Devo começar dizendo que Nine é uma obra estranha. Primeiro porque o elenco de peso não significa nada, já que cada atriz apenas aparece para apresentar o seu número musical e, logo depois, desaparecer da trama. Algumas, como Marion Cotillard e Penélope Cruz retornam mais uma ou duas vezes, mas sem aparições frutíferas. Daniel Day Lewis, um ator bastante conhecido pelo seu talento, nesta obra de Marshall, é tão coadjuvante quanto qualquer outra personagem - ele significa pouco para o filme, mesmo que apareça o tempo todo. O problema disso se deve ao roteiro, que não costura bem os pontos, não permite um desenvolvimento linear de cada cena; Nine é apenas vários números musicais colocados em sequência. Talvez por ser um filme musical que fale sobre a Itália, o filme acabou usando os próprios atores como marketing: duas atrizes haviam participado de musicais antes (Nicole Kidman e Marion Cotillard em, respectivamente Moulin Rouge e Piaf) e haviam inclusive conquistado status pelos filmes em que atuaram; uma das atrizes é também cantora (Fergie); uma das atrizes é, além de lenda, verdadeiramente italiana (Sophia Loren). Vale ainda ressaltar que praticamente todos os atores - a exceção fica por conta de Fergie - já haviam sido indicados a ou tinham ganhado prêmios da Academia - o que os torna ainda mais valorizados. Assim, Nine é uma obra embasada no puro comércio de grandes nomes.

Deixando esse aspecto de lado, comentarei sobre os números musicais, os quais, devo dizer, são bem estranhos. O cenário nunca muda, é sempre o mesmo. A única cena na qual vemos alguém cantando fora daquele teatro é quando Nicole Kidman tem o seu momento cantante, mas uma única cena não muda o fato de que tudo o que vimos antes nos causa a impressão, talvez errada, de que houve falta de vontade de explorar novos modos de compor aqueles números musicais. Há nas cenas certa dose de exagero, tudo parece destoante. O exemplo mais claro a se citar talvez seja aquele momento no qual Kate Hudson canta Cinema Italiano: a música é bem pop, tem um ritmo legal, mas a cena toda se assemelha a um clipe da Britney Spears - incluindo a própria Kate Hudson! Quando Sophia Loren canta - isto é, considerando que seja ela mesmo quem está cantando -, o espectador sente sono, de tão mole (não encontrei outro adjetivo equivalente) que é aquela cantoria e de tão insignificante - além de absurda - a sua participação na história. Nicole Kidman está linda como sempre, mas igualmente desperdiçada e o mesmo se pode dizer de Judi Dench. Fergie é apenas um atrativo, Marshall nem sequer se preocupou em tentar arrancar dela um pouco mais. Ou seja, das sete atrizes de destaque, cinco representam pouquíssimo para a história. Dedico então o próximo parágrafo para falar das atrizes que sobram e, obviamente, para comentar sobre o protagonista.

Penélope Cruz tem grande destaque na trama. Interpretando a amante de Guido, a atriz mostra um bom desepenho, provando para todos que ela é decerto uma das novas queridinhas da Academia e com motivos para isso! Recebeu a terceira indicação em 4 anos e tem mostrado a nós que é talentosa em comédias, dramas, musicais. De fato, é uma atriz que crescerá muito nos próximos anos. Sua indicação foi justa? Eu diria que sim se - e somente se - houvessem também indicado Marion Cotillard. Considerando que Cotillard não recebeu nem sequer uma indicação, fica evidente que Cruz também não merecia. Isso porque a atriz francesa é o grande destaque desse musical. O filme não é bom, o roteiro é confuso, os atores são mal aproveitados, mas Cotillard é fantástica e basta aparecer em cena para que o espectador saia do transe e volte aprestar atenção. Suas cenas são lindas, seu olhar tenro e raivoso comove, sua expressão lhe valeria, no mínima, uma posição na lista das cinco indicadas a Melhor Atriz Coadjuvante. Recomendo que prestem especial atenção na cena musical na qual ela canta Take It All - decerto, a mais bela do filme. O porquê de a Academia não tê-la indicado?! Uma boa pergunta. Daniel Day-Lewis deveria ser o astro - infelizmente ele não o é. E isso não se deve à sua incapacidade, porque todos sabemos que ele é ator regular. O problema recai sobre Marshall, que definitivamente fez de seu filme uma decepção para os fãs.

Como era de se esperar, um filme musical que se passa há várias décadas tem características positivas: o figurino, a fotografia e a direção de arte. E esses elementos estão presentes na obra, mas não a auxiliam muito, uma vez que o elenco e o roteiro estão bem destoantes. Lembram-se da pergunta que fiz acima, no final do primeiro parágrafo? A resposta é: não esperem muito de Nine, porque o filme está entre o razoável e o irregular. É uma pena ver tanto nomes bons servindo como marketing para um diretor dúbio como Marshall. Se não o viram no cinema, não se desesperem. Vejam-no em casa, com alguém agradável (e que enteda de cinema), para que possam comentar sobre tudoi aquilo que cada ator já fez de bom antes de Nine.

Luís

6 opiniões:

Vanessa Monique disse...

Agora fikei me perguntando se qro assistir.
mas antes tava louca p assistir,gosto mt de musicais.
fluem.blogspot.com
:*

Caio Coletti disse...

Concordo que "Nine" não seja o melhor dos musicais dessa (nem tão) nova safra, mas confesso que gostei do filme. Acredito muito no potencial de Marshall como diretor, ele conhece muito de técnica e dedica um trabalho cuidadoso a cenários, climatizações e trabalho de atores. Nesse último aspecto, não custa destacar que ele é absolutamente perfeito.

Discordo quanto as "aparições-relâmpago". Acho que só valoriza mais o impacto de cada atriz o fato de elas serem "protagonistas passageiras" do filme. Nicole Kidman ainda é a mesma cortina transparente de emoções, e confesso que me vi profundamente tocado em seu número. Judi Dench mostra um lado extravagante que não tinha a oportunidade de demonstrar há algum tempo, contida nos terninhos de M. Penélope é um furacão de inocência e sensualidade, brilhante em seu exagero característico. E Marion, como você disse, é o grande destaque com uma interpretação intensa e sensível.

E adiciono que Daniel Day-Lewis acrescenta uma presença forte e sólida como o protagonista. Acho que "Nine" é, sim, um filme construído em cima das performances e reconheço que alguns momentos (especialmente Sophia Loren e Fergie) soam como "enrolação" da parte de um roteiro com pouca coesão, mas o conjunto é colocado com glórias por Marshall.

Enfim, é minha opinião.
Abraço! :D

Marcelo A. disse...

Lembro quando comentou que havia visto "Nine" no cinema. Acredita que ainda não pude conferí-lo? Depois de sua resenha, não sei se quero fazê-lo. Gosto até de musicais e estava curioso em "assistir" esse elenco estelar. Além do mais, é um filme do Marshall e queria ver o que ele tinha a oferecer depois de Memórias de Uma Gueixa. Isso sem falar no fato da história ser baseado em 8 1/2! Mas, enfim, não rolou! Vou esquecer sua crítica primeiro e depois vejo o filme...

Abração!

Ewerton disse...

Pô, assisti Nine no cinema e achei bom. Assim, não é aqueeele musical. A estória é extremamente sofrível... mas o elenco compensa!

Ver a Penélope Cruz cantando e dançando é muito bom. E a Fergie nem está parecendo ela mesma no filme.

Apesar das falhas, é um filme assistível, digamos.

:)

Renan disse...

Vários fatores ajudaram para que eu não gostasse tanto do filme,começando pelo enredo chatinho e terminando na sala de cinema muito desconfortável do Lupo.

Take it all e Cinema Italiano são muito boas, mas os pontos positivos acabam por aqui. Do resto é um lenga-lenga sofrível (utilizando o adjetivo do Ewerton).

Marion merecia mais a indicação que a Penelope, e por sua vez, Julianne Moore (Direito de Amar) merecia mais que a Marion.

Luís Figueiredo disse...

Falar que a as atrizes aparecem, cantam e somem é reduzir toda a metalinguagem desse filme. sinceramente de todo o seu blog esse é um dos poucos posts infelizes.